UOL Notícias Internacional
 

25/03/2009

Uma barragem contra o Pacífico

Le Monde
Brice Pedroletti
Em Prey Nup (Camboja)
O distrito de Prey Nup, uma imensa planície que termina em pântanos cobertos por mangues, na fronteira com o mar da China, na rota de Sihanoukville, no sul do Camboja, já foi local de um sonho maluco. "Centenas de hectares de arrozais seriam retirados do alcance das marés. Todos seriam ricos, ou quase. As crianças não morreriam mais. Teríamos médicos. Construiriam uma longa estrada ao longo das barragens que atenderia as terras liberadas", escreveu Marguerite Duras em "Uma barragem contra o Pacífico", contando a esperança de vingança da "mãe" contra a administração colonial corrupta que lhe vendeu, no fim dos anos 1920, uma terra que as marés altas queimaram sistematicamente antes da colheita.

A mãe também sonhava em tirar os camponeses da miséria e os arrebanhou para seu projeto. Mas quando o oceano "atacou a planície, as barragens não foram tão potentes. Elas haviam sido roídas pelos caranguejos anões dos arrozais. E, uma noite, elas desmoronaram".

VEJA TAMBÉM

A infeliz aventura da mãe de Marguerite Duras, que fornece o material narrativo de "Uma barragem contra o Pacífico", publicado em 1950, também é a história de uma conscientização contra o ocupante colonial

Hoje, em Prey Nup, um sistema de diques, de eclusas e de canais permite que se regule a irrigação fora da estação das chuvas, e bloqueia a água salgada durante as fortes marés da estação seca. Ele é administrado por uma comunidade de usuários que financiam sua manutenção. Esses 10 mil hectares de pôlderes convertidos em arrozais produzem o suficiente para alimentar quase 8 mil famílias e garantir a uma grande parte delas rendas complementares.

Para chegar lá, foram necessários dez anos de esforços conjuntos entre ONG francesas, poderes públicos cambojanos e a Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD) que financiou esse projeto de € 11 milhões. Em um Camboja em plena efervescência econômica, onde os camponeses - 80% da população - vivem com frequência a insegurança fundiária, os pôlderes de Prey Nup se tornaram um modelo de desenvolvimento sustentável.

Em 1997, "foi a catástrofe. Haviam colocado pranchas no que restou das pequenas barragens do dique francês. Os antigos diques foram arrombados, o mangue tomou conta", lembra Vincent David, engenheiro da ONG Handicap International. Então foi preciso entender o funcionamento dos mangues e desses solos muito ácidos, onde nada cresceria se tanta água os banhasse na época de chuvas: "Em profundidade, temos 15 m de pântano. Estava fora de cogitação fazer fundações em concreto. Tivemos de estabilizar as grandes eclusas com estacas de madeira de lei", ele diz.

Todo um passado de precariedade ainda está na memória: Roun Kho, uma mulher de 57 anos, se lembra das boas colheitas em sua juventude. Sob o domínio do Khmer Vermelho, seu hectare de terra foi coletivizado, e ela teve de participar até a exaustão dos trabalhos de barragens, a ponto de perder dois de seus cinco filhos. Yim Boy, de 63 anos, também sob o Khmer Vermelho, foi levado três vezes para ser executado, em um vilarejo vizinho, onde se encontra um ossário, mas teve sua vida poupada graças ao seu conhecimento de técnicas agrícolas e de irrigação. "Em seguida, toda a população teve de se retirar para as montanhas com o Khmer Vermelho. As pessoas fugiram e voltaram para os pôlderes. Outros também ali se instalaram. No começo, os diques do Khmer Vermelho ainda funcionavam, era feita uma manutenção comunitária no vilarejo. Depois, começou a degradar. Cada vez menos gente queria participar, e no fim, mais ninguém!", ele diz.

Para as ONG, o desafio era implementar uma gestão perene das instalações: "O princípio de uma comunidade de usuários é que ela possa financiar a manutenção por meio de um imposto", explica Jean-Marie Brun, especialista em desenvolvimento rural no Gret (Grupo de pesquisa e intercâmbio tecnológico). "As pessoas tinham uma desconfiança em relação a tudo que era coletivo", ele diz.

Segundo Veng Sakhon, o secretário de Estado para os recursos hídricos, que acompanhou o projeto do lado do governo cambojano, "as pessoas não viam mais a diferença entre a liberdade e a anarquia depois do Khmer Vermelho. Tudo era possível, cada um ficava onde podia, mas ninguém queria ouvir a palavra cooperativa". Um projeto piloto de cadastro foi lançado para regularizar os títulos de propriedade. "Toda a filosofia de nossa ação, é fazer com que o sistema seja viável sem nós, e que ele possa ser copiado em outros lugares. Um organismo de microcrédito que financiamos é hoje um banco e não depende mais de financiadores", diz Hervé Conan, encarregado da AFD em Phnom Penh.

A primeira colheita, em 2000-2001, após o início das obras, não foi boa. "Foi preciso esperar o ano seguinte para que as pessoas compreendessem que isso lhes beneficiaria. No começo foi difícil coletar os impostos, as pessoas diziam que não existe taxa fundiária no Camboja. Ainda temos dificuldades em 300 hectares, alguns agricultores araram as terras quando viram que a maré não subiria mais, mas proprietários que compraram as terras antes, hoje querem recuperá-las. Eu disse às pessoas que, pagando o imposto, eles teriam a prova do uso das terras", diz Yim Boy, que foi eleito pelos representantes dos camponeses o presidente da CUP (Comunidade dos usuários dos pôlderes).

O imposto custa US$ 11 por hectare, e a AFD calcula que a receita tenha sido multiplicada por 1,5. Quase 15 mil toneladas extras de arroz são assim produzidas em Prey Nup todos os anos. Com um índice de recuperação de 70%, a CUP tem hoje seus próprios escritórios e sua equipe recebeu uma formação específica. Ela financia suas operações e a manutenção dos diques, e possui um fundo de emergência em caso de má colheita.

Eis como as barragens contra o Pacífico estão se tornando uma realidade, quase um século depois de ter sido o "sonho maluco" de uma professora que desejava justiça e vingança social.

Tradução: Lana Lim

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    17h00

    0,40
    3,279
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    0,95
    63.257,36
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host