UOL Notícias Internacional
 

15/03/2009

Egito: os rebeldes da rede

Le Monde
Patrice Claude Enviado especial ao Cairo
É um vídeo que mexe com o coração. Um rapaz de 21 anos chora como uma criança. Logo ele vai gritar sua dor. Barba preta curta, cabelos curtos encaracolados, rosto bonito, Imad El-Kebir está dobrado em dois sobre o chão sujo. Seus punhos estão amarrados nas costas, seus tornozelos atados. Ele está nu dos pés até a cintura. Alguém segura seus pés no ar. Na imagem veem-se quatro pares de pés, de policiais. Um deles segura um longo cassetete preto, procura o ânus e o enfia bruscamente. "Então, gosta disso, sua bicha? Vamos mostrar esse filme a todos os seus amigos!"

Era uma sessão de interrogatório quase comum em uma delegacia de polícia egípcia. Mas graças à internet, milhões de egípcios puderam vê-la. Em seu relatório sobre direitos humanos de 2008, a Anistia Internacional afirma que "as torturas e os maus-tratos, choques elétricos, espancamentos, isolamentos, violações, abusos sexuais e ameaças de morte continuaram sendo sistemáticos" no Egito.

Publicado no final de fevereiro, o relatório anual do Departamento de Estado americano sobre os direitos humanos diz a mesma coisa. Dois dos quatro torturadores de Imad El-Kebir -motorista de táxi que cometeu o erro de tentar conter policiais que batiam em seu primo na rua- foram identificados. Eles foram julgados em 2007 e condenados a três anos de prisão. A vítima foi condenada a três meses, por "resistência às forças da ordem".

O homem que revelou o caso, divulgou a gravação na internet e permitiu a denúncia dos torturadores que executaram sua ameaça e realmente divulgaram a humilhação de Imad junto a seus amigos, para que "sirva de exemplo aos que resistem à polícia", é um dos mais famosos blogueiros do Egito. "Waël Abbas é o melhor e o mais corajoso de nós", diz Shahinaz Abdel Salem, jovem e bela blogueira, engenheira de telecomunicações que também se lançou ao protesto na rede depois do caso exemplar de El-Kebir.

O "melhor" rebelde da internet nos deu entrevista perto da Bolsa do Cairo. O bairro da Bolsa, com seus edifícios altos e lojas chiques, grandes avenidas e ruelas cheias de pequenos cafés que extravasam para a calçada, é um pouco o quartel-general dos blogueiros da capital. "Vocês podem escrever", diz Waël, "não é nenhum segredo, a polícia sabe quase tudo sobre nós. Onde moramos, onde nos encontramos. Tudo". Um ambiente triste para uma juventude "ligada", tão informada e tão amante da liberdade quanto a de Paris.

O Egito não é o Iraque de Saddam Hussein. Aqui não se matam os adversários, não se prendem todos -são muitos- os que criticam ou enfrentam pacificamente o interminável reinado do autocrata militar octogenário que governa com leis de exceção há 27 anos. Dito isso, sob Hosni Mubarak, são as onipresentes forças de segurança do Estado, com cerca de 1 milhão de homens à disposição, que controlam a rua.

Ninguém pode criticar o Exército a não ser que aceite as dolorosas consequências que calam os adversários -laicos ou islâmicos, que impedem as greves, as manifestações, a organização política e a livre expressão. Há 18 mil detidos "administrativos", isto é, presos sem processo que se amontoam com condenados "comuns" nas prisões do Egito. Alguns, sobretudo entre os islâmicos, que representariam cerca de 10% do total, estão trancados há mais de uma década.

Em um país cujo artigo 179 do código penal proíbe qualquer crítica direta ao dirigente, a mídia, incluindo os três ou quatro jornais ditos independentes, são de uma prudência de lobo. Ou seja, são totalmente mudos sobre a corrupção reinante, a manipulação dos votos e os abusos de todo tipo. É nesse contexto -é preciso saber disso para se avaliar a medida da coragem mobilizada- que Waël Abbas e seus amigos revoltados se dedicam a suas perigosas atividades. Cada um tem seu motivo. "É um movimento nascido da frustração, sem chefe, nem estrutura, daí sua força", explica o astro da blogosfera egípcia. "Estávamos fartos de obedecer a nossos pais, a nossos professores, aos tiras, ao estado, a Mubarak, sem nunca podermos nos exprimir", afirma Shahinaz. Abriram um blog principalmente para se fazer escutar.

