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20/03/2009

Narcotráfico ameaça esforço para mudar imagem de Medellín

Le Monde
Marie Delcas Em Medellín
Será que vai recomeçar a guerra dos clãs? Medellín se preocupa. "Tenho medo das balas perdidas se os 'muchachos' voltarem a sacar seus revólveres", diz Olga Bedoya, de 68 anos. Ela vive na Comuna 13, um bairro marginal na parte nordeste da segunda maior cidade da Colômbia. Nos anos 1990, ela perdeu dois de seus filhos, vítimas de confrontos entre os sucessores de Pablo Escobar, o "capo" do narcotráfico colombiano assassinado em 1993. Medellín era então a capital mundial do crime e da cocaína.

Hoje ela é uma cidade dinâmica, que atrai investidores e turistas, um modelo de gestão urbana e de luta contra a criminalidade. Em 1991, Medellín registrava um índice de 320 homicídios para cada 100 mil habitantes, um recorde absoluto. Em 2008, era de 33 para 100 mil. "Agora Medellín é mais segura que Washington", garantem as autoridades municipais. No entanto, os indicadores de violências urbanas voltaram a subir. Entre 2007 e 2008, os assassinatos aumentaram em 35%. E as dificuldades se acumulam.

De um lado, o parque de ciências Explora e seu aquário recém-inagurado, de outro, uma nova escola de bairro, uma biblioteca popular nova em folha e uma linha de teleférico para servir aos mais desfavorecidos da cidade. No final de março, Medellín sediará a 50ª Assembleia Anual do Banco Interamericano de Desenvolvimento. O tempo dos matadores e dos atentados a bomba parece distante. "Devemos agradecer a Deus, ao presidente e a Sergio Fajardo", suspira Olga.

O presidente era Álvaro Uribe, que desde 2003 fazia negociações de paz com os paramilitares de extrema direita. Em Medellín, o chefe paramilitar era um traficante notório, Diego Fernando Murillo, também conhecido como "Don Berna". Taciturno e discreto, ele soube reunir os bandos de assassinos à deriva desde a morte de Pablo Escobar. Don Berna se tornou paramilitar tardiamente, com a ideia de que se beneficiaria de uma anistia política. Em outubro de 2003, ele ordenou a suas milícias que depusessem suas armas.

Sergio Fajardo acabava de ser eleito prefeito de Medellín. Um estranho na política, sem rótulo partidário, esse matemático de formação rapidamente impôs um novo estilo à administração municipal. Foi dada prioridade à parte social e à educação. A nova equipe implantou um ambicioso programa de formação técnica, de apoio psicológico e inserção profissional para os paramilitares desmilitarizados. A criminalidade caiu.

"Do medo à esperança", dizia o slogan de Sergio Fajardo. Seu colaborador, sucessor e amigo, Alonso Salazar, gostaria de passar "da esperança à confiança". Mas, em toda a Colômbia, "bandos emergentes a serviço do crime organizado" estão se formando novamente. "A desmilitarização dos paramilitares nunca passou de uma trégua", acredita Jesús Balbin, diretor do Instituto Popular de Capacitação, uma associação para o desenvolvimento local.

O verdadeiro problema ainda é o do narcotráfico. A Colômbia continua a exportar cerca de 600 toneladas de cocaína por ano, que abastecem 80% do mercado mundial. Em maio de 2008, os grandes chefes paramilitares que haviam aceitado voltar à vida civil foram todos extraditados para os Estados Unidos, inclusive Don Berna. O presidente Uribe acredita que os paramilitares faziam jogo duplo e continuavam a traficar em grande escala, ao mesmo tempo em que falavam de paz.

Em algum lugar, a disputa pela sucessão foi iniciada. A guerra, que ameaça incendiar os bairros pobres, se dá entre os herdeiros de Don Berna e um certo Don Mario, por cuja captura as autoridades oferecem 3 bilhões de pesos (R$ 3 milhões).

"Nós podemos colocar os traficantes na prisão ou tentar endireitá-los, mas não podemos vencer o narcotráfico. Nosso grande desafio é governar Medellín, sabendo que esse poder corruptor está intacto", lamenta Alonso Salazar. Jornalista e escritor antes de ser prefeito, ele conhece o submundo da cidade melhor do que ninguém.

Alonso Salazar se considera otimista. "Dos 4.200 paramilitares que foram desmobilizados na região, 180 foram assassinados, e 250 estão na prisão. Estima-se que os que ocultamente retornaram à vida paramilitar somem entre 600 ou 700. O que significa que 3 mil paramilitares realmente foram desmilitarizados. Já é muita coisa", ele aponta.

O prefeito é hoje vigiado de perto por Don Berna e seus aliados políticos, que multiplicam rumores e acusações. "A velha classe política local, que gostaria de recuperar o poder, quer fazer acreditar que a cidade se tornou ingovernável e tenta a desestabilização", ressalta Jesús Balbin. "E ela sabe que fragilizar o prefeito atual é o mesmo que fragilizar Sergio Fajardo". Confiante com o seu sucesso em Medellín, o ex-prefeito lançou sua candidatura para a eleição presidencial de 2010.

"O ressurgimento da violência obedece a uma dinâmica nacional. É impensável que ela volte a seu nível anterior em Medellín", continua Balbin. "Todos esses anos de relativa calma mudaram as mentalidades. O civismo, a consciência cidadã, a rejeição à violência progrediram".

Para o pesquisador holandês Gerard Martin, "Medellín continua sendo um belo exemplo do que pode fazer uma municipalidade eficaz". Mas ela não pode fazer tudo.

dução: Lana Lim

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