UOL Notícias Internacional
 

11/03/2009

Em Trieste, a caneta e o anônimo

Le Monde
Philippe Ridet
Em Trieste (Itália)
Na epígrafe de seu primeiro romance "Les Requins de Trieste" (Os tubarões de Trieste) publicado pela editora Seuil em 2006, Veit Heinichen usou esta frase emprestada de Ítalo Svevo: "O que ninguém sabe e que não deixa vestígios não existe". Hoje, em Trieste, todos sabem. No dia 21 de fevereiro, esse escritor alemão de 51 anos revelou nas páginas do "Piccolo", o jornal local, o que já se cochichava desde o café Tommaseo até o café Delle Specchie: há mais de um ano ele é objeto de uma campanha de difamação. Cerca de cem cartas anônimas foram recebidas por figuras ilustres da cidade, políticos, livreiros, donos de restaurantes. Seu autor afirma que Heinichen não seria somente esse romancista afável e bon vivant, esse ex-editor de renome, mas também um perigoso pedófilo, já condenado na Alemanha. "Este não é um relato inventado", escreve o autor de "Morts sur liste d'attente" (Mortes em lista de espera), "mas sim a história verdadeira de um romance policial ainda não resolvido".

Tudo começa no dia 3 de janeiro de 2008, com dois telefonemas anônimos. Um no Gran Malabar, o café onde Heinichen se deleita com um vinho branco do Carso (a colina que envolve a cidade), e o outro para sua companheira, uma habilidosa dona de restaurante. A polícia tratou logo de absolvê-lo da acusação de pedofilia. Nenhuma condenação, um gosto público pelas mulheres... "Gosto mais das mães do que de seus filhos", ele diz.

A investigação, mantida em segredo, o obriga a expor toda sua vida, a reler suas agendas, a relembrar suas disputas com editores concorrentes, com escritores rejeitados, maridos ciumentos, talvez. Ele tem a desagradável impressão "de estar nu no dia de uma junta de recrutamento" e também de que "alguém está tentando destruir sua vida".

O anônimo que mistura o verdadeiro e o falso conhece quase tudo de Heinichen. Não é difícil: seus romances têm Trieste como cenário, e seu personagem de policial obstinado e fleumático, Proteo Laurenti, se parece com ele.

O resto, sua carreira de executivo na Mercedes, sua vida de editor prestigiado na Fischer Verlag e depois na Berlin Verlag, fundada por ele, podem ser encontradas na Internet. O mais preocupante: o difamador conhece o endereço de sua casa à beira da baía. Em sua caixa de correspondência, o romancista encontrou, um dia, um adesivo. Sempre com a mesma acusação: pedófilo. Em um ano, o "serial writer", como foi apelidado pelo "Piccolo", não cometeu nenhum erro. "Essas cartas escritas com um computador em um italiano perfeito não contêm nenhum vestígio humano", explica Heinichen. "Sem impressão digital, sem vestígio de DNA, nada. Um trabalho de profissional".

Desde então, Heinichen não se sente mais tranquilo. Ele olha para a direita e para a esquerda quando passeia à beira do mar. Às vezes ele se enfurece: "Essa agressividade não é a minha". Ainda pior para um romancista: "Essa questão toma 70% do meu tempo! Preciso escrever à noite". Há outra ferida, que ele menciona com meias palavras: se sentir rejeitado por uma cidade que ele escolheu para viver em 1999. Naquele ano, ele abandonou tudo para realizar seu sonho, escrever. Nascido nos limites da Alemanha, da Suíça e da França, ele encontra em Trieste outras fronteiras que o inspiram: "Elas não são um limite, mas sim uma promessa de espaço". Ainda em Trieste, ele se sente em casa "nessa cidade que inventou a Europa bem antes dos funcionários de Bruxelas". E, finalmente, foi em Trieste que ele se instalou sob as sombras generosas dos escritores que o precederam na cidade.

Até o velho Boris Pahor, 96 anos, muitas vezes citado como futuro Prêmio Nobel de literatura, recebeu uma carta anônima. "Aqueles que não receberam nada se sentem ofendidos", se diverte Heinichen.

Depois de um ano de insucesso, o escritor e a polícia decidem mudar de estratégia: revelar tudo para induzir o anônimo em erro. Uma verdadeira campanha publicitária, decidida em colaboração com o diretor do "Piccolo", que incluiu três jornalistas no caso. "Destruímos seu jogo", explica Heinichen. "Talvez ele não escreva mais cartas, mas isso não quer dizer que seja menos perigoso". Uma pausa. "Seu silêncio me preocupa ainda mais".

Desde então, o anônimo não deu mais sinal de vida. A polícia prefere pensar que se trata da obra de um louco. O escritor que adora roteiros complicados tem uma outra explicação: a solução do enigma deve se encontrar nos cinco livros que ele publicou, nos quais Proteo Laurenti ilumina as sombras de Trieste. Por trás das fachadas austeras dos bancos, das seguradoras e dos escritórios de exportação e importação, se encontra de tudo: funcionários desonestos, políticos corruptos, ex-fascistas que se tornaram respeitáveis, crimes sem solução. Será que Laurenti mexeu demais a sopa do passado? "Eu revelo, é isso que desestabiliza", acredita o escritor.

Outra pista: a vingança política. Em dois anos, o escritor se tornou uma figura local. Ele toma a palavra, denuncia, mostra sua simpatia pela centro-esquerda em uma cidade de direita. O prefeito de Trieste não lhe manifestou muita solidariedade: "Não se pode dramatizar, todos os personagens públicos são vítimas desse tipo de atenção". Ainda que os italianos não se privem de falar mal de si mesmos, eles detestam que um estranho faça isso em seu lugar. Basta para emitir uma fatwa? "O linchamento verbal é mais simples do que o assassinato. Não estamos em Nápoles, é difícil de encontrar um assassino", explica o romancista.

Nas páginas do "Piccolo", as crônicas do cotidiano substituíram o caso Heinichen. "Precisaríamos de novas informações", explica uma jornalista. Uma nova carta? Um culpado enfim desmascarado? Não se vê tanto Veit Heinichen sentado no Gran Malabar ou remando na baía. Seu jardim mereceria alguns golpes de ancinho. Seu sexto romance publicado na Alemanha o obriga a fazer viagens frequentes. O livro se chama "Le Repos des hommes forts" (O descanso dos homens fortes). Descanso? Bem que Heinichen está precisando...

Tradução: Lana Lim

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