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07/03/2009

Após "milagre econômico" de Putin, região de Ural é ameaçada pela crise

Le Monde
Marie Jégo Em Magnitogorsk (Rússia)
Aqui, as pessoas leem o futuro na fumaça penetrante e escura cuspida pelo complexo siderúrgico MMK. Relíquia da industrialização da época stalinista, esse monstro de ferragens e as cerca de trinta usinas ligadas a ele dominam um território enorme à margem oriental do rio Ural. Enquanto o ventre industrial de Magnitogorsk (cidade do Ural a duas horas de voo de Moscou) roncar, cuspir e for ativo, terão emprego garantido 70 mil habitantes, ou seja, 30% da população em idade ativa.

Durante o outono de 2008, a fumaça lançada pelos altos-fornos começou a rarear, e surgiu a preocupação. "Não estávamos realmente esperando", explica Viktoria. A jovem loira de seus trinta e poucos anos havia provado das alegrias do "milagre econômico" dos anos Putin (2000-2008), comprando um carro estrangeiro a crédito, dando seus primeiros passos como redatora-chefe no site de informações municipais Mgorsk.ru. Em outubro de 2008, o site fechou. Viktoria perdeu seu emprego e suas ilusões.

Situada na margem ocidental do rio, em frente ao complexo, a cidade de 409 mil habitantes possui os vestígios do boom econômicos da última década. Salões de beleza, restaurantes, centros comerciais brotaram ao longo das três principais avenidas de nomes intocados desde a época soviética: a "Karl Marx", a "Lênin", a "Soviética".

"Toda a região nos invejava!", conta Viktoria. "Os salários de nossos operários eram os mais altos: 15 mil rublos (R$ 1.276, antes da desvalorização de 35% do rublo). A crise caiu sobre nós bem quando começávamos a nos levantar".

Em outubro de 2008, o sonho do bem-estar e da estabilidade desmoronou. A atividade do complexo entrou em declínio. Os pedidos sumiram, a produção de aço e de ferro fundido caiu para menos da metade - 420 mil toneladas em dezembro contra 1,1 milhão de toneladas em julho. Quatro entre oito altos-fornos deixaram de funcionar.

Milhares de trabalhadores se encontraram em repouso forçado, e seus salários foram cortados em 20% a 50%. A direção da empresa afirma que as demissões em massa foram evitadas. "Há 24 anos o complexo é o empregador número um desta cidade; se ele parar, tudo para", resume Elena Azovtseva, porta-voz da empresa. Mesmo assim, os desgostos do complexo se espalharam. A construção civil, o comércio e a indústria demitiram de forma mais ou menos descarada.

Vitali, de trinta e poucos anos, acaba de perder seu trabalho de fresador na fábrica de parafusos Metiz, filial do complexo. Não, ele não foi demitido; ele partiu voluntariamente, sem indenizações, como lhe sugeriu a direção. Para não arrumar problemas com a empresa, ele foi embora sem reclamar, de mãos vazias. "Assim, se a atividade voltar, eles me chamarão novamente", ele espera.

Aguardando dias melhores, ele se diz pronto para aceitar "qualquer trabalho". Uma pequena volta no Centro para o Emprego o deixa perplexo. Cerca de cem pessoas invadiram o pequeno lugar. Com 6 mil desempregados inscritos, o centro só possui 300 vagas a oferecer, em geral empregos pouco qualificados - pedreiros, vigias, faxineiras - e mal remunerados (entre 4 mil e 5 mil rublos mensais, ou seja, R$ 260 a R$ 325).

Vitali está preocupado. Com um salário tão baixo, como pagar o empréstimo - em dólares - de seu Volkswagen, pagar a pensão alimentícia de seu filho, garantir as despesas de gás e eletricidade de sua moradia? Fiodor, de 24 anos, também está preocupado. Recém-formado na faculdade de Direito, ele sabe que não encontrará trabalho em sua especialidade: "Formamos advogados demais na Rússia". Já está decidido, ele será motorista de ônibus. A formação custa 14 mil rublos (R$ 915 reais), e o centro está disposto a pagar a metade, mas Fiodor não tem certeza de que conseguirá o resto.

O Centro para o Emprego se adapta com dificuldade. As pessoas fazem fila para se inscrever, recebem um tíquete numerado, e devem voltar para uma entrevista. Em quatro meses, o número de pessoas procurando um emprego em Magnitogorsk cresceu cinco vezes. No entanto, as 6 mil pessoas inscritas só representam 11% do número total de desempregados.

"A maior parte das pessoas desempregadas não são registradas", explica Viktoria. Ela mesma achou melhor não fazê-lo. Por quê? Ela não corre atrás da indenização de desemprego oferecida (5.600 rublos, ou R$ 367). Seu marido, pequeno empresário, sustenta a família. O casal acaba de quitar as prestações do pequeno imóvel de dois cômodos comprado antes da crise. Só falta pagar o empréstimo do seu Ford; felizmente, Viktoria havia optado por um pagamento em rublos. Entre janeiro e fevereiro, a moeda russa se desvalorizou 35% em relação à "cesta" de divisas (euros-dólares) que lhe serve de referência.

