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29/03/2009

Geração de jovens de 20 anos busca a emancipação em Mianmar

Le Monde
Anaïs Favre Enviada especial para Yangun (Mianmar)
A história ainda não lhes deu um nome, apenas uma letra: "Z". Eles estreiam seus 20 anos nos bancos em pátina do lago Inya, no centro de Yangun, ou ao longo das avenidas secas e quentes de Mandalay, a ex-capital real. Eles têm o sóbrio rosto moreno e a constituição estreita de seus pais. Elas têm a postura ereta e a curvatura elástica de suas mães. Mianmar é seu país, e a ditadura, seu regime.

"Z" para "geração Z". Um rótulo que eles não conhecem, não usam, mas que os pesquisadores e expatriados lhes atribuíram. Uma denominação como resposta àquela que define seus pais: "geração 88", para o ano de 1988, em que a junta militar no poder reprimiu com uma violência inédita o movimento estudantil que a contestava. Uma expressão em forma de enigma, que resume à sua maneira uma juventude antes de tudo urbana, cujos gostos e ambições, comuns a outras regiões da Ásia, agora se desenvolvem em Mianmar.
  • Lwin Maung Maung/AFP - 8.mar.2009

    Birmaneses participam de cerimônia religiosa em Yangun



Um estranho país, Mianmar, isolado há quase 50 anos. Onde, até 15 anos atrás, um jantar após as 20h podia ser interpretado como uma tentativa de reunião política, passível de detenção. Onde, até três anos atrás, os DVDs eram formalmente proibidos, assim como as antenas parabólicas. Um país onde, ainda hoje, os emails são lidos e os chips de celulares estão disponíveis somente no mercado negro.

A geração Z tem 20 anos e, sem greves, sem manifestações - impossíveis - , ela se emancipa. Como Min Thu, de 22 anos, estudante de economia, filho de pequenos comerciantes têxteis. O primeiro de sua linhagem a ter rejeitado definitivamente o longyi, a vestimenta tradicional, um grande pano leve que os birmaneses amarram em volta da cintura como uma saia-calça. Min Thu quer tudo: desde seu jeans escuro até seus tênis. Apesar dos 35 graus ambientes. "No começo, meus pais zombaram de mim, eles acharam que era só uma fase".

Mas, não. Agora, dezenas de shopping centers permitem à sua faixa etária que satisfaçam seus desejos. Galerias comerciais que piscam pálidos neons. Há mais vendedores que clientes, e as marcas são mais caras do que nas bancas de rua. Mas, como outros jovens do mundo, a nova geração birmanesa adora se encontrar lá, mesmo que não possa pagar pelos preços anunciados. Explosiva, a moda é influenciada por uma onda de cultura rap e hip-hop. Com estrelas, concertos ao ar livre e milhares de jovens fãs que adoram seus ídolos em trajes de videoclipe. A evolução permanece sob controle: os cantores de rap ou de punk têm direito aos artifícios que lhes convêm, mas a censura suaviza seus refrões subversivos. O pop internacional é traduzido integralmente e reinterpretado por artistas birmaneses, inclusive Madonna e Céline Dion.

Ela tem 20 anos, a geração Z, e isso envolve essa nova cultura. Nay Mar, de 23 anos, massagista em um spa acetinado em Yangun por US$ 20 ao mês, gosta de Shakira e dos Backstreet Boys. Graças às gorjetas de seus clientes, que chegam a US$ 300, essa filha de militar pôde adotar o jeans e a bermuda. Ela ri: "Eu uso o longyi quando vou encontrar meus pais aos domingos, na Shwedagon, o grande templo da cidade". Ela sabe quem esconde a saia por baixo do longyi antes de ir para os clubes noturnos.

Ela tem 20 anos, a geração Z, e então ela se liberta. Mas de forma recatada, como nos anos 1960. Ela não deprecia o budismo. Continua a morar sem pestanejar na casa dos pais, até o casamento. Eles tagarelam, mas sem excessos. Então a vida passa, em apartamentos pequenos, atrás de fachadas escurecidas pelo tempo e pela umidade. Sobe-se até eles depois de tocar a sineta pendurada por um cordão que chega até a calçada. Grades substituem portas e janelas, deixadas entreabertas por causa do calor. E, como na casa de Sanda Lwin, somente o sofá da sala e um biombo separam sua cama da de seu avô.

Ela tem exatos 20 anos, Sanda Lwin. Ela desliza em seu jeans novo, cuida de seu corte curto de cabelo de moleca, não se queixa. Ela sonha somente com outro lugar. "Porque aqui a educação não vale nada". Na universidade, onde ela estuda línguas estrangeiras, como em todas as faculdades, a biblioteca está fechada. As reuniões são desaconselhadas. Os professores devem deixar a porta da sala de aula aberta durante os cursos. Como todos os estudantes potencialmente rebeldes, Sanda Lwin também não tem direito de andar fora de Yangun. Para sair de lá, ela precisa de uma autorização do reitor.

