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04/04/2009

Profissão: detetive nuclear

Le Monde
Hervé Morin Enviado especial a Karlsruhe (Alemanha) e Viena (Áustria)
Klaus Mayer, apresentado por seus colegas como o protótipo do "detetive atômico", nega ser um James Bond da energia nuclear. Mas, em campo, sua gravata, que exibe a tabela periódica dos elementos químicos, logo o denunciaria. "Nossas atividades se concentram nos laboratórios", ele relativiza. "O que não as impede de serem fascinantes: cada caso é diferente".

Protegido por fileiras de arame farpado, e patrulhas incessantes de 4 x 4, o Instituto dos Transuranianos (ITU) de Karlsruhe, onde Klaus Mayer dirige as atividades relacionadas ao tráfico ilícito de material nuclear (urânio, plutônio, tório), faz parte da rede dos centros de pesquisa da Comissão Europeia. O ITU contribui para a luta contra a proliferação nuclear, servindo de apoio científico na aplicação dos tratados sustentados pela Euratom (Luxemburgo) e pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) de Viena. O objetivo? Garantir que os materiais nucleares sejam reservados ao uso civil pelos Estados signatários - e não desviados para outros fins.

O tráfico ilícito de matéria radioativa resultou em cerca de 1.300 incidentes registrados pela AIEA entre 1993 e 2007. "O crescimento observado não está ligado a um aumento de desvios, mas sim a detecções e relatórios melhores", observa Mayer.
A maior parte diz respeito a materiais que não proliferam. No total, 16 apreensões envolviam urânio altamente enriquecido e plutônio, que podem entrar na composição de bombas atômicas. Às vezes elas representavam até várias centenas de gramas, especialmente nos anos 1990. "Na época, isso vinha da Europa Central. Agora, vem mais do Cáucaso", indica Mayer.

Os detetives nucleares só intervêm no final. A primeira etapa é a detecção, que se faz com pórticos detectores ou sensores instalados nas fronteiras, nas zonas aeroportuárias, nos portos ou ainda nas usinas de reciclagem de metais. As autoridades nacionais efetuam então uma primeira classificação: geralmente trata-se de fontes médicas ou industriais, perdidas ou roubadas. Quando os Estados não são eles mesmos dotados de serviços especializados, eles podem recorrer ao Instituto.

Foi o que aconteceu recentemente em Roterdã, onde foi detectado material radioativo em outubro e novembro de 2008. O instituto de Karlsruhe confirmou taxas de enriquecimento de urânio 235 de 4% e 16%. De onde ele veio? "As investigações estão em curso", responde Mayer. Ele fala mais sobre casos mais antigos. Como as 14 pastilhas de urânio 235 encontradas em um jardim, no norte da Alemanha. Eliminadas pelo controle de qualidade da Siemens, elas haviam sido roubadas no início dos anos 1990 por um empregado que achou que pudesse lucrar com elas. Ou ainda os miligramas de resíduo radioativo desviado em um laboratório de Karlsruhe em 2001. A radioatividade detectada em suas urinas chamou a atenção para seu ladrão. Em casa, foi o saco de seu aspirador, que continha vestígios do crime, que o traiu.

"Ferramenta de detecção"

E como se caracterizam esses vestígios? "O microscópio eletrônico apresenta a microestrutura das amostras", diz Thierry Wiss, responsável pelo instrumento no ITU. "O bombardeamento de elétrons produz raios X característicos dos elementos químico. A polícia também o utiliza para detectar vestígios de pó".

A análise isotópica é feita com a ajuda de um espectrômetro de massa, capaz de distinguir os sinais mais ínfimos de enriquecimento de uma poeira. Essas técnicas são aplicadas na análise de panos que os inspetores da AIEA e da Euratom passam nas instalações que eles visitam. "Esses panos podem contar toda a história de uma instalação", diz Nicole Erdmann, do Instituto.

"Nós coletamos essas amostras desde 1996: foram analisadas 5 mil, vindas de 70 países e 16 unidades de enriquecimento", diz Jill Cooley, do serviço de segurança da AIEA. Além das investigações em campo, das imagens de satélite, da vigilância de textos (principalmente na Internet), dos lacres e das 400 câmeras colocadas nas instalações sensíveis dos países signatários do tratado de não-proliferação e do protocolo adicional, essas amostras "constituem uma ferramenta de detecção e de dissuasão frente a um eventual desvio de material nuclear", ela diz.

Os "detetives atômicos" de fato se tornaram agentes de uma nova forma de dissuasão, pós-guerra fria. Em um artigo que foi capa da revista semanal americana "Newsweek" de 23 de março, Graham Allison, diretor do centro Belfer em Harvard, fala da constituição dos bancos de dados internacionais sobre os materiais que proliferam. Em caso de ataque nuclear, eles permitiriam detectar rapidamente sua origem. O medo de serem desmascarados e punidos poderia fazer com que os dirigentes norte-coreanos (ou outros) pensassem duas vezes antes de se associarem a terroristas", acredita Allison.

Para ter credibilidade, esse "nuclear forensic", como chamam os anglo-saxões, deve ser um grande consenso. Até agora, esses bancos de dados, muito sensíveis, não são compartilhados.
Em um relatório de fevereiro de 2008, a Associação Americana para o Progresso da Ciência (AAAS) reparou que essa disciplina "se beneficiaria de uma cooperação internacional tão necessária quanto possível".

"Observamos uma crescente pressão dos Estados Unidos para constituir esses bancos de dados", confirma Etienne Pochon, diretor da Segurança e da Não-Proliferação na Direção das Aplicações Militares do Comissariado de Energia Atômica. "Eles serão indispensáveis - junto com outros meios - no dia em que quisermos dispor de um sistema operacional de identificação de um agressor". Mas, por enquanto, as cooperações bilaterais continuam sendo raras.
Especialmente para os dados "pós-detonação", prerrogativa dos Estados possuidores da bomba.

O ITU, por sua vez, dispõe de uma coleção de cerca de cem amostras de "yellowcake", primeira etapa da transformação do minério de urânio. Não é o suficiente para chegar à raiz de uma bomba atômica. Mas um bom ponto de partida pode encontrar a origem de uma "bomba suja". "Vamos esperar nunca ter de fazer isso", suspira Klaus Mayer.

Tradução: Lana Lim

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