Não é fácil obter informações em Magnitogorsk. A "vertical do complexo" está em funcionamento. É um muro de silêncio tão espesso quanto as espirais de fumaça que saem dos altos-fornos. Assim que veem uma jornalista, estrangeira, ainda por cima, os oficiais se mostram inquisidores. "Conte quem você viu durante sua estadia e o que eles lhe disseram", diz Elena Azovtseva, porta-voz do complexo, em um tom que não admite réplicas.

Aqui não há sindicato independente, nem partidos de oposição; nem sociedade civil, nem associação de proteção ao meio ambiente, ainda que a cidade seja muito poluída. "Ninguém quer se arriscar a fazer uma única crítica contra o complexo que alimenta toda a cidade", explica Viktor, um metalúrgico aposentado. O complexo cuida de tudo: do bem-estar e da saúde dos operários, da escola de seus filhos, do lazer de suas famílias e, é claro, da ecologia. Ele contribui com 70% do orçamento da cidade, fornece o aquecimento e a água quente, patrocina a equipe de hóquei sobre gelo, construiu as duas estações de esqui ultramodernas a cerca de 60 quilômetros de lá.

O prefeito de Magnitogorsk, Evgueni Karpov, é um ex-diretor financeiro da empresa, ainda que a maior parte do comércio da cidade seja de propriedade de Andrei Morozov, um ex-diretor adjunto do complexo. "A cidade funciona como um pequeno principado", resume Rosalia Belochapko, empresária e membro do conselho municipal. Essa morena de ar determinado, penteado impecável e casaco de vison se lançou nos negócios em 2003, com a construção de dois centros comerciais.

"Quando pedi os alvarás de construção, a prefeitura me sugeriu construir primeiro, que os alvarás viriam depois, mas eu continuo esperando", ela conta. Mal os prédios ficaram prontos, uma série de fiscais avançaram sobre sua empresa: do fisco, de segurança, de higiene. A prefeitura exigiu a demolição dos centros. Rosalia estava ameaçada de perder sua propriedade. Ela teve de defender sua causa em Moscou, encontrando um ouvido amigo junto aos deputados da Rússia Unida, o partido pró-Kremlin que, desde a crise, não para de se gabar da diversificação da economia e do desenvolvimento das pequenas e médias empresas (PME).

"Se cada empresário deve ir até Moscou para implorar ao czar toda vez que tem problemas, pode-se entender por que as PME não se desenvolvem", ela conclui.

Viktor Barabanov, que dirige a associação local dos pequenos empresários, lamenta a monopolização da economia. "Magnitogorsk é uma cidade monoindustrial parecida com muitas outras da Rússia. Seu modelo de desenvolvimento se guia pelo reinado de uma corporação pouco interessada em ver a concorrência se desenvolver".

Alexei Odintsev, proprietário do Hotel Avrora, o mais elegante da cidade, está triste. Ele acreditou no "milagre" econômico russo. Fortificado com suas exportações de petróleo, o país mostrou, durante anos, um crescimento de cerca de 10% por ano e ambições geopolíticas desmedidas. Alexei "pouco se importa se a Rússia é uma grande potência", sua principal preocupação é "que a economia seja sólida. Fomos atormentados com a estabilidade do rublo, que teve uma desvalorização de 35%".

Alternadamente, ele lida com as lentidões burocráticas (dois anos para obter as provas de que o hotel é realmente propriedade sua), a corrupção (propina para ser conectado à rede elétrica) e o reino do monopólio. Uma única companhia de aviões serve Magnitogorsk a partir da capital russa. O bilhete de ida-e-volta custa 14 mil rublos (R$ 915). "É o equivalente a um mês de salário de um operário. Por isso, muitas pessoas de nossa cidade nunca foram a Moscou", conta Alexei. Seu filho mais velho, estudante em Londres, viaja para lá de avião por quase a mesma quantia, 16 mil rublos (R$ 1.046).

Os operários do complexo têm outras preocupações. Eles observam a fumaça. Ela ficou mais densa desde que os pagamentos chegaram de Moscou. Dois altos-fornos recomeçaram a funcionar em janeiro. A esperança volta. Além disso, há o hóquei sobre o gelo. A equipe Metallurg é a segunda do campeonato da Rússia.

Nas noites de festa, as pessoas de Magnitogorsk convergem para o grande estádio novo em folha, construído às custas do complexo. A cerveja corre solta, a empolgação está no auge. "Mata ele!" grita um espectador para um jogador que briga com um atacante da equipe adversária, o CSKA de Moscou. Ovacionado, o Metallurg o carrega. "O complexo também vencerá. Ele já passou por muita coisa, e nós também", afirma Dmitri, um operário que assiste à partida em família. Sobre seu ringue de patinação, há uma faixa publicitária que diz: "Com o complexo MMK, tudo é mais seguro".

Tradução: Lana Lim

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