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15/03/2009

Seu Oscar engaveta seu projeto

Le Monde
Jean-Pierre Langellier
Pelo menos uma vez, "seu Oscar" se rendeu. Oscar Niemeyer, 101 anos, famosíssimo arquiteto e "gênio vivo" brasileiro, colocou seus croquis no fundo de uma gaveta de seu ateliê na avenida Atlântica, um loft com uma vista impecável sobre a praia de Copacabana. A contragosto, mas com elegância, ele desistiu de um projeto que lhe era muito querido. Pelo menos "provisoriamente", ele acrescentou, em uma última faceirice.

Cofundador de Brasília junto com o urbanista Lúcio Costa, Oscar Niemeyer tinha - e ainda tem - uma ideia na cabeça: dar à capital do Brasil uma ágora que se transforma em espaço de convívio. "Como todas as capitais, Brasília precisa de uma grande praça. Senão, ela permanecerá provinciana para sempre". Ele havia encontrado um nome para ela, plebeu e solene: "a praça da Soberania".

Ninguém contesta a legitimidade desse projeto. Todos os habitantes e visitantes de Brasília podem afirmar: essa cidade precisa de uma "dimensão gregária", como dizem os especialistas. Ela chega a ser, em alguns bairros, francamente inamistosa com os pedestres, forçados a fazer longas caminhadas antes de poderem atravessar as avenidas em um cenário urbano concebido antes de tudo para exaltar as massas e os volumes.

"Olá, capital intrépida!", disse André Malraux ao visitar Brasília, um ano antes de sua inauguração, em 1960. Mas, em sua audácia poética, Niemeyer, mestre das curvas e arcos, gostava mais da beleza dos palácios monumentais do que da comodidade dos conjuntos residenciais ou da suavidade de seus lugares de passeio.

Se seu orgulho não fosse tão notório, seu desejo tardio de criar, dentro do plano-piloto original, um espaço original, até lúdico, poderia passar por um ato de autocrítica inconfessa. Cada um reconhece no ex-discípulo de Le Corbusier um direito moral de enriquecer sua obra, uma vez que toda cidade exige, para continuar viva, que seja transformada aos poucos.

Mas é aqui que o calo dói. Niemeyer havia decidido ancorar seu fórum na Esplanada dos Ministérios, no centro da capital. Esse virtuose do concreto armado queria construir ali um memorial de ex-presidentes, uma garagem subterrânea de três mil vagas e, sobretudo, um obelisco triangular e inclinado, com cem metros de altura, mais alto que as duas torres do Congresso, o parlamento federal. O conjunto seria inaugurado em 21 de abril de 2010, para comemorar o cinquentenário da cidade.

Revelado no início de janeiro, o projeto logo recebeu críticas. Para os dirigentes do Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), o obelisco é uma heresia. É um "obstáculo visual" que "desfigura" a harmonia do centro da cidade. Aceitar esse edifício, avisa Maria Elisa, filha de Lúcio Costa e ela própria arquiteta, encorajaria os piores sacrilégios. Em uma pesquisa do jornal local "Correio Braziliense", três habitantes em cada quatro se dizem hostis a essa construção.

O próprio desenho da praça não convence. É um fórum sem árvores nem cobertura, pouco propício a ser frequentado além de uma visita de curiosidade.
Mais grave é o fato de o projeto infringir uma interdição legal. Brasília foi inscrita em 1987 pela Unesco no Patrimônio Mundial da Humanidade. Em 1992, dois decretos ainda reforçaram a proteção que a cerca. Esses textos proíbem que se construa sobre os espaços vazios. Eles preservam as perspectivas e as paisagens, autorizando o que Malraux chamava, em Brasília, de "reconquista do arranha-céu pelo sol".

Pode-se dizer que Brasília foi "a glória e o túmulo do ideal modernista" na arquitetura, cujos limites ela revelou. Como disse muitas vezes Niemeyer, essa cidade não se parece com nenhuma outra. "Brasília não é nem uma cidade do futuro, nem um exemplo a ser seguido", declarou recentemente o critico André Corrêa do Lago ao jornal "O Estado de São Paulo". "Tendo sido construída do zero, essa capital tropical continuará sendo o acontecimento arquitetural do século 20. É preciso, basicamente, protegê-la, e não "padronizá-la", fazer dela uma cidade horrível, como se vê demais no Brasil".

Proteger Brasília, inclusive seu pai? "A inscrição no Patrimônio Universal é uma besteira", diz Niemeyer. "Isso impede qualquer projeto novo. O meu, no entanto, traria força e beleza ao centro da cidade". Para André Corrêa do Lago, a desistência de Niemeyer não é uma admissão de fracasso: "O que está em questão não é a qualidade da obra, mas o lugar de sua implantação. A discussão diz respeito ao urbanismo, não à arquitetura. É por isso que ele aceitou ceder".

Se o mestre finalmente jogou a toalha, é também por uma razão mais prosaica: o governo local não tinha dinheiro para financiar sua obra, cujo custo não havia sido calculado. Em 70 anos de carreira, "seu Oscar" realizou cerca de 600 projetos no mundo todo. Sua atividade criadora nunca foi questionada.

Esse "comunista convicto", utópico para alguns, stalinista atrasado para outros, ainda tem muitos projetos em mente. E toda semana ele segue, em casa, cursos de filosofia e cosmologia. Permanecendo fiel à sua reputação "de inimigo da direita e do capitalismo".

Tradução: Lana Lim

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