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12/03/2009

Excomunhão de médicos brasileiros agrava o problema dos católicos

Le Monde
Stéphanie Le Bars
Dentro da hierarquia católica, o embaraço é palpável; para muitos fiéis, a consternação se iguala à indignação. Por toda parte a incompreensão domina. A excomunhão pronunciada na quinta-feira (dia 5) por um bispo brasileiro contra a mãe de uma garota de 9 anos, grávida de gêmeos como consequência de um estupro, e contra os médicos que realizaram o aborto, continua a suscitar uma reprovação geral entre a opinião pública.

OS DOIS CASOS QUE CHOCAM

O escândalo Williamson
No dia 22 de janeiro, Dom Richard Williamson, bispo tradicionalista cismático, declara: "Creio que 200 mil a 300 mil judeus tenham morrido nos campos de concentração, mas nenhum deles nas câmaras de gás". Dois dias depois, um decreto suspende a excomunhão de quatro bispos tradicionalistas, entre os quais Dom Williamson. Em 4 de fevereiro, o Vaticano exige que ele "se distancie publicamente" com suas declarações. Em vão.

O aborto de uma menina no Brasil
Em 5 de março, o arcebispo de Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, excomunga a mãe de uma criança estuprada e grávida, bem como os médicos que realizaram o aborto. No dia seguinte, o presidente Lula lamenta essa decisão. Em 7 de março, o cardeal Giovanni Battista Re, chefe da Congregação para os Bispos no Vaticano, apoia seu confrade brasileiro.



O apoio do cardeal Giovanni Battista Re, chefe da Congregação para os Bispos no Vaticano, ao seu colega brasileiro deixa sem palavras inúmeros dirigentes religiosos. Questionado no sábado (dia 7) pelo jornal italiano "La Stampa" sobre o destino da pequena brasileira, este colaborador próximo de Bento 16 declarou: "É um caso triste, mas o verdadeiro problema é que os gêmeos concebidos eram pessoas inocentes, que tinham o direito de viver e que não podiam ter sido eliminados. A Igreja sempre defendeu a vida e deve continuar a fazê-lo, sem se adaptar aos humores da época ou à conveniência política".

Essa nova decisão polêmica surge enquanto muitos católicos ainda não digeriram os efeitos desastrosos do decreto de 21 de janeiro, assinado pelo mesmo cardeal Re, que suspendeu a excomunhão de bispos tradicionalistas, entre os quais um prelado negacionista. A questão do Brasil corre o risco de manchar um pouco mais a imagem da Igreja, e sobretudo de acentuar a distância que parece se instalar entre os ideólogos do Vaticano e os crentes, incluindo entre os padres e uma parte da hierarquia.

"Após a recepção negativa da suspensão das excomunhões dos tradicionalistas, especialmente na França, um fosso preocupante se abre entre o Vaticano e os fiéis", confirma o historiador Philippe Levillain, autor da obra "Le Moment Benoît XVI" (O momento Bento 16), publicada pela Fayard.

Ao tirar essa questão dramática do contexto brasileiro, dentro do qual certos dirigentes católicos desejavam isolá-la, a cautela vinda do Vaticano questiona diretamente a doutrina da Igreja sobre a questão do aborto - canonicamente punido com excomunhão automática - e faz duvidar da capacidade ou da vontade do governo da Igreja de falar aos crentes.

Algumas pessoas, mesmo entre os mais fervorosos apoiadores do Vaticano, lamentam que os partidários de um pensamento rígido, reacionário, até obscurantista, que são próximos do papa, prevaleçam sobre aqueles que se preocupam em fazer a ponte entre o ensino doutrinal da Igreja, especialmente em termos de costumes, e sua adaptação ao mundano. Uma adaptação avaliada pelos fiéis e integrada por muitos padres há anos.

"Com essa nova questão, o pontificado de Bento 16 está se tornando o pontificado trágico da incompreensão", analisa Levillain. "E mesmo que o papa não esteja envolvido nesse último caso, só podemos constatar o paradoxo entre a suspensão das excomunhões recentes - que parecia significar que o Vaticano considerava esse princípio obsoleto - , e o recurso a essa arma quase medieval no drama do Brasil".

"Com declarações como essas do cardeal Re, estamos diante de um raciocínio essencialista, ontológico, que parece não ter mais nenhuma noção de situações concretas", se alarma também um bispo francês. "Com João Paulo 2º, ainda que as convicções fossem as mesmas, o sistema de pensamento levava mais em conta a pessoa", ele acrescenta. Alguns não hesitam em comparar o período atual à crise de confiança que se seguiu à publicação da encíclica de Paulo 6º, "Humanae vitae", em 1968. Esse texto, que proibia toda forma de contracepção, havia levado muitos católicos a se distanciarem da Igreja institucional.

"É entristecedor", exclama ainda um bispo, visivelmente afetado por uma questão que já lhe rendeu e-mails de fiéis atordoados e discussões em sua diocese. "Posicionamentos do tipo estão muito longe do Evangelho; há vezes em que é melhor se calar e se contentar em acompanhar o sofrimento das pessoas", ele lamenta. "A Igreja certamente está cumprindo seu papel quando diz que é preciso proteger a vida desde a concepção, mas diante de tal drama, é preciso levar uma palavra de compaixão, e não excomungar", se indigna esse bispo que, como muitos religiosos, já acompanhou espiritualmente mulheres que sofreram abortos.

Sinal do mal-estar que essa questão suscita nos meios católicos, o jornal católico "La Croix" dedicou a ela seu editorial de segunda-feira (dia 9). O diário lamenta que a "reação do bispo brasileiro, em sua rigidez legalista, tenha ido de encontro à mensagem de vida que a Igreja quer passar". "Esse caso dá argumentos a todos aqueles para quem o combate em favor da vida é uma postura retrógrada e ultraconservadora", lamenta também a publicação.

Outros, como na ocasião da mão estendida pelo papa aos bispos tradicionalistas, preferem evitar o cerne do problema e ver nessa nova polêmica "um problema de comunicação e de funcionamento da cúria". Eles questionam principalmente o status das declarações do cardeal Re. "Ele fala em seu próprio nome ou em nome do papa? O papa apoia sua posição?"

A administração do caso anterior rendeu a Bento 16 inúmeras críticas, inclusive internas, sobre as orientações e o governo da Igreja católica. A ambiguidade do Vaticano, que demorou para condenar com firmeza o bispo negacionista, e a falta de explicações para justificar sua vontade de colocar sob proteção da Igreja um movimento oposto a uma parte de seu magistério, enfraqueceram a autoridade de Roma e puseram em dúvida a "infalibilidade" papal para muitos católicos.
Recentemente, a conferência episcopal alemã pediu, em um tom extraordinariamente firme, que Roma fizesse "melhoras rápidas no domínio da tomada de decisões e da comunicação com as conferências episcopais" e lamentou que tenha aparecido nessa ocasião uma "incerteza quanto ao caminho da Igreja".

Tradução: Lana Lim

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