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14/04/2009

Nas ruinas de L'Aquila, o luto dá lugar à polêmica

Le Monde
Phillipe Ridet Em Roma
As operações de resgate terminaram no domingo (12) em L'Aquila, uma semana após o terremoto que causou a morte de 294 pessoas. Agora é hora da investigação. Sob as ruínas da capital Abruzzo, agora destinada às escavadeiras, aparecem os primeiros escândalos. Em visita à região na quinta-feira (9), Giorgio Napolitano, presidente da República, convidou os italianos a fazerem um "exame de consciência". Pode ser doloroso.

O cimento mal armado
Inúmeros imóveis de construção recente desabaram como castelos de cartas durante os 30 segundos pelos quais a terra tremeu no dia 6 de abril. Em compensação, alguns velhos palácios da Renascença só apresentaram algumas fissuras.

De acordo com os primeiros elementos do inquérito aberto pelo procurador de L'Aquila, Alfredo Rossini, após o terremoto, vários desses prédios apresentaram "graves anomalias". Segundo o jornal "Corriere della Sera", as estruturas de dois imóveis que ruíram total ou parcialmente - a residência estudantil e o hospital, que teve de ser fechado - teriam sido construídos com um concreto armado que apresentava "uma quantidade anormalmente baixa de ferro".

As normas de construção preveem que as colunas de cimento armado contenham pelo menos 16 hastes de ferro. Elas não teriam sido respeitadas nos dois casos. Rossini prometeu um "inquérito rigoroso" e a "prisão" aos responsáveis. Mas seu trabalho será complicado: o tribunal e seu escritório foram totalmente destruídos, assim como o cartório. Ele mesmo dorme em seu carro e encontra seus colaboradores em uma praça...

Areia no concreto
Os policiais investigam um outro escândalo revelado pelo jornal "La Reppublica": em alguns casos foi utilizada areia do mar na fabricação do cimento. A areia do mar, que se deteriora mais facilmente, permite aos construtores garantir maiores margens de lucros. Outra anomalia constatada: as colunas de sustentação de algumas casas não teriam as dimensões exigidas pela lei. Essas suspeitas de irregularidades se somam às falhas que foram produzidas na consideração dos alertas e nos controles. Ocorreram vários tremores nos meses anteriores.

"Nós fomos informados sobre os abalos sísmicos há três meses", lamenta a presidente da província de L'Aquila, Stefania Pezzopane. "Mesmo que os pesquisadores digam que não se podem prever os tremores, sabemos que Abruzzo se encontra em uma zona de atividade sísmica. Mas os prédios não são construídos de forma a resistirem aos tremores de terra".

Uma lei que praticamente não é aplicada
Ainda que na Itália 20 milhões de pessoas vivam em zonas de risco sísmico, a legislação sobre as construções nesses territórios raramente é aplicada. Decretada em 1974 e atualizada em 1996, ela estava longe de ser respeitada em Abruzzo. No entanto, essa lei havia sido endurecida em 2005, depois de um terremoto em Molise, uma região fronteiriça com Abruzzo, que provocou a morte de 30 pessoas (27 crianças) no desabamento de uma escola. Mas, sob a pressão do lobby das construtoras, que alegam não estar tecnicamente prontas para respeitar essas novas normas, sua aplicação, já rejeitada pelo governo de centro-esquerda de Romano Prodi, foi tema de um outro relatório no outono de 2008 por Silvio Berlusconi. A legislação só deverá entrar em vigor em junho de 2010. Tarde demais para garantir a segurança dos edifícios que serão reconstruídos...

Tradução: Lana Lim

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