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11/04/2009

A estratégia americana no Afeganistão esbarra na rivalidade entre a Índia e o Paquistão

Le Monde
Frédéric Bobin Em Nova Déli (Índia)
Depois da teoria, a prática. Durante sua primeira visita ao sul da Ásia desde o anúncio por Barack Obama de sua nova estratégia afegã, o enviado americano ao Afeganistão e Paquistão, Richard Holbrooke, que foi esta semana a Cabul, Islamabad e Nova Déli, se deu conta da dificuldade de sua missão. Holbrooke tentou promover uma abordagem regional da luta contra o terrorismo islâmico, insistindo sobre o risco comum que ele traz à região. "A Índia, o Paquistão e os Estados Unidos enfrentam uma ameaça, um desafio e um objetivo comuns", disse ele na quarta-feira (8) em Nova Déli.

Richard Holbrooke

  • EFE

    Richard Holbrooke é o enviado dos Estados Unidos ao Afeganistão e Paquistão

No entanto, ele se deparou com um ceticismo geral. Isso porque essa consciência de uma "ameaça" comum esbarra em interesses nacionais divergentes, até antagonistas, especificamente entre a Índia e o Paquistão. A recepção um tanto fria que teve Holbrooke, terça-feira em Islamabad, foi um exemplo disso. O enviado de Obama, acompanhado do almirante Mike Mullen, chefe do Estado-Maior americano, teve de enfrentar interlocutores paquistaneses resistentes. Durante uma coletiva de imprensa, o ministro das Relações Exteriores, Shah Mahmud Qureshi, o avisou: "Não podemos trabalhar juntos se não houver respeito e confiança mútuos".

É a primeira vez que a queixa recorrente sobre a ausência de "confiança mútua" é expressa de forma tão pública. Com o fim da era Bush, as relações entre os EUA e o Paquistão entraram na era da desconfiança. A chegada de Obama à Casa Branca só agravou essa tendência. A principal causa de disputa tem a ver com os diversos ataques feitos por aviões americanos não-tripulados nas zonas tribais paquistanesas contra esconderijos da Al-Qaeda. Desde 2008, 37 mísseis tiveram por alvo esses refúgios que, segundo os americanos, abastecem a insurreição talibã no Afeganistão contra as forças da Otan.

Vítimas civis
Esses ataques, que também fizeram vítimas civis, inflamaram o antiamericanismo no Paquistão, onde a opinião se revolta contra essas repetidas violações da "soberania nacional". Islamabad teve de endurecer o tom contra essas "interferências" em seu solo. "Nós falamos dos aviões, e francamente, existe um abismo entre nós", disse Qureshi após sua conversa com Holbrooke.

Essa irritação de Islamabad foi reforçada pelas acusações feitas por oficiais de Washington sobre as ligações que os serviços secretos do exército paquistanês continuariam a ter com os movimentos islâmicos radicais, em especial com certos grupos talibãs. Essas conexões históricas encontraram nos últimos anos uma nova justificativa, em nome da necessidade de deter o papel crescente exercido pela Índia no Afeganistão.

Os paquistaneses criticam os americanos por não verem a dimensão "indiana" da crise regional. Eles pedem a Washington que honrem a promessa do candidato Obama de pressionar a Índia a encontrar uma solução para a questão da Caxemira indiana, território disputado entre os dois Estados rivais nascidos da divisão de 1947. Ora, os indianos são veementemente contrários à "internacionalização" de uma disputa que, para eles, é de natureza exclusivamente bilateral. Ciente da sensibilidade indiana ao assunto, Holbrooke manteve-se muito prudente em Nova Déli. "Não vim aqui para perguntar nada à Índia", ele garantiu. É uma declaração que só pode reforçar as reservas do Paquistão a respeito de um jogo americano considerado complacente demais em relação à Índia.

Tradução: Lana Lim

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