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19/04/2009

Rosemary, o último segredo dos Kennedy

Le Monde
Pierre Pratabuy
Chicago, 5 de outubro de 1975, por volta do meio-dia. O repórter da rede de televisão local CBS Peter Nolan está nervoso. Ele acaba de saber que Rosemary, a irmã de John Fitzgerald Kennedy, está desaparecida. Sua irmã mais moça, Eunice, deu o alerta. Ela perdeu Rosemary de vista na saída da missa, no bairro de negócios Loop. Um aviso de busca foi divulgado pelo rádio: 57 anos, cabelos pretos, calças vermelhas, casaco branco, andar um pouco hesitante.

Peter Nolan é o primeiro —depois de cinco horas de buscas frenéticas— a avistá-la na esquina da Monroe Street com a Michigan Avenue. "Ela estava olhando uma vitrine de loja, com a cabeça um pouco inclinada. Paramos o carro e me aproximei", ele conta hoje.

Peter vive até hoje em Illinois, onde ainda faz alguns trabalhos como "free-lance". Naquele 5 de outubro, ele se lembra, mal teve tempo de fazer uma pergunta para Rosemary: "Eu lhe perguntei se ela procurava Eunice. Ela não pronunciou uma palavra". No mesmo instante, uma patrulha policial localiza a desaparecida, a subtrai da curiosidade do repórter e a leva rapidamente para sua irmã. As duas não demoram muito na delegacia. Partem de carro, escoltadas por duas freiras.

No dia seguinte o caso está em todos os jornais. A América descobre "essa Kennedy que ninguém conhecia", para utilizar o título de uma reportagem do jornal "Chicago Tribune" publicada três meses depois. Em janeiro de 1976, essa investigação é a primeira - e a última - realizada no convento de Saint Coletta (Wisconsin), onde a irmã de JFK vivia há anos. "Os visitantes não podem vê-la e a família se recusa a falar sobre Rosemary", diz o artigo.

Pouco depois do surpreendente 5 de outubro, Peter Nolan recebe uma correspondência assinada pessoalmente por Edward Kennedy, já senador por Massachusetts. Ele me deu uma cópia. "Fiquei especialmente tocado pela sensibilidade que o senhor demonstrou em relação a minha irmã. É desnecessário dizer que estamos todos muito agradecidos ao senhor por ter tido tão boas intenções", lhe diz Ted. Dito de outro modo: circule, não há nada para ver.

Rosemary morreu em 7 de janeiro de 2005, aos 86 anos, no Hospital Memorial de Fort Atkinson, no Wisconsin. O hospital fica a cerca de 10 km do convento de Saint Coletta, em Jefferson, especializado na internação de deficientes mentais. Rosemary passou ali a maior parte de sua vida, depois de ter sofrido uma lobotomia em 1941, aos 23 anos. Segundo a versão oficial, foi a degradação súbita e inexplicável de uma deficiência inata que causou seu afastamento, e não a operação.

Da vida de Rosemary, reduzida a uma nota de rodapé nas centenas de obras dedicadas à família, restam poucos indícios, dispersos. Seu destino, no entanto, é um dos mais trágicos e mais sombrios do clã. A morte de Joe Jr. na guerra e a de Kathleen em um acidente de avião, os assassinatos de JFK e de Bobby foram precedidos por esse drama, que permaneceu tabu. Se eu não tivesse visto por acaso em 2003 um programa da televisão americana no qual Rosemary foi mencionada, talvez nunca tivesse ouvido falar nela.

Seu nome me veio à cabeça durante anos. Ele me fez mergulhar nas bibliotecas e arquivos, percorrer as ruas de Londres e de Washington, folhear os catálogos telefônicos do outro lado do Atlântico para enviar correspondências. No final de fevereiro de 2009, o representante dos Kennedy me explicou que minha última carta dirigida a Ted e Eunice havia chegado ao destino, mas que eles não responderiam por motivos de saúde. Os dois tinham sofrido ataques recentemente. Apesar de tudo, sua irmã mais velha teve uma história que é preciso reconstituir como um quebra-cabeça.

A primeira peça é um livro: as "Memórias" que Rose, a mãe morta em 1995 aos 104 anos, publicou em 1974 e dedicou a sua filha e a seus semelhantes, "mentalmente deficientes mas sãos de espírito". No entanto, os 23 anos anteriores à lobotomia são repassados em poucas das cerca de 500 páginas. Elas registram um "atraso" de Rosemary, com ajuda de casos que eram repetidos constantemente pelos Kennedy. A lição parece ter sido bem aprendida.

