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24/03/2009

Primeiro canal musical islâmico quer ser sexy sem o sexo

Le Monde
Patrice Claude No Cairo
Poderia se dizer, com um tanto de ousadia, que a ambição de Ahmed Abu Haiba é a de tornar o Islã "sexy". No sentido atraente do termo. Sexy sem o sexo, é claro. Na 4 Shebab, "o primeiro canal musical islâmico do mundo", não há mulheres. Nem na sede da empresa, no 9º andar de uma torre no Cairo, nem nas telas planas penduradas nos modernos escritórios da estação. "Já existem 70 canais de música árabes com cantoras mais ou menos vestidas que transmitem em todo o mundo muçulmano", explica Haiba, o diretor da nova emissora. Só no Egito (80 milhões de habitantes), os jovens de 15 a 24 anos representam cerca de 60% de seus telespectadores habituais. "Eles são 0% no mercado de programas religiosos".

É uma constatação difícil para os defensores do retorno à religião. Acreditava-se que os jovens estavam sendo conquistados pelo islamismo militante, às vezes sensíveis à vulgata anti-ocidental dos extremistas, ligados no véu islâmico, na charia... Talvez tudo isso seja em parte verdade. Mas, aos milhões, os jovens muçulmanos também parecem "viciados" nos clipes sensuais e nas danças sugestivas transmitidas 24 horas por dia por satélite a partir de Beirute, Cairo ou Bahrein. Quem nunca viu Nancy Agram cantar vestida com um body vermelho em lençóis de seda, a egípcia Ruby, maquiada como Cleópatra lasciva na companhia de uma píton viva, ou Haifa Wahby se mexendo, usando um robe de renda em um banheiro cor-de-rosa, não consegue entender.

Em frente, os ulemás barbudos e os pregadores de keffieh imaculado que fazem o sermão da manhã à noite nas telas quase fixas, e sem música, dos canais ditos religiosos, não têm nenhuma chance. Dessa constatação aflitiva "que mudou para pior a imagem da mulher no Oriente", e que mostra a esquizofrenia dos jovens árabes, divididos entre a rejeição da forte pressão política do Ocidente sobre o Islã e sua fascinação por seu modelo cultural, nasceu, no cérebro de Ahmed Abu Haiba, o projeto 4 Shebab - 4 de Four, ou For Shebab em anglo-árabe.

A ideia desse egípcio de 39 anos, pai de cinco filhos, crente e praticante convicto, ainda mais desde que ele perdeu um avião que acabou caindo em 1994, é utilizar de algum jeito o formato MTV, nervoso, rápido, muito anglo-saxão e tão estimado pelos jovens árabes, para levá-los suavemente ao Islã. Transmitir a eles uma mensagem "mais conforme à nossa cultura, nossa identidade, nossos valores".

Próximo dos Irmãos Muçulmanos, partidários de um islamismo político democrático e moderado que contam milhões de adeptos por todo o Oriente Médio, o diretor do novo canal islâmico "para os jovens" conhece bem esse meio. Ele foi por muito tempo executivo de um desses canais descrentes que ele abomina hoje. Foi ele, junto com outros, que inventou, no fim dos anos 1990, o tele-sermão muçulmano. Ele que lançou em 1998 o célebre Amr Khaled, ex-contador que se tornou pregador adorado pelas multidões, sobretudo pelas mulheres, de um "Islã prático e modernizado" na televisão. Do Cairo a Trípoli, passando por Argel e Tunis, as pregações de Amr Khaled e de seus colegas na religião são seguidas por milhões de telespectadores.

De jeans, camisa cor-de-rosa, barba curta e sorriso envolvente, Abu Haiba, que também escreve peças de teatro e faz adaptações de séries, é um homem simpático, moderno e bem-informado. Ele garante que não tem "nada contra a cultura ocidental". Que ele só quer "defender" a sua própria cultura da invasão dos modos de vida, das imagens, dos sons e da subcultura americana que tanto parece agradar, do Golfo ao Magreb, os jovens árabes. "Eu queria uma nova mídia islâmica, não para atacar o Ocidente, mas para construir minha cultura, com seus próprios embriões, sua própria matriz".

Seu problema número um foi encontrar financiamento. "Eu fiz um pot-pourri dos clipes mais ousados transmitidos pelos canais musicais existentes. Na Arábia Saudita, mostrei esse pequeno filme de 17 minutos para um conselho de potenciais investidores conservadores. Eles ficaram chocados! Eles não faziam ideia do que os jovens assistiam". Três ou quatro milhões de dólares mais tarde, nascia a 4 Shebab.

Desde 21 de dezembro de 2008, o canal transmite hip hop islâmico americano, rap negro muçulmano, canções árabes com letras elaboradas, poéticas e às vezes políticas, séries enlatadas com o devido decoro, alguns debates sociais. As raras mulheres que aparecem nos clipes são velhas mães de família cheias de filhos no colo, ou jovens esposas com véus até as orelhas. Na parte de baixo da tela, uma faixa divulga os SMS dos telespectadores. Enquanto esperam a primeira medição de audiência, em seis meses, é nessas mensagens que a 4 Shebab se apoia para medir sua repercussão. "Está dando certo", comemora Abu Haiba. "Recebemos por volta de mil SMS por dia. Cerca de metade deles vêm da Argélia". Em um ano, se a ideia pegar, "a 4 Shebab, o novo som do Islã" tentará conquistar o público muçulmano americano.

Tradução: Lana Lim

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