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17/04/2009

"Os cartéis atingem 78% da economia do México", diz especialista em crime organizado

Le Monde
Joëlle Stolz Correspondente no México
Professor na Universidade de Columbia (Nova York) e no Instituto Tecnológico Autônomo do México, Edgardo Buscaglia, especialista renomado em crime organizado no Peace Operations Training Institute, nos Estados Unidos, analisa para o "Le Monde" a situação securitária no México.

Le Monde - Por que o México, onde Obama era esperado na quinta-feira (16), alarma os Estados Unidos?
Buscaglia -
Obama vai elogiar o presidente Felipe Calderón, as honras e os abraços vão continuar, mas as agências de segurança americanas filtram há meses informações sobre o grau de envolvimento dos políticos mexicanos, e isso vai subir cada vez mais. É o começo de um tsunami, o flagelo dos países que exportam a insegurança. Quando vemos aparecerem decapitações na Espanha e nos Estados Unidos (atribuídas aos cartéis mexicanos), os serviços de informação ocidentais começam a pressionar. Entre os 107 países onde avalio as atividades do crime organizado, o México ocupa o quinto lugar, atrás do Afeganistão, da Guiné Equatorial, da Nigéria e do Paquistão.

Le Monde - O México joga a responsabilidade de volta para os Estados Unidos, o maior mercado de drogas...
Buscaglia -
Não são somente as drogas. A Convenção de Palermo (que define os instrumentos da comunidade internacional contra o crime organizado) identifica 24 tipos de delitos, e os mexicanos têm participação em todos, exceto no tráfico de material nuclear. O cartel de Sinaloa tem ativos financeiros em 28 países, entre os quais a China e a Índia. Ele atinge 78% da economia do México - na Guatemala chega a 85% -, o que preocupa os investidores que vêm discretamente me consultar.

Em 2008, um estudo americano revelou que existe, em 63% das cidades mexicanas, uma infraestrutura criminal conhecida tanto pela população quanto pelas autoridades. No México, a prostituição infantil acontece sob o nariz dos policiais. E eu considero que 8% das cidades são subordinadas ao crime, no sentido em que ele lhes cobra impostos e ali detém o monopólio da violência.

Le Monde - De onde vem esse número?
Buscaglia -
Eu o deduzo do número de cidades onde o exército teve de destituir recentemente as autoridades locais, destruindo assim pactos estabelecidos, que garantiam uma tranquilidade aparente.

Le Monde - O governo mexicano enviou o exército às regiões mais atingidas e declara, desde o início de 2009, uma queda de 26% no número de homicídios ligados à violência dos cartéis. Não é animador?
Buscaglia -
O que mais nos preocupa é a infiltração no aparelho do Estado, mais do que a porcentagem de homicídios. As rendas de um capito (pequeno chefe) do cartel de Sinaloa, um dos sete grupos criminosos que tentam controlar o conjunto das atividades ilícitas, chegam a milhões de dólares - sendo que uma boa parte serve para corromper as autoridades. Os mexicanos não estão errados em ressaltar que os Estados Unidos sofrem de um aumento considerável da corrupção pelo crime: ela levou a 200 acusações em 2008. No entanto, as autoridades americanas são capazes de impedir que o Estado seja "capturado". O México corre um verdadeiro perigo, nesse sentido. Ele aplica 46% dos critérios da Convenção de Palermo, mas menos de 23% daqueles da Convenção de Mérida, o instrumento das Nações Unidas para lutar contra a corrupção.

Meu livro, "Paradoxo da sanção penal", demonstra que todos os países que empregam uma estratégia "à moda mexicana", baseada antes de tudo na perseguição física dos criminosos, viram aumentar o fenômeno da corrupção. Nenhum país conseguiu reduzir as operações do crime organizado sem também atacar seu patrimônio.

Le Monde - E o que pensar da lei sobre o confisco das propriedades de criminosos, que o governo de Calderón promove?
Buscaglia -
Ela não tem mais força, se a compararmos com sua equivalente colombiana. E, sobretudo, ela não é necessária. A França não tem uma lei dessas, mas é eficaz em identificar o patrimônio criminal. O problema é político: se realmente forem investigar os patrimônios, vão chegar nos políticos.

Le Monde - O México não tem maturidade para um pacto desses?
Buscaglia -
Não. Ainda não existe consenso entre os partidos políticos, diferentemente da Colômbia ou da Rússia que enfrentaram uma desintegração do Estado. Podem-se criticar os métodos violentos de Vladimir Putin, mas é preciso lembrar que a região de Baku, antes dele, era dominada pela máfia.

Le Monde - Uma descriminalização das drogas puxaria o tapete dos mafiosos?
Buscaglia -
Aqueles que propõem uma medida dessas adotam o lamentável papel de "idiotas úteis". Legalizar a possessão de certas drogas responde à uma preocupação de saúde pública, mas seria indispensável estabelecer uma infraestrutura sanitária e legal, que o México não tem. Além disso, uma regularização do mercado exige uma coordenação com os outros países. Apresentar a descriminalização como meio de diminuir a delinquência é uma ilusão: na melhor das hipóteses, os criminosos deslocarão suas atividades para outros territórios.

No México, o problema crescente é o da produção de anfetaminas, mais do que da maconha. Na Guatemala e no México, somente 50% a 63% das receitas dos grupos criminosos, seguindo as organizações, são geradas pela droga. Vamos legalizar também o tráfico de seres humanos, e voltar à escravidão?

Tradução: Lana Lim

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