UOL Notícias Internacional
 

04/04/2009

O espaço: lixeira a céu aberto

Le Monde
Pierre Le Hir
Foi por pouco. Por três vezes em dez dias, os ocupantes da Estação Espacial Internacional (ISS), a 350 km acima da Terra, estiveram perto de sofrer um acidente espacial.

No dia 12 de março, o comandante de bordo, o americano Michael Fincke, e os dois engenheiros de voo, o russo Yuri Lonchakov e a americana Sandra Magnus, receberam a ordem de se refugiarem em suas naves de apoio Soyuz, por temor de impacto com um pedaço de motor de satélite à deriva, detectado tarde demais para uma manobra de desvio.

Foi só um alarme falso, mas em 16 de março, um outro objeto voador não identificado - vindo talvez de um satélite russo desintegrado pouco depois de seu lançamento em 1981 - ameaçou a junção da nave Discovery à ISS. E, finalmente, em 22 de março,os motores da Discovery tiveram de ser ligados durante três horas para baixar a altitude da estação, para prevenir qualquer risco de os astronautas americanos Steve Swanson e Joseph Acaba, que faziam uma saída extra-veicular, serem atingidos por uma peça que escapara de um foguete chinês lançado em 1999 e despedaçado um ano depois.

Poluição humana

A 5ª Conferência sobre os Detritos Espaciais, organizada pela Agência Espacial Europeia (ESA) de 30 de março a 2 de abril em Darmstadt (Alemanha), veio na hora certa. Ela reuniu mais de 300 especialistas de 21 países, com uma forte representação americana, russa e chinesa.

Em 10 de fevereiro, um satélite militar russo Kosmos, desativado desde 1995, e um satélite de telecomunicações americano Iridium, em funcionamento, colidiram com tudo a 800 km acima da Sibéria, espalhando na alta atmosfera mais de 700 pedaços grandes, e milhares de pequenos fragmentos.

Eles vêm se somar aos 35 milhões de objetos com mais de 1 milímetro que, de acordo com as últimas avaliações, gravitam abandonados, na periferia terrestre. Uma lixeira a céu aberto. Ali, encontramos uma mistura de satélites em fim de vida ou desintegrados, estágios superiores de lançadores, mecanismos de separação, baterias, escudos, parafusos explosivos, cordões detonadores ou diversos elementos de pequeno porte, como escamas de tinta. A poluição humana, que se acelera desde o início da conquista espacial - o lançamento da Sputnik-1 em 1957 - , é tal que a densidade desses detritos flutuantes é maior do que a das poeiras naturais de meteoritos.

"Nossa capacidade de utilizar o espaço de forma segura não é garantida a longo prazo", dizGérard Brachet, ex-presidente do Comitê para a Utilização Pacífica do Espaço da ONU. As zonas mais congestionadas, ou seja, as órbitas baixas (menos de 2 mil km de altitude) e geoestacionárias (36 mil km), são aquelas onde cruzam a maioria dos satélites de observação da Terra e de telecomunicações.

O choque Kosmos-Iridium é a quarta colisão do espaço registrada. Ela certamente não é a última. A probabilidade de um satélite em órbita baixa do tipo Scot cruzar em sua rota um objeto volumoso, em tráfego constante, é de duas em 10 mil anos. O que é pouco.

Mas as consequências seriam catastróficas. Lançadas a uma velocidade orbital de 8 a 10 km por segundo, os detritos possuem uma energia cinética devastadora. Os danos seriam mínimos em caso de colisão com materiais de porte menor, mas os riscos de acidentes também são mais elevados. O exame de um painel do telescópio Hubble, trazido a terra para ser substituído, revelou mais de 5 mil impactos visíveis a olho nu.

Não basta limitar os prejuízos, por meio de melhores blindagens ou de uma arquitetura de satélites que protegem os equipamentos mais vulneráveis, concluíram os participantes da Conferência de Darmstadt. Medidas de redução da poluição espacial são "necessárias", ainda que sejam "tecnologicamente difíceis e potencialmente custosas".

Mas, quais? Foram dadas várias sugestões para se fazer uma limpeza : a recuperação de resíduos pelas naves, envio de um rebocador-lixeira, desintegração por laser... De forma mais realista, seria possível religar os motores dos satélites em fim de vida para tirá-los de órbita, ou para as camadas baixas da atmosfera, onde eles se consumiriam, ou para altitudes inabitadas muito altas, em órbitas "cemitérios".

Por enquanto, somente os 13 mil detritos com mais de 10 cm são catalogados e rastreados por radares e telescópios militares.

Principalmente os da US Strategic Command, que disponibiliza um mapa de rota diário, que pode ser consultado on-line. A defesa aérea russa também possui sua rede de vigilância, mas não divulga suas informações.

A Europa, por sua vez, dispõe do radar francês Graves (Grande Rede Adaptada para o Monitoramento Espacial), explorado pela aeronáutica e que controla 2 mil objetos em órbita baixa. Mas os que têm menos de 1 metro escapam à sua vigilância.

Então os europeus continuam dependentes dos dados fornecidos pelos americanos. Foi para se emanciparem que, no final de 2008, eles adotaram um programa de monitoramento espacial. "Para um continente que, com seus lançadores e seus satélites, constitui uma grande potência espacial, um sistema de monitoramento independente representa uma aposta estratégica", diz Nicolas Bobrinsky, responsável por esse programa na ESA. Munido de ? 50 milhões, para sua fase de estudos de três anos, ele prevê especificamente a construção de um radar capaz de detectar um intruso de 10 cm a 2 mil km de distância. Como os detritos não são a única ameaça que ronda no espaço, o monitoramento também acusará os objetos próximos da Terra (asteroides e cometas) e as erupções solares.

Tradução: Lana Lim

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