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24/03/2009

Vilarejo do interior da Rússia vive no século 19

Le Monde
Marie Jégo Em Babino (Udmúrtia, Rússia)
Os habitantes da pequena cidade de Babino, 1.129 quilômetros a leste de Moscou, fazem dois pedidos para o futuro: receber gás e ver suas estradas asfaltadas. Situada em um vale arborizado, a 40 quilômetros de Izhevsk, centro industrial e capital da Udmúrtia, nos Montes Urais, o vilarejo vive na época medieval.

A maior parte de seus 2 mil habitantes cozinham e se aquecem com lenha, buscam água no poço e se sujam nos caminhos lodosos na época do degelo. A estrada que atravessa Babino de ponta a ponta pode ter sido recoberta de asfalto, mas isso foi há 50 anos. Hoje, ela não passa de uma sucessão de buracos. Os pequenos agricultores receberam alguns "arpents" (1 arpent = 59 m2) de terra, mas a maior parte dos bens do kolkhoz está nas mãos da empresa Vostochny.

Vostochny, verdadeiro monopólio, propriedade do oligarca Andrei Oskolkov, instalado na cidade de Izhevsk, a capital da Udmúrtia, a 40 quilômetros de lá. "Nós voltamos ao século 19, o vilarejo tem um senhor. Todo mundo sabe seu nome, mas ninguém nunca o viu por aqui", relata Nadejda Fomina, uma fazendeira de jeito enérgico, representante do cantão. Para ela, Babino é um pouco como o vilarejo do Gato de Botas: "É só você perguntar a quem pertencem essas terras, esses celeiros, esses tanques, e lhe responderão, como no conto, que são propriedade do marquês de Carabás, ou melhor, do marquês de Oskolkov", ela diz, às gargalhadas.

Em 20 anos, 50% das terras cultiváveis se tornaram inexploradas.
"Na minha época, cada cantinho era cultivado, mas hoje os campos foram invadidos pelas ervas daninhas", lamenta Yulia, de 77 anos. Como seu marido Leonid, de 78 anos, ela é aposentada do kolkhoz (fazenda coletiva). Ela é uma ex-"tratorista", e ele trabalhou toda sua vida como chofer. Como suas aposentadorias (4 mil rublos mensais para cada um, ou cerca de R$ 270) não bastam para alimentá-los, eles têm uma horta, uma vaca, um porco e galinhas. "Eu ficaria bem sem isso, pois dá muito trabalho", diz Yulia, uma pequena mulher austera e esperta, de avental amarelo-vivo e lenço roxo.

Sua pequena fazenda, com paredes pintadas de cores vivas, tem um cheiro gostoso de creme e de leite fresco. Uma sopa ferve lentamente no grande fogão de cerâmica da cozinha, a lenha. "Nós já temos água corrente há um bom tempo. É um privilégio, pois metade dos habitantes de Babino buscam água no poço", se orgulha Leonid. Sua mulher concorda.

Os dois sonham com a chegada de gás na fazenda, pois com isso eles não teriam de comprar lenha. Os dutos não passam longe de lá, mas para a ligação é preciso pagar 100 mil rublos (cerca de R$6.800), pesado demais para seus bolsos. Nesse país, principal produtor de gás no mundo, um programa federal prevê a "gaseificação" dos vilarejos russos. Ela claramente ainda não chegou a Babino.

"A Gazprom (empresa que detém o monopólio do gás na Rússia) ganha muito dinheiro, mas a maior parte dos vilarejos não recebe gás. Nossos dirigentes se gabam sem parar de nossas riquezas; mas de que servem, se o povo não pode aproveitar?", se pergunta Nadejda Fomina. A fazendeira concorreu ao cargo de representante do cantão em 2005. Sua candidatura espontânea lhe rendeu vários aborrecimentos.

Logo no início, ela perdeu seu cargo de bibliotecária na casa de cultura do vilarejo, uma antiga igreja cujas abóbadas foram arrasadas na época soviética. Os habitantes logo pararam de cumprimentá-la, e seus pôsteres de campanha foram rasgados. "O chefe da administração local deu ordens de não falarem mais comigo. Os moradores obedeceram, e eu entendo, eles corriam o risco de perder o emprego...", ela conta.

Mas na noite da votação, Nadejda, que assistia à contagem dos votos, não conseguia acreditar: a maior pilha de cédulas era para ela. "Eles não me davam mais 'bom dia', mas suas almas vibravam por mim", ela recorda. Uma vez eleita, Nadejda recuperou seu trabalho de bibliotecária.

Toda manhã ela se levanta antes do Sol nascer, cuida de suas três vacas e vai a pé, com a bolsa debaixo do braço, para a casa de cultura a cinco quilômetros de sua casa. É lá que ela permanece, recebendo as reclamações de seus cidadãos. Uma canalização de água está com vazamento na entrada da cidade há anos, quando será consertada? Não seria necessário proibir a venda de álcool, que faz tantos estragos entre os jovens?

A representante é a favor. Nas oito mercearias do vilarejo, a cerveja, a vodca e o conhaque ocupam uma parede inteira. Os preços são acessíveis, 100 rublos (cerca de R$ 7) o litro de vodca, 40 rublos (cerca de R$ 2,70) meio litro de cerveja, o mesmo que um litro de leite. Todos as noites de sábado, na "diskotiéka" organizada pela casa de cultura, os adolescentes afogam seu tédio no álcool.

Os ricos o compram na mercearia. Os mais pobres, por 20 rublos (cerca de R$ 1,40), levam um litro de "kompozitsia". Essa bebida, feita à base de álcool industrial pelos fabricantes de aguardente, pode ter efeitos terríveis. A cada ano morrem entre 35 mil e 40 mil russos como consequência do consumo de álcool falsificado. Como a maioria das mulheres de Babino, Nadejda queria proibir o álcool. "Me disseram que isso faria o Estado perder muito dinheiro, mas se nada for feito, o país vai morrer disso", ela prevê.

No início de seu mandato, ela esperava mudar as coisas, "ajudar os jovens a encontrar um emprego, uma moradia". Hoje seu entusiasmo diminuiu: "sem meios, sem apoio, sou impotente". O vilarejo não tem orçamento próprio, os fundos vêm da administração do cantão. Não é fácil encontrar emprego, a iniciativa não é encorajada. O maior empregador é o antigo kolkhoz. Transformado em empresa de capital aberto após a queda do regime comunista em 1991, esse criador de porcos e produtor de leite oferece salários entre 3 mil e 5 mil rublos (de R$ 201 a R$ 338).

"Quem tem vontade de trabalhar por esse valor? Nossos jovens preferem tentar a sorte na cidade", diz Vassili, de cinquenta e poucos anos. Agricultor autônomo, ele sofre para pagar as contas no fim do mês. Às vezes ele trabalha de motorista para melhorar o ordenado. Mas o dinheiro não entra. Na primavera de 2008, o preço do leite baixou ainda mais. Desgostosos, os pequenos fazendeiros espalharam sua produção pela rodovia, em sinal de protesto.

Tradução: Lana Lim

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