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16/04/2009

Novas culturas beneficiam investidores líbios em Mali

Le Monde
Laetitia Clavreul Enviada especial a Niono, Ségou e Tongorongo
Eles parecem preocupados. Nessa manhã, em Niono, no centro de Mali, pequenos produtores de arroz estão reunidos na sede de seu sindicato, o Sexagon. Na ponta da mesa, Lamine Fané diz: "A política do governo se voltou para os investidores estrangeiros. Mas e o que será de nós?" Ele continua: "Se instalarem grandes operadoras privadas, a rede de água poderá abastecer todo mundo?" Nos exemplos que ele tem em mente, os estrangeiros se candidatam para explorar milhares de hectares, enquanto os camponeses cultivam três, em média, nessa zona de irrigação do Office du Niger (ON).

Quando o estabelecimento público foi criado pelos colonos franceses nos anos 1930, o potencial da zona era estimado em 1 milhão de hectares. Hoje, somente 80 mil deles são cultivados. O governo confiou à agência a missão de explorar mais 120 mil hectares até 2010. Aqui, o que existe pode tornar o Mali autossuficiente em arroz, talvez até uma potência exportadora, um trunfo em época de crise alimentar. Mas por falta de meios, o Estado conta com o capital estrangeiro para cultivar as terras, e construir estradas e canais de irrigação.

Os camponeses fizeram as contas: entre os projetos de extensão, aqueles feitos pelos estrangeiros envolvem 360 mil hectares, contra 9 mil dos pequenos camponeses. Sua preocupação também é alimentada pela dimensão dos projetos e pelo medo das expulsões. Eles citam os ordenamentos em 14 mil hectares financiados pelo governo americano em cooperação com o Mali, em nome da Millenium Challenge Account. Uma parte das terras recém-irrigadas será distribuída aos autóctones. Mas e o resto?

A concessão de 100 mil hectares à empresa Malibya, ligada à família do dirigente líbio, o coronel Muammar Kadafi, causa estardalhaço. "Os hectares dos líbios estão no início dos canais de irrigação, eles serão servidos de água antes de nós", lamenta um camponês. "Ainda que eles digam que estão operando em cooperação, nós não entendemos bem quais são os interesses por trás de tudo isso", resume Mamadou Goita, da ONG malinesa Afrique Verte [África Verde].

Os produtores também desconfiam das intenções dos chineses de desenvolver a cana de açúcar, que consome muita água. Eles já cultivam 6 mil hectares e controlam a refinaria Sukala.

Não é a preocupação que reina no Office du Niger, e sim o otimismo. Todos esses projetos são considerados "precursores" por Seydou Traoré, o diretor-geral. O estilo colonial da sede em Ségou é imponente, como ele. "Todos os parceiros que quiserem devem nos ajudar", ele diz. Os ordenamentos não serão feitos da noite para o dia. Os líbios, aos quais foram concedidos contratos de arrendamento de 30 anos, com possibilidade de renovação, começam com 25 mil hectares. Seydou Traoré acrescenta à lista feita pelos produtores: um projeto de cultura de cana-de-açúcar de um grupo de capital americano e sul-africano, para 15 mil hectares, e 11 mil outros atribuídos à União Econômica e Monetária da África Ocidental (Uemoa), onde serão instalados cidadãos dos oito países membros.

"Suponho que todos aqueles que vêm buscar terras queiram exportar, mas creio que haverá um pouco de retorno para o Mali", justifica Traoré. Ele acrescenta justamente que é preciso garantir que os camponeses não se tornarão trabalhadores agrícolas. Ele também pede por escolas e hospitais.

O diretor sabe que a divisão da água será difícil. Dentes já rangem de preocupação. A vinte minutos de Niono, deixam verde a paisagem raras parcelas de arroz "fora de época", a eventual segunda colheita do ano. Pela primeira vez, a taxa a ser paga junto à agência para utilizar seus canais de irrigação é a mesma da colheita principal, contra os 10% do montante, cobrados anteriormente.

"É porque eles querem guardar a água para a cultura da cana-de-açúcar dos chineses e dos americanos", supõe Faliry Boly, do Sexagon. Seu sindicato imagina qual será a atitude futura do governo. No dia 10 de abril, foi anunciada uma reforma ministerial. O Office du Niger se tornará uma secretaria de Estado para o primeiro-ministro, com sede em Bamako, a capital. É preciso se preocupar?

Por enquanto, os camponeses esperam que levem em conta seu destino. Eles também gostariam de aproveitar a onda suscitada pela alta nos preços. Cada vez mais eles se reúnem em cooperativas para vender a preços melhores. Eles aplaudiram a "iniciativa do arroz", lançada pelo governo em 2008, que subsidiou os fertilizantes em 50%. Mas eles não chegaram a tempo.

Em compensação, rio cima, em Tongorongo, vilarejo situado fora da zona do Office, pôde-se aproveitar a iniciativa. Então renasce a esperança. Allassan Maiga, que acompanha a produção de 33 vilarejos, faz as contas: "Temos 3.500 hectares e só cultivamos 2.300. Passamos para 2.600 em 2008, e serão 3.050 em 2009".

Amadou Moussa Tanapo ainda recebeu herbicidas trazidos por uma fundação francesa, a Farm. Ele pôde cultivar cinco hectares, em vez de dois. "Nunca tinha arroz suficiente para alimentar minha família. Este ano, deve bastar", ele diz. Talvez possa até mesmo vender. Nesses vilarejos onde os camponeses sorriem, por enquanto não se ouve falar em investimentos estrangeiros.

Tradução: Lana Lim

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