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18/04/2009

Músico leva um piano a uma montanha do México para viver perto dos índios

Le Monde
Joelle Stolz Enviada especial a Chihuahua (México)
Às 7 horas da manhã, um mar de luz surge por cima das montanhas e vem roçar a superfície, negra e lisa, do objeto mais inesperado possível em plena Sierra Tarahumara, tão misterioso quanto um monólito caído do espaço: um piano de cauda, um velho Steinway de concerto. Estamos à beira de um penhasco, entre os desfiladeiros do rio Batopilas e os do Urique, no maior conjunto de cânions do planeta, que se estende por 75 mil km2 no Estado de Chihuahua, no México. Uma fortaleza aplainada pelo vento, pela água das cascatas, pelo silêncio das pedras.

Foi lá que Romayne Wheeler, 66, colocou seu piano em 1995. Esse pianista americano havia descoberto o local cerca de quinze anos antes. Ele ficou fascinado, assim como Antonin Artaud, que em 1936 falou sobre o lugar: "Não há mais dúvidas de que cheguei a um dos pontos nevrálgicos da Terra, onde a vida mostrou seus primeiros efeitos". Após algumas estadias, o visitante americano conheceu um velho índio raramuri, Luciano Gutierrez. Foi ele que levou o americano ao topo do penhasco. O turista americano e o velho índio começaram então uma dessas amizades que transformam o curso de uma existência.

Por muito tempo Romayne Wheeler disse que, quando se aposentasse, iria se instalar ali, com os raramuri. Ele viveu por um bom tempo nos Alpes austríacos, onde estudou música, em Salzburgo e Viena. Durante anos ele voltou todos os invernos para passar dois meses com seu amigo, acampando em uma cavidade sob a rocha nua, à beira de um precipício recoberto de pedras cortantes e cactos. Para fazer suas escalas, ele só tinha um teclado eletrônico recarregado com luz solar. Depois veio sua casa - o "ninho de águia", ele diz - e o modesto conforto que os painéis solares finalmente permitem, depois de tantas estadias espartanas: uma geladeira, algumas lâmpadas, um computador com acesso à internet.

E o Steinway, é claro. É possível ver pelo YouTube imagens do périplo desse instrumento, que por muito tempo encantou as noites da burguesia de Guadalajara antes de embarcar, amarrado em uma caminhonete, empurrado, puxado, carregado a mão, nas pistas sinuosas de Tarahumara, assim como o piano do filme de Jane Campion, ou o barco de Fitzcarraldo na selva amazônica. Mesmo com um bom veículo, chegar até o penhasco de Retosachi é uma aventura incerta.

Diante do Steinway, a paisagem é um anfiteatro. O Sol e as nuvens passam sobre ele, animando formas que mudam sem parar, desenhadas pela luz. Os picos despidos pela erosão parecem mandíbulas gigantes, como as de monstros pré-históricos derrubados por um cataclismo. Ao anoitecer, quando esse espetáculo fascinante está para terminar, Romayne Wheeler se senta ao piano e toca um concerto de Rachmaninov, ou a "Rhapsody in Blue" de Gershwin. Nessa noite, seu público é composto de dois antropólogos mexicanos, alguns voluntários europeus em visita, e seus vizinhos raramuri, cujas crianças fazem bolas dos chicletes dados com imprudência pelos estrangeiros.

Em seguida Juanito pega seu violino. Ele veste uma túnica roxa de punhos amarelos e um calção branco, vestido entre as coxas nuas, que caracteriza os homens raramuri. Juanito, conta Romayne, se sentiu mais à vontade em Roma, onde foi convidado a tocar, do que em Batopilas, o velho vilarejo minerador escondido no fundo do cânion, onde os chabochis (brancos e mestiços) tentam humilhá-lo: "Ei, pele preta, quando vai tirar as fraldas?" Ele toca uma espécie de giga escocesa, uma música repetitiva e circular, como os oitos que os pés dos dançarinos desenham incansavelmente durante as festas religiosas.

Os musicólogos acreditam que essas danças rituais, os pascoles, nasceram no Tirol austríaco, de onde emigraram para a Espanha na época de Carlos 5º, indo parar no México, onde os padres jesuítas os introduziram na Sierra Tarahumara. O mundo já era assim, muito antes que se falasse em globalização. Um dos filhos de Juanito é o primeiro pianista raramuri a aprender o repertório clássico ocidental no conservatório de Chihuahua. Ele se chama Romeyno, em homenagem ao americano.

