UOL Notícias Internacional
 

10/03/2009

Moradores de cidade dos EUA vão às compras... de armas

Le Monde
Yves Eudes
Em Paso Robles (Califórnia)
Paso Robles, cidade da Califórnia central, famosa por suas criações de cavalos e seus vinhedos. Nesta manhã de inverno, o "gun show" (feira de armas de fogo) abre às 9 horas, mas desde as 8h30 uma pequena multidão espera diante da porta do amplo pavilhão de exposição: US$ 9 a entrada pelos dois dias, grátis para menores de 13 anos. Do lado de dentro, cerca de cinquenta fabricantes de armas expõem em seus stands milhares de armas de fogo, desde o revólver de bolso até o fuzil semiautomático, de todos os preços: US$ 89 por um velho fuzil russo, mais de US$ 2 mil pelo fuzil de longo alcance último modelo.

Steve e sua esposa Teresa, a quinquagenária esportista, estão à busca de uma pistola de grosso calibre não muito cara. Eles já têm um pequeno revólver e um fuzil, comprados em um outro "gun show", mas não é o suficiente: "Com a recessão, as falências, o desemprego, a criminalidade aumenta", afirma Teresa. "Antes, os jovens roubavam para comprar drogas, mas hoje famílias roubam para comer. Devemos nos armar para proteger nosso lar".

Eles mesmos temem por seu futuro, pois Steve acaba de perder seu emprego de vendedor de carros, e a renda da família caiu pela metade. Eles calculam que a compra de uma arma extra é uma despesa justificada: "Temos duas filhas de 12 e 14 anos, já está na hora de aprenderem a manejar diferentes tipos de arma, é uma parte importante de sua educação". Steve também tem outra motivação: "Nós compramos nosso fuzil após a eleição de Obama. Temos um presidente democrata, mais um Congresso democrata, mais um governo cheio de liberais 'anti-gun'. Eles vão procurar limitar nosso direito de possuir armas. Temos de comprar logo o que pudermos, enquanto ainda é legal". Depois de muita consideração, ele também vai comprar um silenciador e uma mira telescópica.

John, de 22 anos, um rapaz musculoso de risonhos olhos azuis, e sua esposa Becca, uma bela loira de 24 anos, acabam de comprar um fuzil em perfeito estado por US$ 300, após uma dura negociação. John está contente: "É para caçar javalis, e também para nossa proteção. A região não é tão tranquila quanto parece. Trabalho em construção, e a maioria dos caras de minha equipe tem algum processo na justiça..." Becca, que trabalha em um salão de beleza, não comprou nada, pois ela já possui uma escopeta e uma carabina calibre 22 LR.

John votou no partido republicano em novembro de 2008, e a derrota o deixou muito rebelde: "Estou esperando que esses democratas tentem tirar minhas armas, mas não vou deixar. Peguem-me se puderem. Se as leis forem severas demais, as pessoas vão se arriscar para manter suas armas". Apesar de tudo, John, com seu fuzil na mão, faz fila diante do guichê de registros. A Califórnia possui uma legislação mais rígida que a dos Estados vizinhos: é preciso preencher um formulário detalhado, e depois apresentar um documento de identidade. Uma funcionária diante de um computador conectado a um arquivo central verifica se John não tem nenhum processo judicial e não está indicado como doente mental. Em seguida, John deve deixar seu fuzil com um armeiro local, e só poderá recuperá-lo em dez dias.

A Califórnia também proibiu algumas armas automáticas e pentes com mais de dez cartuchos. De forma geral, o porte de armas em lugares públicos é muito regulamentado. Essas pressões burocráticas irritam John: "Dois anos atrás, um jovem maluco matou 32 pessoas em um campus. Se os outros estudantes estivessem armados, ele só teria feito duas ou três vítimas antes de ser abatido. Mas não se deve contar com os democratas para ajudar as pessoas a se defenderem".

No pavilhão, todo mundo parece concordar com ele. Ainda lembram que, em abril de 2008, em San Francisco, em plena campanha presidencial, o candidato Obama havia se permitido fazer alguns comentários sociológicos, sem saber que estava sendo filmado: "Você vai nessas cidadezinhas (...), os empregos desapareceram há 25 anos e nada apareceu para substituí-los. Então não é surpreendente que as pessoas fiquem amargas, se apeguem às suas armas ou à religião..."
Seus adversários republicanos logo lançaram uma campanha midiática descrevendo Obama como um elitista, que olha a vida do povo do alto de sua torre de mármore. Os amantes de armas de fogo se sentiram especialmente visados. Grupos conservadores criaram sites na Internet explicando que, se Obama fosse eleito, ele proibiria as armas, deixando as pessoas honestas à mercê de gangues. Alguns chegaram a prever que a polícia revistaria casa por casa, ou que o governo promoveria uma escassez de munição. Frente a essa ofensiva, a equipe de Obama havia publicado regularmente comunicados tranquilizadores: "Nós recomendamos medidas de bom senso, que respeitem os direitos dos proprietários de armas garantidos pela segunda emenda da Constituição, ao mesmo tempo em que deixem as armas fora do alcance das crianças e dos criminosos".

