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17/04/2009

Diante da elevação do nível das águas, as Maldivas buscam terras

Le Monde

Frédéric Bobin
Enviado especial a Malé
Malé é como uma pesada plataforma urbana situada na superfície do oceano Índico. As ondas arrebentam em jorros de espuma na muralha de blocos de concreto que cerca essa ilha de menos de 2 quilômetros quadrados. Setenta mil pessoas se amontoam ali. Por enquanto, essa barreira artificial aguenta firme. Ela conseguiu proteger a capital dessa singular República das Maldivas, arquipélago de 26 atóis e 1.200 ilhas cujas barreiras de corais ocupam um lugar de destaque nos catálogos do turismo mundial. Mas por quanto tempo mais?

"Não sejamos ingênuos, vamos nos preparar para o pior", avisa Mohammed Aslam, o ministro do Meio Ambiente. O pior, no caso, é o futuro afundamento do arquipélago, em consequência da elevação do nível das águas, provocada pelo aquecimento climático. Essa angústia atormenta os dirigentes maldivos desde que alguns estudos, em especial os trabalhos do Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre a Mudança Climática (GIEC), começaram a soar o alarme.

"Para nós é uma questão de sobrevivência", explica Amjad Abdullah, diretor-geral do ministério. O novo presidente das Maldivas, Mohamed Anni Nasheed, eleito em outubro de 2008, anunciou no dia seguinte à sua posse a criação de um fundo soberano destinado a comprar terras nos Estados vizinhos. Esse anúncio tem dois objetivos: sensibilizar a comunidade internacional e, sobretudo, encontrar uma terra de destino para os refugiados climáticos que as Maldivas correm o risco de se tornar um dia. A ideia causou um certo ceticismo em relação ao imbróglio jurídico que constituiriam tais aquisições de terras em solo estrangeiro.

Há mais de duas décadas o arquipélago vive no ritmo de preocupantes fenômenos "excepcionais". Primeiro houve o maremoto em 1987, que inundou uma parte de Malé e causou um impacto profundo na população. Depois, o fenômeno climático El Niño, em 1998, que provocou um embranquecimento em massa dos corais: 90% dos que estavam situados a menos de 15 metros de profundidade morreram. Por fim, o tsunami de dezembro de 2004 atingiu gravemente o arquipélago, destruindo duas ilhas, impondo a evacuação de seis outras, e o deslocamento de quase 4 mil pessoas (dos 280 mil habitantes).
Nas ilhas Kiribati, "a alternativa é desaparecer"
Mesma causa, mesma reação: diante da elevação do nível das águas que as ameaçam, as ilhas Kiribati, um arquipélago do Pacífico, procuram comprar novas terras. "A alternativa é morrer, desaparecer", declarou o presidente desse Estado, Anote Tong.

Os kiribatianos enfrentam uma elevação das águas da ordem de 5 milímetros ao ano desde 1991, que leva principalmente a uma salinização da água doce. Em um primeiro momento, o governo havia optado por uma política de formação e emigração controlada. Mas a crise econômica o levou a considerar essa solução mais radical.


Angústia existencial

"Os acontecimentos extremos tendem a provocar cada vez mais estragos", constata Shiham Adam, diretor do Centro de Pesquisas Marinhas de Malé. A fragilidade do arquipélago vem de sua configuração: 80% de sua superfície terrestre está situada a menos de um metro acima do nível do mar. Se as previsões dos especialistas do GIEC se revelarem exatas, uma parte dos atóis maldivos não resistirá.

A ameaça aumenta por conta de uma outra particularidade das Maldivas: o tamanho diminuto das ilhotas, das quais 96% têm uma superfície menor que um quilômetro quadrado. Resultado: 47% do habitat se localiza a menos de 100 metros da costa, ou seja, próximo à "linha de frente". "Não temos para onde ir: em caso de crise, nosso único recurso é subir nos coqueiros", ironiza Ahmed Abdullah Saeed, redator-chefe do grupo de imprensa Haveeru.

Existem soluções a curto prazo: conquistar terra sobre o mar, por exemplo. A pouca profundidade das lagoas permite a extensão das ilhotas existentes, ou talvez até a criação de novas ilhas. A indústria turística, que atrai 600 mil visitantes por ano, não se priva disso. Mas os meios utilizados - construção de piers de concreto, extração de areia, buracos abertos com explosivos nos recifes de corais, etc. - abalam um ecossistema já frágil. Somados à elevação da temperatura das águas, eles aceleram a erosão das praias danificando os corais, essas "usinas" produtoras de areia.

"O problema do aquecimento climático não é tanto a elevação das águas, mas sim a morte dos corais", diz Thomas Leber, especialista de uma agência de estudos ambientais. Isso porque a acidificação dos oceanos provocada pelas emissões de gás causadores do efeito estufa é fatal para esses organismos, já fragilizados por certas práticas de pesca, como a captura em massa de garoupa, espécie que exerce um papel fundamental no equilíbrio do recife de corais. Shiham Adam, o diretor do Centro de Pesquisas Marinhas, lembra o óbvio: "Se não houver mais corais, não haverá mais ilhas". Compreende-se melhor a angústia existencial que atinge progressivamente o arquipélago.

Tradução: Lana Lim

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