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07/04/2009

Índia aposta na zona rural para deter a desaceleração da economia

Le Monde
Julien Bouissou Em Nova Déli
Na Índia, o campo pode exercer o papel de amortecedor da crise. Esquecido durante os anos de forte crescimento da Índia, ele reaparece no debate público, entre planos de retomada econômica e ferramentas de política monetária, como antídoto à desaceleração econômica. Durante uma conferência organizada na quinta-feira (26) pela Confederação da Indústria Indiana, o presidente da Comissão de Planejamento Montek Singh Ahluwalia disse que "a economia rural não está enfraquecida", para justificar uma previsão de crescimento de cerca de 6,5% durante o ano fiscal de 2009-2010, que terminará em 31 de março.

A economia rural indiana depende muito da meteorologia e da política do governo, e ambas lhe são favoráveis. A monção foi generosa nos quatro últimos anos. Em 2008, foram colhidos 230 milhões de toneladas de cereais e os preços de sustentação do trigo e do arroz subiram 40%.

O governo anistiou € 11 bilhões em dívidas contraídas pelos camponeses mais pobres junto aos bancos públicos. Os grandes programas de apoio ao emprego aplicados pela coalizão no poder estão dando frutos. Durante o ano fiscal de 2008-2009, € 4,3 bilhões foram investidos no programa de garantia nacional do emprego rural, que oferece 100 dias de trabalho por ano aos lares mais pobres, principalmente na construção de infraestruturas. Até hoje, 41 milhões de empregos foram criados.

"O sucesso desse programa estimulou a economia nos vilarejos", explica Himanshu, professor da Universidade Jawaharlal-Nehru, de Nova Déli. A tal ponto que, no Punjab, o celeiro de trigo do país, chega a faltar mão-de-obra sazonal, e os salários diários devem ser aumentados. Em 2008, os funcionários da administração indiana que ocupam diversos empregos nos vilarejos, como os professores, também obtiveram um aumento de salário, atingindo 35% em alguns casos.

"A economia rural se portou ainda melhor ao longo dos últimos seis meses do que no ano anterior. Consequentemente, a população rural dispõe de uma renda disponível mais elevada, pronta a ser utilizada", avalia Ranganathan, diretor-geral da CavinKare, um fabricante indiano de produtos capilares.

Totalizando 56% do rendimento nacional e 64% dos gastos do país, os mercados rurais se tornaram centros de crescimento alternativos às zonas urbanas, afetados por uma baixa na demanda. Cerca de 8% dos domicílios rurais possuem um refrigerador, contra 63% nas grandes cidades; 71% das novas assinaturas de linha de telefone celular são feitas no campo. Nos três últimos anos, 10 milhões de televisores foram vendidos nos vilarejos.

Tinturas para búfalos
"É mais difícil vender seus produtos nos 600 mil vilarejos do que em 5 mil vilas", avisa, no entanto, Pradeep Kahyap, presidente do Mart, uma firma de consultoria indiana, "e o uso dos produtos ou serviços às vezes devem ser reinventados para desencadear o ato da compra". Assim, os produtos de tintura para cabelos servem para voltar a dar cor aos búfalos, para obter um preço melhor por eles no mercado de animais.

A construtora indiana Mahindra & Mahindra lançou a campanha "um trator em boa saúde, um condutor em boa saúde", que oferece ao camponês um exame médico gratuito, para cada reparo de sua máquina nas concessionárias da marca. Os vendedores também devem se valer da pedagogia, explicando, por exemplo, que o gás que serve para cozinhar os alimentos não vai parar dentro da comida. No entanto, essa alta no consumo não deve dar a ilusão de um crescimento estrutural. "A boa saúde da economia rural é somente conjuntural", observa Rajeev Shukhla, pesquisador do Conselho Nacional de Pesquisa sobre a Economia Aplicada. O setor agrícola ainda não obtém seu crescimento de um aumento nos ganhos de produtividade. Cerca de 30% dos lares de agricultores exploram terras cuja superfície não passa de 0,8 hectare. A falta de infraestrutura freia o desenvolvimento do campo. "Ele está isolado, portanto está protegido da crise. Mas ele também está excluído do crescimento mundial", acrescenta Himanshu.

Metade dos vilarejos não está ligada a nenhuma estrada, 45% dos lares rurais não têm acesso a eletricidade, e 75% não dispõem de água corrente. Por fim, 12% das rendas rurais provêm das cidades ou do exterior, de acordo com um estudo da empresa indiana India Infoline. Então a desaceleração do crescimento também tem um impacto sobre o campo. Nos últimos meses, milhares de trabalhadores indianos tiveram de voltar a Kerala, no sul do país, depois de terem perdido o emprego nos canteiros de construção dos países do Golfo.

Tradução: Lana Lim

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