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06/03/2009

Crescimento americano: o pior nunca é certo

Le Monde
Sylvain Cypel
Tornou-se o debate do dia nos Estados Unidos: o país estaria se afundando em uma depressão? Sentimos os primeiros sinais desse debate desde o anúncio do orçamento proposto por Barack Obama na quinta-feira (26 de fevereiro), uma vez que as previsões sobre as quais ele se baseia (um retorno a um crescimento sustentado a partir de 2010) pareceram otimistas demais para muitos economistas. Isso foi reforçado com o anúncio, no dia seguinte, de um crescimento negativo de 6,2% no último trimestre de 2008. Com a publicação, na terça-feira (4 de março), do relatório da conjuntura do Federal Reserve (Fed, banco central americano), esse debate se impôs como um indício.

O Fed tem descrições catastróficas para os dois primeiros meses do ano: uma queda dos investimentos e da atividade (consideravelmente em alguns setores: as vendas de veículos caíram 41% em fevereiro), um aumento vertiginoso do desemprego, um setor imobiliário cada vez mais fraco e um "nível de crédito disponível" que, apesar dos esforços dos poderes públicos, não se solta.

Organismo muito político, o Fed conclui, no entanto, que uma "grande retomada" poderia acontecer no "fim de 2009 e começo de 2010", de acordo com o prognóstico da equipe Obama. Essa perspectiva parece utópica, para muitos.

Se um recuo do crescimento limitado a -1,2% para 2009 parece muito otimista (Goldman Sachs prevê uma queda de 7% no primeiro trimestre), um crescimento de 3,2% a partir de 2010 parece ainda mais. Muitos falam agora de uma continuidade da recessão no ano que vem, apesar do plano de crescimento, que a maioria julga necessário para evitar uma degradação ainda maior. Daí o surgimento do termo "depressão". Assessor de Obama e ex-presidente do Fed, Paul Volcker havia dito isso em 20 de fevereiro.

Em maio de 1930, sete meses depois da "quinta-feira negra" de Wall Street, o presidente americano Herbert Hoover anunciava: "O pior já passou, vamos sair logo da crise". Dois anos mais tarde, 770 bancos haviam falido e o desemprego atingia um quarto dos americanos. Essa lembrança assombra os Estados Unidos. Mas alguns economistas enxergam aí um trauma que mascara a realidade. A palavra também pode ser escrita sem o "D" maiúsculo. Ao contrário da recessão, não existe definição "teórica" aceita para a depressão. Para alguns, ela exige três anos de queda do PIB passando os 10% e de desemprego acima de 10%. Para outros, no fundo ela não passa de uma recessão longa. Para todos, ela só se constata com o recuo do tempo.

O cenário em que se encontra a Casa Branca é de um "V": uma queda brutal no início de 2009 e uma retomada ao ponto de transição 2009-2010. Explicação de Christina Romer, a assessora econômica de Obama: a História mostra que as fortes quedas são, com frequência, seguidas de retomadas vigorosas. Ela não convenceu.

Os economistas vislumbram outras três possibilidades. A primeira, em "U", é a mencionada com mais frequência, sendo resumida da seguinte forma por Sung Won Sohn, professor da universidade pública da Califórnia: "A recessão será mais longa e a retomada, mais anêmica que o previsto". A segunda, em "W", prevê uma curva em ziguezague em um tempo mais longo. Não é necessário se precipitar para declarar o fim da crise ao primeiro sinal de melhora", avalia Stephen Roach, executivo da Morgan Stanley na Ásia. Haverá retomadas momentâneas e novos recuos. O terceiro cenário, em "L", é explicado por Nouriel Roubini: após uma longa recessão, não há um verdadeiro retorno de crescimento, mas sim uma estagnação durável. O economista nova-iorquino (que prefere o cenário em "U") avalia sua probabilidade de uma em três.

Para o Prêmio Nobel de economia 2001, Michael Spence, professor em Stanford (Califónia), a espiral depressiva está instalada. Vista a interconexão das grandes economias internacionais, incluindo países emergentes, tudo dependerá da capacidade de seus governantes para "intervir de maneira coordenada sobre a economia real e o setor financeiro. Se eles forem bem-sucedidos, ele consegue ver a luz "durante 2010. Senão, será pior".

Se ela durar até o fim deste ano, a recessão atual já será a mais longa desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Passando disso, ela entraria em seu terceiro ano, crucial para o diagnóstico da depressão. Na terça-feira, diante do Congresso, Ben Bernanke, o presidente do Fed, declarou: "Não estamos na escuridão completa, sabemos basicamente o que devemos fazer". Mas na véspera, ele havia indicado que todas as previsões atuais estariam sujeitas a "uma incerteza considerável". Ele não está seguro de que a franqueza de suas propostas contribua para manter uma confiança da opinião americana na economia cuja pesquisa, publicada na quarta-feira, confirma que depois de ter atingido seu ponto mais baixo na História, ela continua a se degradar.

Tradução: Lana Lim

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