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28/03/2009

Violência das gangues de jovens é desafio de novo governo em El Salvador

Le Monde
Jean-Michel Caroit Enviado especial a San Salvador
O nome delas é sinônimo de violência extrema. São chamadas de "maras". São gangues de jovens de práticas brutais e sanguinárias, que por muito tempo obedeceram a códigos de vestimentas e rituais. Essas gangues proliferaram depois do fim da guerra civil em El Salvador (1980-1992), fazendo deste pequeno país da América Central um dos mais violentos do mundo. Todas as medidas tomadas contra elas não tiveram efeito até agora. "A política da direita (no poder há 20 anos) contra a delinquência fracassou", constata Mauricio Funes. Esse homem de esquerda, que acaba de ser eleito presidente de El Salvador no dia 15 de março, não escondeu durante a campanha eleitoral que a luta contra as gangues seria uma de suas prioridades.

Juíza no Tribunal de Menores de San Salvador, sondada para o ministério da Segurança, Aída Luz Santos de Escobar explica as razões do fracasso: "As leis antimaras adotadas desde 2003 são anticonstitucionais e violam os direitos humanos. Não podemos discriminar e condenar jovens em função da maneira como eles se vestem ou porque eles se comunicam por meio de sinais".

Após a votação da primeira lei antimaras, em outubro de 2003, a polícia deteve 95 mil jovens, tatuados em sua maioria, e suspeitos de pertencer às maras. "Ao final de seis meses, somente 5% continuavam na prisão, por porte de arma, drogas ou outros delitos. Surdos-mudos que se comunicavam com as mãos haviam sido capturados", recorda Aida Santos.

No decorrer dessas operações, a polícia fichou cerca de 15 mil mareros (membros das gangues juvenis). "Eles não se deram conta de que os mareros se adaptam. Eles pararam de se tatuar, se vestem de forma diferente e melhoraram sua estratégia", ela afirma. Frente à resistência de vários magistrados, o presidente Antonio Saca reforçou o arsenal legislativo, associando as gangues com o crime organizado, e nomeou dez juízes especializados. "Mais bem pagos que nós, esses 'juízes blindados' condenam todos", afirma Aída Santos.

Não estou aqui para punir a pobreza", ela diz, enquanto um policial bate à porta para apresentar Jonathan. Com o torso coberto por uma tatuagem da "Mara 18", ele foi condenado por extorsão e acaba de ter uma discussão com o diretor do centro evangélico onde ele está em liberdade assistida.

"Ele me desrespeitou", garante Jonathan. A juíza senta-se ao seu lado: "Você quer voltar para a prisão? Quer ser morto pela Mara Salvatrucha (a gangue rival)?", ela pergunta. "Mesmo que ele quisesse deixar a gangue, ele não poderia fazê-lo sem correr o risco de ser morto", explica Aída Santos".

"A sociedade deve se defender. Nós precisamos de um plano de segurança respeitando as garantias constitucionais. As sanções devem ser acompanhadas de uma verdadeira política de prevenção e de reabilitação. Nós devemos atacar as causas da delinquência, como a pobreza e a discriminação", ela resume.

Para Luis Romero, a eleição de Mauricio Funes representa um raio de esperança. Veterano da "Mara 18", ele dirige o escritório local de uma ONG com sede em Los Angeles, Homies Unidos, que organiza programas de prevenção e de reabilitação para tentar reduzir a violência das gangues.

El Salvador

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    Nome oficial: República de El Salvador

    Capital: San Salvador

    População: 7 milhões

    Expectativa de vida: 72 anos

    Nacionalidade: salvadorenha

    Divisão: 14 departamentos

    Línguas: espanhol (oficial) e náuatle

    Religião: católica, minoria protestante

    Moeda: dólar norte-americano

    Natureza do Estado: república presidencialista

Nascido há 42 anos em uma família modesta de San Salvador, Luis Romero foi enviado por seus pais em 1980 a Los Angeles, para escapar do recrutamento forçado que o exército e a guerrilha de extrema esquerda praticavam durante a guerra civil. Depois de atravessar clandestinamente a fronteira entre o México e os Estados Unidos, ele ficou abrigado por algum tempo na casa de um tio.

Ele não pôde estudar, como desejava. Aos 14 anos, Luis foi empregado em uma oficina mecânica. Na casa de seu tio, Luis bebia e começou a usar maconha e cocaína. "Depois de um ano, eu estava viciado e comecei a roubar. Fui expulso de casa e acabei na rua. Eu roubava, bebia e me drogava", ele recorda.

No final de um ano de errância, uma jovem chicana o introduziu à "Mara 18". Luis, conhecido como "Panza Loca", encontrou na gangue o carinho e o apoio que ele perdera com sua família. Mas também a loucura permanente, a violência e a prisão. "Fui preso 36 vezes. Na época, os salvadorenhos não eram deportados por causa da guerra civil", ele conta.

Após os acordos de paz de 1992, começaram as deportações em massa. A paternidade encorajou Luis a mudar de vida. Ele teve duas filhas e decidiu voltar para El Salvador, onde participou da fundação da ONG Homies Unidos. "Nosso objetivo não é tirar os jovens do grupo que lhes dá solidariedade que eles não encontram em outro lugar. O que tentamos mudar é o comportamento delinquente do grupo, transformando-o de forma positiva", explica Luis, que acaba de dar uma aula de inglês a um grupo de jovens.

O local, emprestado pela prefeitura, abriga diversas oficinas. "O governo nunca nos ajudou. Nós recebemos cerca de US$ 60 mil por ano de ONGs internacionais. Precisaríamos do dobro, no mínimo", ele diz.

Seriam as maras ligadas ao crime organizado? "Não vou negar que alguns traficam drogas para sobreviver. Mas quando apreendem grandes cargas, não são os mareros que estão por trás, e sim os criminosos de colarinho branco", ele garante.

Todos os anos a guerra entre as principais maras, a "18" e a "Salvatrucha", faz quase 1.500 mortos em El Salvador. Luis Romero sonha com um acordo de paz e de desarmamento como aquele que pôs fim à guerra civil em 1992.

Tradução: Lana Lim

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