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02/04/2009

Além da recessão, estamos diante de uma crise de civilização

Le Monde
Luiz Inácio Lula da Silva
Ao contrário das crises desses quinze últimos anos - na Ásia, no México ou na Rússia - , a atual tempestade que arrebatou o planeta se originou no centro da economia mundial, nos Estados Unidos. Depois de ter atingido a Europa e o Japão, a crise ameaça os países emergentes que se beneficiavam de um extraordinário crescimento e de um saudável equilíbrio macroeconômico.

Na América do Sul, os dez últimos anos foram marcados por um forte processo de crescimento, acompanhado de uma sensível melhora social, de uma estabilidade macroeconômica e de uma redução da vulnerabilidade externa. Esse processo se deu dentro de um contexto de expansão e de fortalecimento da democracia.

A instabilidade de um capital financeiro desatrelado da produção, somada à irresponsável desregulamentação dos mercados, levaram o mundo a um impasse cuja extensão nem os responsáveis são capazes de avaliar. A crise trouxe à tona os profundos erros de políticas econômicas apresentadas como infalíveis e a fragilidade dos organismos multilaterais de Bretton Woods. Ela mostrou como os instrumentos de regulação mundial são obsoletos.

A transformação do G20, até então um órgão técnico, em foro de governantes das principais economias do mundo, é positiva. No entanto, é importante que ele possa trazer soluções capazes de impedir os efeitos devastadores da crise e de conduzir a uma profunda reformulação da economia internacional a médio e longo prazo. A reunião do G20 em Londres não pode frustrar as expectativas. É necessário encontrar respostas que criem as condições para a retomada econômica.

Entre os problemas mais urgentes, o restabelecimento do crédito e a luta contra o protecionismo me parecem ser os temas centrais. A queda do comércio mundial e dos investimentos está ligada à insuficiência de liquidez no mundo. Ela pune os países emergentes. Então cabe ao FMI irrigar a economia internacional, principalmente dos países emergentes, para inverter a atual tendência recessiva, antes que seja tarde demais.

Sei que não será fácil concluir a Rodada de Doha (negociações da OMC sobre uma nova fase de liberalização do comércio), que estava em processo de ser finalizada no ano passado. Em tempos de crise, o protecionismo, que eu comparo a uma droga, aumenta. Ele de fato traz uma euforia provisória, mas a médio e longo prazo, acaba gerando uma profunda depressão, com consequências sociais e políticas funestas, como mostra a história do século 20.

Democratizar o FMI
Devemos democratizar o FMI e o Banco Mundial. Essas instituições, que costumavam dar lições aos países pobres e em desenvolvimento, foram incapazes de prever e de controlar a desordem financeira que se anunciava.

Um outro assunto de importância é o fim dos paraísos fiscais, essa eficaz retaguarda para o tráfico de drogas, a corrupção, o crime organizado ou o terrorismo. Desde a intensificação dos efeitos da crise, mantive contato com os dirigentes do mundo inteiro em busca de alternativas. Espero que isso resulte, com a reunião do G20 em Londres, em um conjunto de propostas capazes de trazer uma resposta substancial à crise.

Nesses últimos anos, o Brasil fez um imenso esforço de reconstrução econômica. Nós adotamos políticas anticíclicas que nos tornaram menos vulneráveis à crise. Nossos programas de distribuição de renda, que beneficiam mais de 40 milhões de pessoas, se articulam com uma política de reforma agrária, salarial e de crédito que favorece os mais pobres e permitiu um aumento considerável do mercado interno. O plano de aceleração do crescimento investirá US$ 270 bilhões na economia até 2010, revolucionando a infraestrutura física, energética e social do país.

Nossas reservas internacionais, superiores a US$ 200 bilhões, também contribuíram para a boa saúde da economia brasileira. Nós somos credores externos líquidos. Nossa dívida pública representa 36% do PIB. Nosso sistema bancário é sólido. Os bancos estatais, responsáveis por 40% do crédito, garantem ao Estado as condições de regulação da economia e de promoção do desenvolvimento. Não me canso de repetir que chegou a hora da política e do restabelecimento do papel do Estado. Os dirigentes devem assumir a responsabilidade que a sociedade lhes confiou.

É importante salvar os bancos ou as seguradoras para proteger os depósitos e a previdência social. Mas é ainda mais importante proteger os empregos e incentivar a produção.

Mais do que uma grave crise econômica, estamos diante de uma crise de civilização. Ela exige novos paradigmas, novos modelos de consumo e novas formas de organização da produção. Precisamos de uma sociedade na qual os homens e as mulheres sejam agentes de sua história, e não vítimas da irracionalidade que reinou nesses últimos anos.

Tradução: Lana Lim

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