Romayne Wheeler é certamente meio louco, de uma loucura doce e generosa. Aos 66 anos, sem aposentadoria ou previdência social, mas com os problemas de saúde que a idade traz, e a muitas horas de 4x4 da clínica mais próxima, ele dedica dois terços da renda dos concertos que ele continua a fazer, no México e nos EUA, às famílias raramuri, perto de quem ele vive. Ele financia sobretudo bolsas de estudo. Durante muito tempo, os três quartos de seus recursos foram para o hospital tarahumara de Creel. "Mas eu não conseguia mais", ele confessa. No filme "O Pianista de Sierra Madre", rodado em 2005, os cineastas franceses Judith Haüssling e Alain Tixier fizeram um retrato desse singular chabochi.

Após discutirem, os raramuri aceitaram que ele tocasse piano por toda a temporada. Pois sob o véu do catolicismo, sua religião continua impregnada de politeísmo, regida por curandeiros místicos, os owiruame, e por regras rígidas. O uso de certos instrumentos, como a flauta e sobretudo o tambor, cujo som obsessivo marca as festividades da semana santa, só é autorizado de fevereiro a abril. "Mas para eles, a música do piano corre como a água, então podemos ouvi-la sem restrições", explica Romayne Wheeler, cujo livro "Vingt ans avec les indiens Raramuris" [Vinte anos entre os índios raramuri] está disponível em francês pela Éditions Présence Image & Son.

Do alto do penhasco, o México e seus engarrafamentos parecem mais longe do que a lua. Mas eles estão a somente 1.500 km, a sudeste. Quando os espanhóis penetraram nessa parte do país, em 1620, para cavar minas de ouro e prata, os índios das planícies fugiram para as alturas. Eles mesmos se deram o nome de raramuri, os "pés leves", porque eles correm com uma conhecida resistência, capazes de exaurir os animais que eles perseguem na caça, e de irritar os maratonistas que tentam competir com eles, parando no meio do caminho para fumar um cigarro. Os brancos e os mestiços, os chabochis, são aqueles cujo rosto está "coberto de teia de aranha": alusão às barbas dos conquistadores embriagados pelo fabuloso metal. Faz quase quatro séculos que os 60 mil índios dessas montanhas, convencidos de seu papel singular de mediadores na criação, tiveram de se adaptar à presença do mundo branco. Após terríveis revoltas, eles aplicaram o que alguns jesuítas chamam de uma "estratégia de evitamento".

Para Luís Eduardo Gotes, antropólogo da Universidade Nacional Autônoma do México, que estuda a relação dessas populações com a modernidade, é incrível ver "até que ponto a cultura deles resistiu, diante de pressões tão fortes". No entanto, a modernidade em suas formas mais degradantes - refrigerantes, sopas instantâneas, embalagens de plástico - invade Tarahumara como o resto do mundo: "Em alguns anos", observa o antropólogo, "o volume de lixo aumentou cinco vezes, sendo que a palavra 'lixo' nem existe na língua deles: eles riem quando tentamos explicar que é um problema".

O governo do Estado de Chihuahua exibe com orgulho as estatísticas sobre os quilômetros de linhas elétricas ou de estradas asfaltadas, o número de hospitais ou de escolas equipadas. Seria aceitável, em 2009, que as mulheres raramuri deem à luz sozinhas no meio da natureza, porque o costume exige, e às vezes encontrar o recém-nascido gemendo no chão ao lado de sua mãe morta de hemorragia?

Pode-se admitir que as crianças continuem quase analfabetas, em escolas distantes demais onde os professores mestiços muitas vezes só garantem três dias de aulas por semana? Mas com a eletricidade vêm a televisão, seus jogos, os pobres sonhos de suas novelas: "Ela vai mudar o povo daqui para sempre", suspira o pianista. Como Javier Avila, o "Padre Pato", um jesuíta dedicado a defender os raramuri, o músico mede os progressos implacáveis da tecnologia, em um universo que colocava a espiritualidade acima de tudo.

Com as estradas, também chega uma terrível aguardente, que agrava o alcoolismo e a violência familiar. E no fundo dos desfiladeiros, agora se cultivam a maconha e a papoula do ópio, principais fontes de renda para muitas comunidades dispersas, às quais os traficantes oferecem 200 pesos por dia de trabalho: uma miséria na cidade, uma pequena fortuna nas montanhas. Tarahumara ressoa o estrondo das serras elétricas usadas pelos traficantes de madeira, que devastam sem pena as florestas, ou até mesmo rajadas de armas automáticas nos acertos de contas entre bandos rivais. Gananciosos, trapaceiros, incapazes de compartilhar: assim são os chabochis, com os quais o pianista se esforça para não se parecer.

Aqui, nada é realmente dele, nem mesmo o ninho de águia, construído perto do cemitério onde está enterrado seu amigo Luciano. Sobre o túmulo do velho índio, um cercado de pedras secas e cerâmica quebrada, a família deixou sua muleta. Será que sobre o do americano um dia deixarão um pedal de piano?

Tradução: Lana Lim

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