UOL Notícias Internacional
 

17/03/2009

A febre do cavalo em Camarões

Le Monde
Philippe Bernard
Em Douala, Yaoundé
Apoiado no balcão do pequeno quiosque recém-pintado de um fúcsia intenso, Marcel, de 32 anos, se concentra na leitura do "Turf", o jornal gratuito dos clientes do PMUC, a versão camaronesa do PMU [sigla para Pari Mutuel Urbain, sistema que administra as apostas em corridas de cavalos na França]. Esse chofer de moto-táxi de Douala nunca pôs os pés na França, mas ele se prepara para apostar no trio vencedor de Longchamp. A 5 mil quilômetros do hipódromo, ele acompanhará a corrida pela rede de televisão privada camaronesa Canal 2 ou em um ciber-café enquanto mexe com nervosismo em seu bilhete. "Eu jogo ao acaso, sem estudar, só pela distração, 1000 francos por dia (R$ 4,45)", diz esse rapaz que se descobriu turfista há um ano, depois de ter perdido seu emprego de gerente de lanchonete. "Não penso em ganhar para mudar de vida, somente para realizar os pequenos projetos que meu trabalho não consegue garantir".

Dezessete anos após sua fundação por Michel Tomi e Jean-Pierre Tosi, originários da Córsega e próximos de Charles Pasqua, a empresa privada PMUC mostra uma saúde admirável. Ela também possui uma influência política e social tão notável quanto polêmica, que concorre com a exercida pela Igreja católica, muito seguida em Camarões, onde o papa Bento XVI fará uma visita de 17 a 20 de março.

Nesse país, cuja metade da população vive com menos de US$ 2 por dia, o montante anual de apostas chega a 30 bilhões de francos CFA (R$ 133 milhões). Em 2001, um de seus fundadores calculava seu faturamento em 240 milhões de francos franceses (R$ 107 milhões), números que não puderam ser verificados junto à direção atual, que tentamos contatar diversas vezes, em vão.

Em compensação, o PMUC afirma ter, oficialmente, 739 funcionários e 1.800 revendedores pagos por comissão, e figura entre os maiores empregadores privados do país. A empresa também se orgulha de ser "um dos maiores contribuintes do Estado camaronês" e de fornecer dividendos para o Estado, que detém 15% de seu capital. Patrocinador de diversos eventos esportivos e musicais, o PMUC domina a maior parte das festividades públicas.

A empresa, dirigida por franceses, também é amplamente associada à presença econômica do ex-colonizador. Com as rebeliões de fevereiro de 2008, 800 de seus quiosques foram danificados em todo o país, segundo a imprensa.

"Os jovens queriam descontar no símbolo da exploração dos camaroneses pela França", diz Patrick, estudante de biologia em Yaoundé. As manifestações se seguiram ao anúncio do presidente Paul Biya, no poder desde 1982, a respeito da reforma constitucionalista que o autorizava a disputar um novo mandato.

Com doações para hospitais, abastecimento de material de limpeza aos municípios, contribuição para a luta contra a Aids, o PMUC, que um jovem militante de uma ONG classifica de "traficante da miséria", cuida de sua imagem de "empresa cidadã". A sociedade também figura entre os patrocinadores da fundação humanitária Chantal Biya (a esposa do presidente).

Elegante prédio curvo recoberto de um elegante gesso salmão, sua nova sede social, situada no bairro comercial de Akwa, faz o orgulho dos habitantes de Douala. "Eles investiram em construção, não como todos esses franceses que fazem seus negócios e partem", comemora um apostador.

Mas, construído sobre um terreno pertencente à Igreja católica, principal força de oposição ao regime, o imóvel de sete andares de escritórios simboliza também a impressionante influência do PMUC na vida política camaronesa.

Quando, em junho de 2003, o arcebispo de Douala, dom Christian Tumi, assinou um contrato de trinta anos arrendando ao PMUC um terreno vizinho à catedral Saint-Pierre-et-Saint-Paul, ele causou um escândalo.

Não só porque alguns fiéis lhe repreenderam por fazer um pacto com o diabo dos jogos de azar. Mas, sobretudo, porque o arcebispo, conhecido por sua hostilidade ao regime e sua corajosa denúncia dos atentados aos direitos humanos, era suspeito de ter sido comprado pelas autoridades ou, no mínimo, de ter sacrificado sua independência.

"Na época, a opinião o pressionou a se candidatar à presidência contra Paul Biya. Queriam comprometê-lo", acredita Pius Njawe, dono do jornal de oposição "Le Messager". "O contrato foi entendido como uma traição da parte de um homem que simboliza a probidade e a resistência. O PMUC é um instrumento político-financeiro a serviço do regime".

O representante da Igreja camaronesa responde muito serenamente a essas acusações. "Nunca me arrependi de ter assinado esse arrendamento: as atividades do PMUC não são condenadas pela Igreja, e essa empresa paga um aluguel anual de 38 milhões de francos CFA (R$ 169 mil), dos quais 20 (R$ 89 mil) são para nossas atividades de caridade", explica dom Tumi. "Se esperamos ter unanimidade, não fazemos nada: nem todos apoiavam Cristo. E se quiseram me prejudicar, se enganaram".

Mesmo assim, a justaposição da multidão de fiéis que saíam da missa no domingo com a fila de espera no quiosque do PMUC criou um mal-estar, por um momento. Desde maio de 2008, os empregados da empresa de apostas não trabalham mais aos domingos. Um deles, Claude, de 30 anos, está convencido de que esse dia de folga se deve a uma intervenção do arcebispo.

Poderoso, muito visível, o PMUC está em evidência. Uma controvérsia parecida com essa a respeito do arcebispo questionou o principal líder da oposição, John Fru Ndi. Ele também se deixou seduzir pela associação hípica, alugando-lhe uma casa que ele possui em Bamenda para instalar a sede regional da empresa. Por causa disso, ele foi acusado de ter se vendido ao regime, e sua reputação foi manchada para sempre.

Para Jean-Bosco Talla, diretor do jornal "Germinal", é possível ver nesses acontecimentos uma "tentativa do PMUC de calar as vozes dissidentes". Mas, sobretudo, para evitar a crítica de suas próprias atividades.

Os jornais, muito dependentes de suas receitas publicitárias do PMUC, um de seus principais anunciantes, permanecem mudos a respeito da ruína de alguns apostadores e dos dramas familiares consequentes. Nem o descontentamento dos donos de quiosques com as condições precárias, nem o desenvolvimento de redes de apostas hípicas paralelas são objetos de reportagens.

Em compensação, a "saga dos milhões" pagos a apostadores "felizardos" na presença da "Miss PMUC" enche as colunas dos jornais, ao lado de páginas de publicidade que alimentam o sonho da aposta vencedora. Até o corrosivo "Messager", que por muito tempo rejeitou a receita publicitária do PMUC, classificado de "mercador de ilusões", reconsiderou sua posição depois que os dirigentes da empresa fizeram uma visita a seu diretor, preso em 1998 por delito de imprensa, e se comprometeram a dedicar 1% de seus lucros a um fundo para inclusão de jovens universitários.

Igreja, oposição, imprensa... ninguém em Camarões resiste aos argumentos barulhentos do PMUC. De tal forma que os pequenos quiosques cor-de-rosa que dão o ritmo da paisagem urbana camaronesa lembram os guichês de um Estado dentro do Estado.

Tradução: Lana Lim

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