UOL Notícias Internacional
 

25/03/2009

Quando Duras denunciou a exploração

Le Monde
Brice Pedroletti
Em Prey Nup (Camboja)
A alguns metros da estrada que se estende ao longo da planície de Prey Nup, uma inscrição feita em blocos de pedra indica que Marguerite Duras morou ali de 1925 a 1933.

É tudo que restou das palafitas do bangalô que Marie Donnadieu e seus filhos ocuparam, em estadias relativamente curtas.

Foi vasculhando os registros, no Centre des Archives d'Outre-Mer em Aix-en-Provence, que Vincent David, o supervisor das obras, encontrou a localização da casa e das terras que a viúva Donnadieu havia adquirido em concessão, hoje no pôlder 3.

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Hoje, em Prey Nup, um sistema de diques, de eclusas e de canais permite que se regule a irrigação fora da estação das chuvas, e bloqueia a água salgada durante as fortes marés da estação seca.

Em Prey Nup também se encontram camponeses que conviveram com a família: Kong Phay se lembra da mulher branca, do filho que a acompanhava na caça e que falava o dialeto local, da filha que só falava francês. "A gente ouvia falar francês, dava medo. Quando falavam comigo, eu tinha medo", ele diz, na casa do califa da etnia cham, que hoje ocupa o antigo terreno dos Donnadieu.

Os "cães do registro"

A infeliz aventura da mãe de Marguerite Duras, que fornece o material narrativo de "Uma barragem contra o Pacífico", publicado em 1950, também é a história de uma conscientização contra o ocupante colonial e justamente seu registro de propriedade que, com a ajuda da corrupção, leva à expropriação dos camponeses e à falência dos colonos ludibriados.

Toda a frustração da "mãe" recai sobre os "cães do registro": aos camponeses, ela "contava sua história e lhes falava por muito tempo sobre a organização do mercado de concessões (...). Ela lhes explicava também como as expropriações, das quais muitos haviam sido vítimas em benefício dos pimenteiros chineses, também eram explicáveis pela ignomínia dos agentes do Kam", escreveu a romancista.

Para o cineasta cambojano Rithy Panh, que deu uma atenção especial a essa conscientização no filme que ele adaptou, em 2008, baseado no romance e rodado em Prey Nup, essa problemática do direito de acesso à terra e da expropriação dos camponeses em benefício dos proprietários, por exemplo, continua atual no Camboja, onde a lei de mercado, a corrupção, e o jogo de interesses econômicos muito poderosos levam a todos os tipos de desvios.

"O sucesso dos pôlderes de Prey Nup se deve ao fato de que as pessoas podem administrar a si mesmas, em cooperação. A grande aposta é que ela dure", ele diz.

Tradução: Lana Lim

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