Em um Egito que tem mais de 80 milhões de habitantes, dos quais cerca da metade é analfabeta, aproximadamente 12 milhões de pessoas navegam regularmente em seus computadores pessoais ou em internet cafés. Cerca de 200 mil delas abriram blogs. Menos de 5%, o que representa 10 mil pessoas, podem ser considerados políticos. É ao mesmo tempo pouco e muito. Pois os mais famosos deles, como Waël, Shahinaz, Mohamed Khaled ou Ahmed Garbiya, um jovem intelectual de 33 anos considerado um dos mestres do "blogging" egípcio, podem contar com uma média de 30 mil leitores regulares. É tanto ou mais que alguns jornais do governo. Ou da oposição.

Porte atlético, rosto redondo e blusão barato, Moustapha Naggar, um dentista de 29 anos, tornou-se célebre em seu meio criticando o "arcaísmo" da Irmandade Muçulmana, a principal oposição, teoricamente proibida, praticamente e esporadicamente tolerada, até um certo limite. Membro ativo da confraria, Naggar lutou em seu blog pelo surgimento de "um renascimento islâmico moderado, aberto para os outros e tão distante quanto possível dos valores extremistas do wahabismo", a doutrina ultraconservadora em vigor na Arábia Saudita.

Com outros "irmãos" famosos na internet, como Abdoumonen Mahmoud, o pioneiro que ousou publicar desde 2004 um blog intitulado "ana-ikhwan" -"eu sou Irmão Muçulmano"-, Naggar conseguiu criar um debate interno sobre o lugar da mulher no islã, que eles querem que seja "igual ao do homem", a separação entre Estado e religião, que eles querem "total", e a necessidade de instituir "uma verdadeira democracia". A liderança conservadora do movimento ficou abalada. Em 2007, ele convidou alguns irmãos rebeldes para discutir, mas não se deixaram convencer. No fundo nada mudou. "Um dia os reformistas tomarão o poder na confraria", espera Moustapha. O debate continua.

A mesma coisa no campo laico, mais de esquerda, ao qual pertence a maioria dos blogueiros contestadores. Barbicha preta e olhar profundo, Waël Abbas está um pouco deprimido ultimamente. "Tenho a impressão de que estamos menos ativos. Os jornais, mesmo os raros independentes, têm cada vez mais medo de publicar o que nós lhes oferecemos em nossos blogs. Há uma espécie de preguiça, de desilusão, de medo também, sem dúvida".

Na véspera desse encontro, no bairro de Taalat Harb, fomos ao escritório de Gamal Eid, advogado especializado em direitos humanos, ele também blogueiro e defensor de seus irmãos da rede. "Mais de 500 blogueiros e jornalistas foram interpelados em 2008", nos diz o diretor da Rede Árabe para Informação sobre Direitos Humanos (The Arabic Network for Human Rights Informations), escritório de oito advogados especializados, apoiados financeiramente por várias ONGs americanas e europeias.

Ao se aproximar o aniversário dos acontecimentos de 6 de abril -data da primeira mobilização importante contra o governo organizada pelos blogueiros e transmitida por mais de 70 mil inscritos no site Facebook, Gamal Eid, um quarentão sorridente, está muito preocupado: "A pressão policial torna-se insuportável. A trama estendida sobre a sociedade pelas forças de segurança do estado se expandiu consideravelmente". Uma unidade especial, criada em 2002 com 18 oficiais especializados em vigilância na internet, hoje contaria com "centenas".

Eles leem "cerca de 15% do que escrevemos", calcula Gamal Eid. Às vezes localizam alguém que, na opinião deles, vai longe demais. E caem sobre ele. Prisão, apreensão do computador, interrogatório agressivo. A lei que obriga a avisar a família dentro de 24 horas "raramente é respeitada". Foi preciso que seus amigos dessem o alarme na rede para que as autoridades admitissem a detenção, em 30 de novembro de 2008, de um jovem blogueiro chamado Mohammed Adel. Ele foi libertado em 8 de março, depois de 110 dias de prisão. Adel, assim como Diya Eddine Gad, detido em 6 de fevereiro em local desconhecido, ou Philip Rizk, que foi solto depois de quatro dias de interrogatório porque teve a sorte de possuir dupla nacionalidade -egípcia e alemã- e porque sua família fez barulho, haviam criticado a política "demasiado conciliadora" de Hosni Mubarak em relação a Israel.

O advogado Gamal Eid, casado e pai de dois filhos, também já foi preso quatro vezes, "por algumas semanas de cada vez". Ele também foi torturado. Nunca julgado. O primeiro blogueiro levado à justiça pelo que escreveu se chama Abdel Karim Nabil Suleiman. Em 2007 ele foi condenado a quatro anos de prisão, três por ter "desprezado o islã" -ele qualificou o Ramadã de "mês da hipocrisia"- e um por ter "faltado ao respeito" com Mubarak. Outros processos estão sendo preparados. Um caso a acompanhar.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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