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16/04/2009

Guido Bertolaso, "doutor italiano", faz as vezes de anjo da guarda em L'Aquila

Le Monde
Philippe Ridet
Enviado especial a L'Aquila
Vê-lo na televisão, sempre vestido com sua blusa azul-marinho de gola tricolor, basta para que os italianos se preocupem ou se tranquilizem. Na segunda-feira (6), algumas horas após o terremoto de L'Aquila, que causou a morte de quase 300 pessoas, eles entenderam que a situação era grave. Guido Bertaloso, 59, chefe da Defesa Civil e célebre na Itália, não escondeu deles: "É a maior catástrofe do milênio".

Nesta terça-feira (14), Bertolaso inicia seu nono dia no local, instalado com seus colaboradores na escola da Guardia di Finanzia, um dos poucos edifícios públicos que permaneceram habitáveis em L'Aquila. Todos os uniformes se cruzam ali. Ele recebeu um ministro, um bispo, e ainda deve fazer um bate-e-volta a Roma para relatar a situação a Silvio Berlusconi, o único a quem responde.

A enorme máquina da Defesa Civil italiana - mais de 1 milhão de voluntários - entrou em ação. Por decreto, assinado por Silvio Berlusconi, Bertolaso se tornou um verdadeiro chefe do Exército. Em L'Aquila, ele tem autoridade sobre todos os corpos: polícia, bombeiros, engenharia civil, exército e outros, ou seja, exatamente 12.052 pessoas.

"Não se aprende essa profissão", ele diz. "Não há universidade para isso. É preciso ser um líder e ao mesmo tempo saber dividir". Médico especialista em doenças tropicais, ele descobriu o setor de emergências na fronteira do Camboja e da Tailândia, nos anos 1970. "Doutor italiano", capaz de curar, mas também de organizar, de montar um hospital de campanha onde não havia nada, ele muda de especialidade: "Descobri que sou melhor como organizador do que como médico".

Cabeça de líder, e dura também. Quando um cientista italiano se gaba de ter inventado um sistema capaz de prever os tremores de terra, ele o chama, na lata, de "imbecil" e "alarmista".

Bertolaso é agora parte do patrimônio. Um ícone da solidariedade, da ajuda mútua, o representante dessa "brava gente" que fez a reputação da Itália. "Sou tão sensível quanto qualquer um", ele confessa. "Me emociono com um pai que chora a morte de sua filha, ou com uma avó que não encontra sua dentadura nos escombros de seu apartamento". Metade médico, metade comandante-em-chefe, ele lamenta o sofrimento, mas não tolera quem o questiona. Sua fama lhe rendeu uma armadura.

O jornalista da rede italiana RAI, Michele Santoro, tentou romper essa carapaça de consenso nacional, dando a entender que o socorro podia ter sido mais bem organizado. Protestos de um lado. Constrangimento palpável de outro. A RAI abriu um inquérito interno sobre seu jornalista...

Não se toca em Guido Bertolaso. Ele conduziu as missões na África, as responsabilidades na ONU e na Unicef na Itália. Os governos de centro-esquerda, assim como os de centro-direita (com os quais ele se entende melhor), o cortejam. Nomeado chefe da Defesa Civil em 1991, destituído, renomeado, ele desembarca com seus fiéis, reorganiza, pede plenos poderes e os obtêm em 2001. Os ministros chiam, mas devem passar para sua responsabilidade setores inteiros.

Guido Bertolaso está por toda parte: no Grande Jubileu, no combate aos incêndios na Puglia, na Indonésia pelo tsunami, em Roma para fazer a segurança da cidade durante o funeral de João Paulo II. Um fracasso: nomeado comissário especial na crise do lixo na Campanha, pelo governo de Romano Prodi, ele bate de frente com as resistências locais e pede demissão. De volta ao governo, Berlusconi o reconfirma em seu posto. Sua principal qualidade, explica um amigo: "Ver mais longe. Enquanto ainda vasculhávamos os escombros, ele já pensava na maneira de fazer os serviços públicos voltarem a funcionar".

Em L'Aquila, os mortos são enterrados. Os 55 mil sem-teto foram realojados, em tempo recorde, nas mil tendas que cercam a cidade como um cinturão de lona azul, ou nos hotéis da costa adriática.

Bertolaso não ficará em L'Aquila. "É o limite e a beleza da Defesa Civil: ela chega, trabalha, e depois desaparece".

Tradução: Lana Lim

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