É esta: Rosemary nasce em 13 de setembro de 1918 em Boston, três anos depois de Joseph Patrick (Joe Jr.), o mais velho, e um ano depois de John Fitzgerald, JFK. O pai, Joe, é banqueiro e já fez nome nos negócios. Sua mulher cuida dos filhos e, segundo ela, logo percebe que alguma coisa está errada: sua filha demora para dar os primeiros passos, para segurar a colher, para pronunciar as primeiras palavras... Suas dificuldades não desaparecem ao crescer.

A escola de Brookline, na periferia de Boston onde vive a família, recomenda aos pais estabelecimentos especializados. Mas eles preferem matricular a filha em escolas particulares e fazer que, apesar de seus problemas, ela compartilhe a vida trepidante e dourada de seus irmãos e irmãs, pelo menos na aparência.

Em Nova York, para onde a família se muda em 1926, como em sua residência secundária de Hyannis Port, no litoral de Massachusetts, os Kennedy multiplicam os torneios esportivos, as festas e os passeios. Rosemary pratica vela e tênis, pingue-pongue e badminton, joga bridge, vai a festas, e convida amigos para sessões privadas de cinema, graças às bobinas que Joe traz de Hollywood. No início de 1938, ela vai com a família para Londres, onde Roosevelt nomeou seu pai embaixador. Ela tem 20 anos e prossegue seus estudos no convento das Irmãs da Assunção em Kensington Square, no oeste abastado da cidade. A irmã Claire Veronica, historiadora do lugar, me abriu a porta da instituição discreta, numa tarde de 2005. Ela começou a desfolhar a lista das internas. O documento indica que Rosemary obteve de um diploma de professora em março de 1939, pouco antes de ir para Roma com a família para uma audiência com o novo papa Pio 12.

Alguns dias depois, uma antiga pensionista do estabelecimento, Isabel Quigly, encontrada graças à irmã Claire Veronica, me ofereceu um chá em sua bela casa na periferia. Ela se lembra bem de Rosemary, apesar de seus 84 anos: "Ela tinha o ar realmente normal, bastante bonita, bem vestida, alta, com boa postura". Quando a guerra explode, em setembro de 1939, Joe faz a família voltar para os EUA, com exceção da mais velha, colocada ao abrigo ao norte de Londres. Em maio de 1940 o avanço alemão para a Bélgica e seu futuro de embaixador incerto - Churchill lhe agradece em novembro - levam Joe Kennedy a repatriar sua filha.

"No ano seguinte a sua volta da Inglaterra, sintomas preocupantes começaram a se desenvolver", continua Rose em suas "Memórias". Rosemary tem crises de raiva repentinas, sem motivo aparente, que a tornam histérica e violenta. Suas saídas noturnas e seu interesse pelos rapazes, que sua mãe beata esconde, fazem temer um escândalo.

"Joe e eu consultamos os melhores especialistas", explica Rose em suas "Memórias", "que nos aconselharam uma certa forma de neurocirurgia. A operação pôs fim às crises de convulsão e aos acessos de violência, mas também deixou Rosemary deficiente. Ela perdeu tudo o que havia ganho ao longo dos anos, por seus esforços e graças ao nosso amor. Ela não podia mais ser autônoma e agora precisaria viver sob a guarda de alguém". Essa é a história oficial.

A família Kennedy nunca reconheceu publicamente, mas essa "forma de neurocirurgia" que a irmã de JFK sofreu no outono de 1941 é uma lobotomia. Dois neurocirurgiões praticaram a operação: Walter Freeman e James Watts. Três semanas antes de sua morte, em 1994, Watts confessou ao jornalista americano Ronald Kessler: "Fui eu quem fez as incisões, enquanto o doutor Freeman falava com ela". Ela não estava adormecida, mas apenas sob o efeito de uma anestesia local; o médico fez um pequeno buraco em cada têmpora da jovem. Depois, com a ajuda de um escalpelo em forma de faca de manteiga que ele introduz no crânio, começa a seccionar os lobos prefrontais do cérebro, supostamente o berço das afecções da alma. Durante esse tempo, seguindo seu protocolo habitual, Freeman faz perguntas à paciente, pede-lhe para recitar o Pai Nosso ou o hino nacional. Enquanto suas respostas forem coerentes, Watts continua cortando. Finalmente, seu colega lhe diz para parar.

A enfermeira que assistia então os dois homens, traumatizada, teria se demitido depois da operação de Rosemary, que foi reduzida à idade mental de uma criança pequena.