Essas explicações não diminuíram a desconfiança dos meios conservadores. Heb Crowley, com sua barbicha, sorridente e tagarela, proprietário de uma loja de armas em uma cidade vizinha e detentor do maior stand do "gun show", é categórico: "Antes da eleição de Obama, eu vendia de cinco a dez armas por semana. Mas desde que ele foi eleito, passaram a ser cinco a dez por dia. Em seguida, o furor voltou a diminuir, mas as vendas continuam fortes".

Bem em frente se encontra o stand da National Rifle Association (NRA), que defende os direitos dos proprietários de armas em todo o país. Harold Morgan, de 76 anos, militante da NRA em tempo integral, organizou uma rifa: apostando US$ 10, tem-se a chance de ganhar uma pistola Ruger MK2, um fuzil Marlin ou uma escopeta Henry. Enquanto vende seus bilhetes, Harold desenvolve seus argumentos: "Uma sociedade armada é uma sociedade policiada. Ninguém vai insultar ou ameaçar um desconhecido sabendo que o outro sem dúvida tem uma pistola no bolso". Na verdade, ele considera o porte de arma como a única garantia das liberdades públicas: "A segunda emenda protege todas as outras. Todos os ditadores da história primeiro confiscaram as armas antes de oprimir e massacrar seu povo".

Ultimamente, a arma que está na moda é o fuzil semiautomático AR-15, preto, enorme, projetado para parecer o máximo possível com o M16 do exército americano. O vendedor está de mau humor: "Estou sem o AR-15 em estoque, não fizeram a entrega a tempo, os atacadistas estão sobrecarregados. Tive de colocar clientes na lista de espera". Um adolescente explica em voz baixa que ele vai comprar peças e ferramentas especiais para fazer em casa um AR-15 totalmente automático. As coronhas e as bandoleiras são rosa para as meninas, e azuis para os rapazes. Também há um modelo laranja com formas futuristas, tipo video-game.

As filas de espera mais longas se estendem diante dos stands de vendedores de munição, que tem venda livre. Seu preço aumenta rapidamente, o que incentiva os clientes a fazerem provisões. Sozinho, o stand da associação Advanced Tactical Supplies terá vendido em dois dias mais de 50 mil cartuchos comuns e 5 mil modelos de luxo.

O fundo do pavilhão está ocupado pelos "vendedores privados", particulares sem licença que compram e vendem todo tipo de armas, de preferência em dinheiro vivo. O mercado de segunda mão cresce, pois na Califórnia os fuzis com mais de 50 anos escapam de qualquer regulamentação. Ora, uma arma dos anos 1950, se tiver sido bem cuidada, está em perfeito estado. Ou seja, muitas armas consideradas antigas na verdade estão quase novas, pois suas peças essenciais foram substituídas. Durante todo o dia compradores entram e saem do pavilhão com fuzis de repetição, sem passar pela mesa de registros.

Depois de comprar suas novas armas, os apreciadores da região vão testá-las no clube de tiro de Morro Bay, instalado em uma esplêndida colina que se eleva por sobre o oceano Pacífico. Nesta manhã de domingo, cerca de quinze homens estão lá. Todos se dizem conservadores, e mais ou menos hostis aos democratas de Washington. Há única exceção, mas de respeito: Joe Kingston, de 65 anos, uma figura local. Ex-operário metalúrgico, sindicalista e militante democrata desde sempre, Joe fez campanha para Obama desde o primeiro momento. Isso não o impede de ser apaixonado por armas de fogo, desde a infância. Ele possui diversos fuzis de primeira linha, pois participa de competições de tiro. Ele também tem, para sua proteção pessoal, uma pistola Glock de grosso calibre: "Obama não vai tomar nossas armas, ele já disse várias vezes, é um direito fundamental desde a independência dos Estados Unidos". Joe prevê que, nesse domínio, nada de muito grande acontecerá nos próximos meses: "Talvez uma restrição sobre os fuzis de assalto, nos Estados onde eles são de venda livre, mas é só".

Para os conservadores, já é demais. Pouco após a chegada de Obama na Casa Branca, um incidente reavivou a polêmica. Para substituir Hillary Clinton, que deixou seu cargo de senadora, o governador do Estado de Nova York nomeou Kirsten Gilligrand, uma democrata local. Os dirigentes democratas de todo o país logo criticaram essa decisão, pois Gillibrand é membro da NRA. Para os republicanos, essa mobilização "anti-guns" contra a nova senadora é a prova de que algo está sendo tramado no Congresso, e que é preciso permanecer mobilizado.

Tradução: Lana Lim

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