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10/03/2009

Durante a crise, nem casamento, nem divórcio

Le Monde
Virginie Malingre
Vocês provavelmente não conhecem Jade Goody. Inglesa, esta jovem de 27 anos é uma estrela. Um produto puro do reality show que fez dela uma "celebrity", além de milionária. Desde que descobriu estar condenada por um câncer, Jade explora o filão até esgotá-lo.

Desde o verão de 2008, não houve nenhum momento de sua vida que não tivesse sido vendido às câmeras ou aos tabloides: o anúncio de sua doença, seu pedido de casamento no dia de São Valentim (Dia dos Namorados), sua saída das sessões de quimioterapia...

Até sua morte, que dizem estar próxima, nada nos será poupado. A criatura midiática quer economizar para oferecer a seus dois filhos de 4 e 5 anos a infância dourada que ela não teve, ela explica. E a Grã-Bretanha inteira, que por um tempo ficou chocada por sua vulgaridade, sua falta de cultura e suas declarações racistas, se uniu à sua causa. Até Gordon Brown se emocionou com essa "tragédia" e opinou, durante uma coletiva de imprensa no número 10 da Downing Street, entre duas perguntas sobre a crise e o G20, que a "determinação de Jade Goody em ajudar sua família é algo que deve ser aplaudido".

No domingo, 22 de fevereiro, Jade Goody se casou com Jack Tweed, 21 anos, após ter prometido exclusividade de imagens à "OK! Magazine" e à Living TV. De passagem, ela embolsou mais de 1 milhão de libras, o mesmo que David e Victoria Beckham, que também venderam suas bodas à "OK!" em 1999.
Vestida com um vestido de princesa de 3.500 libras em seda creme e marfim, que ganhou de Mohammed al-Fayed, proprietário da Harrod's, a jovem recebeu seus 150 convidados em grande estilo. A cerimônia aconteceu em um hotel luxuoso no norte de Londres, onde a noiva chegou de helicóptero, depois de ter feito um clareamento nos dentes. Para a ocasião, o ministro da Justiça, Jack Straw, flexibilizou o toque de recolher que deveria ser respeitado pelo noivo, em liberdade condicional, permitindo-lhe, assim, passar sua noite de núpcias com sua esposa.

Mas nem todas podem ser Jade Goody. E seu casamento, no mínimo remunerador, não deve fazer esquecer que essa instituição, já prejudicada nas últimas décadas, sofre com toda a força a crise dos subprimes, esses créditos hipotecários de riscos que puseram abaixo o mundo das finanças antes de afundar a economia real. Segundo a ONS (Agência Nacional de Estatísticas), nunca se casou tão pouco na Inglaterra e no País de Gales quanto em 2007. Ou, pelo menos desde que essas estatísticas existem, ou seja, desde 1895. Foram 231.450 os que disseram "sim" em 2007, um quarto a menos do que em 1991, e um terço a menos do que em 1981.

A euforia dos anos 2000, quando a City se acreditava invencível, havia interrompido o declínio do compromisso matrimonial. A crise o acelerou.
"Será pior em 2009", opina One Plus One. "Com cada casamento custando 20 mil libras em média, é uma despesa que se prefere não fazer quando o desemprego está à espreita", afirma a associação, especializada em pesquisa sobre a vida a dois.

Ainda mais que, na Grã-Bretanha, o casamento e a família não trazem nada. Do ponto de vista fiscal, pelo menos. David Cameron, o líder dos conservadores, pretende que as coisas mudem se ele for eleito no pleito que deve colocá-lo em oposição ao primeiro-ministro trabalhista até meados de 2010. Mas, enquanto isso, aqueles que querem se casar não podem contar com o apoio do Estado.

Talvez vejamos, assim que a economia se recuperar, milhares de casais correndo para diante do juiz de paz ou para a igreja. A crise, se não favorece o casamento, parece ganhar com o concubinato. "Vivendo em dois, se economiza", opina Richard Wiseman, professor da Universidade de Hertfordshire. E os corações solitários procuram mais do que nunca sua alma gêmea. Prova disso é o site de encontros na Internet Match.com, que obteve 35% a mais de novos membros britânicos em fevereiro, em comparação com o mesmo mês do ano anterior.

A retomada econômica também poderia ser acompanhada por uma explosão de divórcios, pois esses tempos de recessão, em que 3 mil empregos são eliminados a cada dia, não são os mais propícios à separação. A queda do mercado imobiliário - e o encolhimento do bolo a ser dividido - muitas vezes pressiona os casais a esperarem uma nova alta dos preços para retomarem sua liberdade. A empresa de serviços mobiliários Savills observa "uma estreita correlação entre as variações dos preços imobiliários e o número de divórcios".

Segundo a ONS, a Inglaterra e o País de Gales tiveram 141 mil divórcios em 2000, número que subiu para 155 mil em 2005, quando o mercado imobiliário estava no auge e a economia andava a toda velocidade. Antes de cair para 128.500 em 2007, quando o preço das casas começou a recuar.

Que os advogados especialistas em separações fiquem tranquilos. Eles terão menos divórcios para cuidar, mas mais negociações a conduzir. Pelo menos para aqueles que possuem clientes na City. Os banqueiros e investidores que romperam com suas mulheres quando ainda eram os "mestres do universo", antes de verem seus bônus que não param de encolher ou de perderem seus empregos, agora querem rever, em baixa, as condições financeiras de sua separação. As "Desperate Citywives" sempre poderão se lançar ao reality show. No estilo Jade Goody?

Tradução: Lana Lim

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