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13/03/2009

Contagem de mortos no conflito com Israel prossegue de porta em porta na faixa de Gaza

Le Monde
Benjamin Barthe Em Gaza
Em Sharm el-Sheikh, no Egito, os doadores ocidentais, reunidos no dia 2 de março, contaram o montante da ajuda prometida para a reconstrução da faixa de Gaza: US$ 4,5 bilhões (cerca de R$ 10,35 bilhões). No Cairo, onde eles negociam desde terça-feira (dia 10) uma possível reconciliação, o Hamas e o Fatah contam seus motivos de desacordo. Mas, em Gaza, as ONG de defesa dos direitos humanos continuam contando os mortos. Dois meses depois do fim da guerra, seus funcionários mal conseguem fazer o inventário da hecatombe. Mohamed Ghanem é um desses pequenos contadores. Andando de bairro em bairro, com a ajuda de cartazes afixados nos muros e de sua rede de informantes, ele segue a pista do domicílio dos chahid (mártires) mortos durante os 22 dias de ofensiva israelense (27 de dezembro a 18 de janeiro).

Assim que chega a seu destino, ele interroga as pessoas próximas do morto e anota em um formulário as circunstâncias de sua morte. Depois ele engole a xícara de café de praxe, guarda em sua jaqueta o relatório médico que lhe estendem e vai bater à porta do chahid seguinte.

"Durante a guerra, por causa do perigo e do volume de trabalho, não pudemos fazer uma apuração precisa", conta o jovem funcionário do Centro Palestino pelos Direitos Humanos (mais conhecido por sua sigla inglesa PCHR). Logo após o cessar-fogo, o PCHR, que é a ONG palestina com melhor reputação nesse meio, recrutou cerca de vinte investigadores a mais. "Trabalhamos rua por rua", diz Mohamed. "Com minha equipe, já registrei 622 mártires. Só mesmo em Gaza".

Bilal Omar é o 623º. Seu retrato enfeita as paredes da sala da pequena casa de família, no campo de refugiados de Chati, à beira do mar. Sentado em um colchão, seu pai, Mohamed, conta a história banal de um jovem simpatizante islâmico, que trabalhava como guarda-costas de Tawfik Jaber, chefe da polícia de Gaza.

No dia 27 de janeiro, o jovem marchava no comissariado central com dezenas de outros chebab (jovens), recém-recrutados como ele, quando a aviação israelense entrou em ação. O bombardeio maciço sobre a faixa de Gaza fez mais de 200 mortos em um espaço de 5 minutos, entre os quais Bilal Omar e uma centena de seus colegas. "É um caso perfeitamente claro", diz Mohamed Ghanem. "Para o exército israelense, Bilal entra na categoria dos terroristas do Hamas. Mas do ponto de vista do direito internacional, os policiais são civis".

Esse cálculo meticuloso, que está em processo de finalização, levou o PCHR a rever e abaixar alguns dos números citados pela mídia. Do total de mortos estimados em cerca de 1.200, o número de crianças passou de 400 para 282. O centro Centro Mezan para os Direitos do Homem, outra ONG de Gaza que conduz o mesmo trabalho de campo, situa essa cifra em 314.

Em compensação, esses inquéritos permitiram que se confirmasse o que os observadores nos hospitais entenderam muito rápido. Que os civis não são só a maioria, mas sim a imensa maioria dos mortos na ofensiva israelense.

"Nossos dados, coletados de forma independente, sem levar em conta os números do ministério da Saúde, sugerem que 82% dos mortos não eram combatentes", diz Hamdi Shaqura, responsável por esse caso no PCHR. Uma proporção confirmada por Essam Younes, o diretor do Centro Mezan, e Mohamed Sabah, correspondente de B'Tselem, uma organização israelense de defesa dos direitos humanos.

"Distinguir entre civis e combatentes não é difícil", explica Hamdi Shaqura. "O posicionamento dos corpos, a presença ou não de armas, as roupas e principalmente os sapatos, fornecem os primeiros indícios. Eles são completados com o cruzamento de depoimentos. Ao contrário do que se pode pensar, quando um chahid pertenceu à resistência, sua família não esconde o fato. Pelo contrário, ela se orgulha dele".

Não é nada surpreendente que o balanço feito pelo exército israelense seja rigorosamente o inverso. Dos 1.134 mortos apontados em um relatório das informações militares, somente 288 são considerados como civis. "É uma falsificação pura", diz Essam Younes. "Colocamos à disposição do exército a idade, o nome e as circunstâncias da morte de cada uma das vítimas. Com isso, não se pode trapacear".

No campo de Chati, Mohamed Ghanem, o pequeno telegrafista do PCHR, continua sua contabilidade macabra. Ele entra na casa de Omar Shams, de 21 anos, membro da Jihad islâmica. Seu pai afirma que ele foi morto por um foguete atirado em plena rua quando ele fazia compras. Mas o relatório médico está incompleto. O registro de Omar na lista dos "mártires" da guerra está então suspenso, enquanto se coletam informações complementares.

"Houve muitos acertos de contas internos durante o ataque", diz Mohamed ao deixar a família. "Temos muito cuidado para não confundir esses mortos com aqueles que foram vítimas do exército israelense". Na rua, um de seus informantes lhe indica ter localizado um novo lar em luto. Mohamed fecha sua jaqueta, pega sua pilha de formulários e vai a caminho de seu 624º "mártir".

Tradução: Lana Lim

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