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14/03/2009

Campanha presidencial em El Salvador termina em clima de guerra fria

Le Monde
Jean-Michel Caroit Em San Salvador
"Não vendam El Salvador a Hugo Chávez!" O spot publicitário, veiculado sem parar pela televisão, é retomado pelos principais jornais salvadorenhos, que pedem para "bloquear o caminho para os vermelhos" e para não deixar levar o país à esfera de influência da esquerda populista do presidente da Venezuela. Um verdadeiro clima de guerra fria reina nesse pequeno país da América Central, que terá sua eleição presidencial no domingo (15).

Pela primeira vez desde o fim da guerra civil em 1992, que fez 75 mil mortos, a direita teme perder o poder. Até fevereiro, a vitória de Mauricio Funes, um jornalista apresentado pela Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN, esquerda), a antiga guerrilha, parecia certa. Todas as pesquisas davam uma confortável vantagem a esse ex-correspondente da CNN.

Como Barack Obama, ele direcionou sua campanha sobre o desejo de mudança de uma população duramente atingida pela crise e por uma explosão da criminalidade, após vinte anos de governo da Aliança Republicana Nacionalista (Arena, direita).

Nas eleições legislativas de janeiro, a FMLN recebeu o maior número de votos. Mas ele não obteve a maioria absoluta no Congresso e perdeu a prefeitura da capital. O surto da "campanha suja", misturando os ataques pessoais e os amálgamas políticos, se intensificou.

"Ao longo das cinco últimas semanas, dos 6.296 spots transmitidos pela Arena, 2.852 mostram Chávez de maneira evidentemente negativa, contra 2.128 que apresentam Rodrigo Ávila, o candidato desse partido", calcula Roberto Lorenzana, o chefe da campanha de Funes.

"Campanha de medo"
"Há um desequilíbrio considerável das mídias em favor da Arena, ao qual se junta a utilização de instituições do Estado contra o candidato da oposição", lamenta o deputado espanhol Luis Yáñez-Barnuevo, que dirige a comissão de observadores da União Europeia.

Casado com uma brasileira, Vanda Pignato, próxima do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Funes nega estar alinhado com "o socialismo de Chávez, de Ortega e dos Castro", como afirma a Arena.

"Não sigo nem a esquerda de Chávez nem a de Lula", diz o candidato. "Eu olho com uma atenção especial para o processo brasileiro, pois o presidente Lula teve de enfrentar preconceitos similares por parte de empresários que temiam que um governo de esquerda pusesse fim à estabilidade macroeconômica e provocasse uma fuga de capitais. Nada disso aconteceu, o Brasil é uma das economias mais dinâmicas da região, e a pobreza diminuiu", ele acrescenta.

Funes garante que ele não questionará a dolarização da economia salvadorenha, nem o Tratado de Livre Comércio entre os Estados Unidos, a América Central e a República Dominicana (Cafta), nem a utilização da base aérea de Comalapa pelos Estados Unidos, "na medida em que ela ajude na luta contra o narcotráfico".

Ex-comandante guerrilheiro e candidato derrotado do FMLN à presidência em 1999, Facundo Guardado não acredita nas chances de Funes. "A maioria da população quer uma mudança, mas não a que encarna o FMLN. A ambivalência de Mauricio gerou mais dúvidas do que certezas. A campanha de medo conduzida pela direita se apoia sobre o fato de que a direção do FMLN não desistiu do modelo autoritário", ele diz.

Salvador Samayoa, ex-dirigente da guerrilha, prevê dificuldades entre o FMLN e Funes, que nunca pertenceu a um partido político.
"Eles não se conheciam de verdade quando Mauricio foi escolhido, e quanto mais eles foram se conhecendo, menos eles gostaram um do outro. Não imagino o FMLN no poder sem uma relação forte e muito estreita com Cuba, Venezuela e a Nicarágua", ele afirma.

Mentor do candidato Funes, Hato Hasbun rejeita essas objeções: "Maurício tem uma grande experiência política, não dentro de um partido, mas por causa do jornalismo investigativo". "Dentro do FMLN, há conceitos diferentes, desde a social-democracia até os comunistas. Mas todo mundo sabe que só podemos ganhar as eleições unidos, e que para governar e solucionar os problemas históricos de pobreza e de injustiça nesse período de crise mundial, nós devemos buscar a unidade nacional", garante esse ex-professor de filosofia e sociologia de Funes no colégio San José, dirigido por jesuítas.

Tradução: Lana Lim

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