Se quiser ter uma chance de passar em seus exames, todas as tardes ela deve fazer aulas em uma instituição particular. Para remediar as deficiências do sistema público, a maioria dos pais recorre a isso, desde o colégio. A qualidade de ensino varia de acordo com os preços. Sanda Lwin se desespera, pois, apesar de todos seus esforços, mesmo para ela, vinda da classe média alta, não haverá "empregos interessantes e bem remunerados".

Então ela sonha, sim. Com o exterior. Como a imensa maioria dos jovens birmaneses que agora têm acesso à televisão e às séries sul-coreanas. Há internet para muitos, ainda que inúmeros sites ainda sejam proibidos. Nos últimos cinco anos, o preço do passaporte passou de centenas de dólares para menos de 50. Assim surgiram muitas agências de "empregos no exterior", oferecendo, à sua maneira, um kit para montar sonhos. Elas prosperam e oferecem salários até dez vezes maiores que a renda média em Mianmar, cerca de US$ 40 por mês. Os rapazes vão para canteiros de obras, gasodutos, navios, e as moças trabalham como contadoras. Os principais destinos são a Malásia, Cingapura, e Emirados Árabes Unidos.

Apesar das taxas proibitivas (até US$ 1.800), dos vários vigaristas no ramo, e de uma crise econômica que esvazia as ofertas, até os mais modestos querem tentar a sorte. Relíquias, búfalos, pedaços de terra, algumas pessoas não hesitam em vender tudo para poderem fugir. Os jovens oriundos de minorias étnicas, duramente discriminados, também se inscrevem em massa nessas agências. Um novo mercado, afinal, que tenta acabar com as frustrações. Dizem que a junta militar tira proveito disso, à noite, nos tea shops (casas de chá). Tanto do ponto de vista político como financeiro: os rendimentos seriam, como em vários países da África, consideráveis.

Ela tem 20 anos, a geração Z, mas na maioria das vezes ela só fica no exterior por alguns anos, de tanto que é apegada a seu difícil país, apesar de tudo. Os mais ricos vão para fora durante os estudos, e os demais, para juntar um pouco de dinheiro. Thu Maung, de 24 anos, passou dois anos na Malásia, entre 2005 e 2007, primeiro como cozinheiro, e depois como operário de construção, ilegalmente. Ele ainda usa o longyi, mas tem, em sua casa, pôsteres do Marilyn Manson e do Eminem, que ele adora. "Foi difícil, mas graças a isso, minha mãe, divorciada, pode alugar um ônibus. Com o que os passageiros pagam, ela consegue US$ 10 por dia". Ele havia ficado sem seu passaporte, depois de deixar seu primeiro empregador, que não lhe pagou o salário prometido. Foi de forma clandestina, após nove dias de caminhada na selva, que ele conseguiu voltar para Mianmar. Assim que ele puder, no entanto, ele partirá novamente.

A geração Z tem 20 anos e acredita na mudança por meio do dinheiro, não pela política. A maioria dos jovens não participou das manifestações dos monges contra o alto custo de vida, em novembro de 2007. Os que foram eram mais curiosos do que militantes. Aung San Suu Kyi, premiada com o Nobel da Paz, também não tem para eles a aura que o Ocidente lhe confere. Eles respeitam sua história, mas contestam suas posições - consideradas extremistas - , minimizam sua influência. A principal opositora passou mais de 13 dos últimos 20 anos em prisão domiciliar: quase uma desconhecida, então, para eles. "Alguns de meus amigos acham que ela está morta", conta Min Thu, o estudante de economia.

Sem política, "o business" também atrai Ni Ei, de 29 anos, que administra dois empregos. Com um sólido olhar penetrante, ela explica com ousadia: "Não é de democracia que precisamos no momento". Um assunto para discussões com seu pai. "Eu digo a ele: 'Seus métodos de oposição política radicais não dão em nada. O que precisamos fazer é nos desenvolver, é assim que virá a mudança!'" Os exilados a provocam: "Aqueles que vão para o exterior e não voltam são egoístas. É aqui que se deve combater".

Ela tem 20 anos, a geração Z, e em 2010, a junta militar prevê um acontecimento que pode quase transformá-la em "geração 2010": a instauração do "multipartidarismo". Mas, assim como os observadores internacionais, ela desconfia. "Mesmo com boa vontade, o exército não pode mudar sua forma de funcionamento da noite para o dia", lamenta Maung Moe, de 28 anos, empregado de uma associação. Ainda mais desiludida, Sanda Lwin diz: "Trabalhamos para os que virão; para nós, já é tarde demais".

Ela tem 20 anos, a geração Z, e ela também tem esse triste amargor que a vida costuma reservar àqueles que começam a murchar com os anos: a impressão de que sua vez já passou.

Tradução: Lana Lim

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