UOL Notícias Internacional
 

17/04/2009

Cuba, a grande ausente da Cúpula das Américas

Le Monde
Jean-Pierre Langellier
Correspondente na América do Sul
Como conjurar pelo seu poder de persuasão o espectro onipresente do único ausente, no caso, Cuba? É esse o principal desafio que Barack Obama deverá assumir durante a 5ª Cúpula das Américas, que reunirá em Trinidad e Tobago, de 17 a 19 de abril, 34 países do continente, com exceção da famosa ausente, excluída em 1962 da Organização dos Estados Americanos (OEA). O atual presidente americano acabava de nascer quando, nesse mesmo ano, John F. Kennedy decretou um embargo comercial contra o regime castrista.

Seria pouco dizer que durante essa próxima cúpula, Cuba "brilhará" - no senso estrito da palavra - por sua ausência. Seu destino não está oficialmente na ordem do dia, mas todos estarão pensando nisso, inclusive Obama. A América Latina pensa, como Cuba, que "o bloqueio" - como se diz na ilha - é uma relíquia da guerra fria, que não tem mais razão de ser.

Por pragmatismo ou por princípio, ela pede pela retirada imediata e unilateral do embargo e pelo retorno de Cuba ao seio do continente, iniciado em novembro de 2008 na Bahia durante uma cúpula cujo herói foi o presidente Raúl Castro. A esquerda radical, levada pelo venezuelano Hugo Chávez, a tornou "questão de honra"; a esquerda moderada, conduzida pelo brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, a vê como "a grande prova" da nova administração democrata.

Quando estava fazendo campanha em 2004 para entrar no Senado, Barack Obama havia manifestado um desejo de "normalização" entre Washington e Havana. Uma vez candidato à presidência, ele abandonou essa posição rígida demais sobre uma questão sensível que diz muito sobre a política interna americana. Como já anunciou o vice-presidente Joe Bidon durante uma recente visita à região, a Casa Branca por enquanto não considera retirar o embargo, mas sim suavizá-lo, conforme a promessa eleitoral de Obama.

Washington fez um primeiro gesto em março, autorizando os cerca de 1,5 milhão de americanos de origem cubana a viajarem para a ilha uma vez por ano, e não somente uma vez a cada três anos, como havia decidido a administração Bush. 130 mil deles vão todos os anos para seu país de origem. Agora eles poderão permanecer lá por mais tempo, gastando três vezes mais dinheiro.

Para mostrar sua boa vontade, Obama anunciou, em 13 de abril, a liberação total dessas viagens, e a retirada das restrições impostas às transferências de dinheiro dos americanos de origem cubana para seus parentes residentes na ilha. Esses fundos chegam a US$ 800 milhões por ano. Projetos de lei depositados no Congresso, e sobre os quais o presidente não se pronunciou, vão mais longe, propondo permitir a todos os cidadãos americanos livre acesso à ilha, e criar um cargo de "emissário especial" para Cuba.

Além dessas medidas, apresentadas como "humanitárias", as posições oficiais americana e cubana não evoluíram mais. Diferentemente da União Europeia, que retirou em 2008 suas sanções tomadas em 2003 após pesadas condenações contra 75 oponentes cubanos pacíficos, os Estados Unidos não estão prontos para entrar em um acordo com Havana sem contrapartida. Eles continuam a condicionar a retirada do embargo a iniciativas castristas, refletindo uma vontade de "transição para democracia", especialmente a libertação dos 219 prisioneiros políticos detentos na ilha.

A normalização Washington-Havana será necessariamente gradual. O secretário de Estado encarregado da América Latina, Thomas Shannon, quer "que se concentrem na primeira etapa". Os irmãos Castro não parecem dispostos a ser os primeiros a estenderem o ramo de oliveira.

Fidel lembrou recentemente que a bola está no campo americano, que Cuba "não tem nenhuma razão para tomar a iniciativa"e que "as realidades objetivas" podem ser "mais poderosas que as intenções sinceras"de Obama. Ele ironizou sobre as "tristes lamentações" de Biden, pedindo pela democracia na ilha, e julgou "inadmissível" o projeto de declaração final da cúpula.

O pai da Revolução Cubana garante que seu regime não precisa de "confronto para existir", e que ele não teme o diálogo com os Estados Unidos. A retirada do embargo e a consequente abertura política apresentariam, no entanto, um desafio ideológico ao poder. Ele não poderia mais se apresentar como vítima "das agressões do império" para justificar seu autoritarismo e seus fracassos.

É para privar os castristas desse álibi que uma parte dos americanos de origem cubana e dissidentes no local desejam o fim rápido do embargo. A comunidade cubana nos Estados Unidos evoluiu muito nos últimos anos. A idade não acalmou os sentimentos anticastristas dos exilados "históricos", que permaneceram ardentemente favoráveis ao embargo. Mas seus filhos agora são hostis a ele, em sua maioria.

Na América Latina, como em outras partes do mundo, Obama conta com uma boa dose de simpatia. Mas para não desperdiçá-la durante seu primeiro encontro com os dirigentes da região, ele deverá encontrar um meio de amenizar sua inevitável "decepção cubana".

Tradução: Lana Lim

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