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02/04/2009

A América do Sul tenta enfrentar o desafio da defesa

Le Monde
Paulo A. Paranaguá
Os ministros da Defesa dos doze países da América do Sul se reuniram pela primeira vez, dia 10 de março, em Santiago do Chile, no Conselho de Defesa Sul-americano, criado em maio de 2008, por iniciativa do Brasil. "O Conselho não constitui uma aliança militar no sentido clássico, não temos inimigos externos identificados", explicou o ministro chileno José Goñi. "Não se trata de criar uma força sul-americana", acrescentou o ministro brasileiro Nelson Jobim, descartando a analogia com a Otan.

O objetivo, mais modesto, é inédito. O Conselho é um órgão de diálogo, onde os ministros da Defesa da região podem refletir, compartilhar experiências e desenvolver atividades conjuntas. A exemplo das tropas do Chile, do Brasil, da Argentina e do Uruguai, que já trabalharam juntas em missões de paz, em especial no Haiti. Chilenos e argentinos chegaram a criar uma unidade binacional, quando estiveram à beira de uma guerra em 1978.

O Conselho também pretende promover a integração e a cooperação em matéria de armamentos. "A indústria da defesa estimula o desenvolvimento da indústria em geral", justificou Goñi. Principais fabricantes da América do Sul, os brasileiros são suspeitos de procurarem garantir novos mercados para suas indústrias aeronáutica e naval.

O Instituto Internacional de Estudos Estratégicos de Londres registrou, em cinco anos, um aumento de 91% dos gastos com armamentos na América Latina, que passaram de US$ 24,7 bilhões em 2003 para US$ 47,2 bilhões em 2008. A Venezuela, que comprou da Rússia aviões Sukhoi, fuzis Kalashnikov e submarinos, é a principal responsável por esse aumento, seguida pela Colômbia, o Brasil e o Chile. Mas é difícil falar em uma "corrida armamentista", uma vez que a América Latina continua sendo a região do mundo que menos investe na Defesa. De qualquer forma, para atenuar as suspeitas, os países sul-americanos decidiram harmonizar seus indicadores.

Região desnuclearizada, sem conflitos bilaterais há muito tempo, a América do Sul ainda assim vive tensões, como aquela provocada pelo ataque colombiano contra um campo da guerrilha das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc, extrema esquerda) situada no Equador, em março de 2008. Um ano depois, Quito e Bogotá ainda não restabeleceram suas relações diplomáticas. Além disso, a polêmica voltou recentemente, quando o ministro colombiano da Defesa, Juan Manuel Santos, falou do sucesso do ataque em termos de redução da capacidade de nocividade das Farc. O presidente venezuelano, o tenente-coronel Hugo Chávez, prometeu reagir a uma eventual incursão colombiana com seus Sukhoi.

A tensão entre esses três países andinos (Colômbia, Equador e Venezuela) contrasta com a colaboração que reina sobre a fronteira amazonense. No dia 12 de março, a Colômbia e o Brasil decidiram compartilhar suas informações vindas de satélites sobre uma faixa de 50 quilômetros de cada lado de suas fronteiras e organizar patrulhas comunitárias nos rios, as verdadeiras estradas da Amazônia. Os traficantes de droga são o alvo, mas as Farc também. Enquanto Bogotá se queixa da complacência que reina nas zonas fronteiriças do Equador e da Venezuela no que diz respeito às Farc, o ministro Nelson Jobim foi muito claro sobre a maneira como a guerrilha seria recebida no Brasil: a fogo cerrado.

"A criação do Conselho não supõe que todas as diferenças ou as tensões regionais tenham sido superadas", admitiu Goñi. "O Conselho vai trabalhar sobre a base do consenso, nos pontos que unem os países-membros". A Venezuela nunca aprovou a missão dos capacetes azuis da ONU no Haiti. Por falta de consenso a respeito da participação dos militares em missões de segurança pública, o tráfico de drogas foi relegado a um anexo da declaração de Santiago", lamenta Alfredo Valladão, professor no Instituto de Estudos Políticos de Paris. "Ter um órgão de prevenção ou de solução das crises bilaterais e regionais é positivo, mas deixar de lado o narcotráfico é mau sinal", ele acredita.

Durante sua conversa com o presidente americano Barack Obama, em 14 de março, seu colega brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva teve de reconhecer a importância do desafio representado pelas drogas. Ele propôs, nessa ocasião, a criação de um conselho sul-americano para lutar contra o tráfico de drogas. Mas a ameaça dos cartéis também diz respeito ao México, a América Central e o Caribe. Daí a inutilidade da política que separa a América do Sul do resto da América Latina, atribuída à diplomacia brasileira.

A América do Sul também não está de acordo a respeito dos Estados Unidos. A maioria dos países concebe suas relações em termos de parceria e participam regularmente de manobras conjuntas com as forças americanas. Em compensação, a Venezuela e a Bolívia preferem apostar no antiamericanismo. No entanto, Obama tem a possibilidade de mudar essa configuração na próxima cúpula das Américas, em Trinidad e Tobago, no dia 17 de abril.

Tradução: Lana Lim

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