Em uma época em que não se conheciam os ansiolíticos nem antidepressivos, essa técnica provocava esperanças. Os praticantes da lobotomia esperavam então tratar alguns problemas mentais como a psicose ou a esquizofrenia. No entanto, o recurso à lobotomia não deixa de causar polêmica. Em 6 de setembro de 1941, a Associação dos Médicos Americanos advertia: "Mesmo em nossa atual ignorância do papel dos lobulos frontais, há provas evidentes de desgastes causados por sua ablação em pessoas não psicóticas. É inconcebível que uma técnica que destrói efetivamente o funcionamento dessa parte do cérebro possa restabelecer um paciente ao seu estado normal".

De um dia para o outro, a operação teve o efeito de fazer Rosemary desaparecer dos álbuns de fotos da família. O que sabemos hoje é que ela não foi imediatamente para o Wisconsin, mas esteve primeiro na Craig House, uma clínica psiquiátrica de Beacon, ao norte de Nova York. Segundo o convento de Saint Coletta, foi em 1948 que Rosemary chegou, aos 29 anos. Foi instalada em um pequeno pavilhão de tijolos construído para ela perto da Alverno House, o edifício reservado às internações prolongadas. Foi nesse "chalé Kennedy" que ela viveu 57 anos, cercada de várias enfermeiras, dentre as quais as sobreviventes não quiseram nada contar, a não ser para repetir que "Rosemary sempre foi feliz".

Durante a guerra, o desaparecimento de Rosemary passa despercebido. Mas a rápida ascensão de JFK (em 1946 ele foi eleito para a Câmara de Deputados e em 1952 para o Senado) coloca a família sob os refletores e a obriga a dar explicações. Em junho de 1953 o "Saturday Evening Post" publica uma reportagem sobre o promissor JFK. Conta-se que todo o clã se mobilizou ao redor dele para a campanha eleitoral, com exceção de Ted, que estava no exército na Alemanha, e de Rosemary, "professora em Wisconsin".

Seis anos depois, enquanto se delineia a eleição presidencial, o filho pródigo tem direito a sua primeira biografia. Seu autor, James McGregor Burns, próximo da família, afirma sem pestanejar que Rosemary "cuida de crianças retardadas". A mentira é abandonada alguns meses depois, em benefício de uma nova versão. Em julho de 1960, Joe Kennedy confia à revista "Time" que sua filha mais velha foi vítima na infância de uma "meningite espinal". Ela viveria então em uma clínica em Wisconsin. Um artigo da "Look" dedicado pouco depois às mulheres Kennedy afirma a mesma coisa.

É preciso esperar a vitória de JFK e sua entrada na Casa Branca em 1961 para que se imponha a versão que prevalece ainda hoje. Em setembro de 1962, em uma longa confidência ao "Saturday Evening Post", Eunice Kennedy-Shriver explica que sua irmã nasceu retardada mental e por esse motivo vive há duas décadas no convento de Saint Coletta. Um ano depois, a mãe, Rose, confirma tudo ao "New York Times". Nenhuma das duas menciona a lobotomia. Será preciso esperar a publicação das "Memórias" de Rose em 1974.

Podemos explicar - e os Kennedy não deixaram de fazê-lo - esses 20 anos de histórias à luz do contexto médico e social. Logo após a Segunda Guerra Mundial, os deficientes e doentes mentais viviam na sombra, reclusos em famílias envergonhadas ou encerrados em asilos. As patologias são pouco conhecidas e os pais geralmente se consideram responsáveis. É somente a partir dos anos 1960 que se torna mais fácil falar desses problemas. Mas durante seus 23 anos de juventude Rosemary viveu entre os seus, sob o olhar da imprensa e sem que fosse necessário inventar histórias para dormir. Desde então a questão se coloca. Ela era realmente retardada? Ou sofria de outra coisa?

Para Gerald O'Brien, professor na Universidade Southern Illinois, a deficiência mental que se atribui a Rosemary pôde degenerar em uma forma de depressão agressiva. O que explicaria então os acessos de raiva. "Ela era apenas ligeiramente retardada. Na nossa época, teria podido trabalhar no McDonald's e viver feliz em um lar", estima por sua vez Laurence Leamer, biógrafo dos Kennedy.

Outros ainda afastam qualquer ideia de deficiência inata, explicando as dificuldades escolares de Rosemary pela dislexia revelada mais tarde por seu diário íntimo, encontrado por uma ex-secretária de Rose. Os diplomas que Rosemary obteve, as férias que ela passou na Suíça aos 19 anos, só com sua irmã Eunice, de 16, ou sua participação como monitora em um acampamento de meninas no verão de 1940, como a própria Rose conta em suas "Memórias", tudo isso não combina com o que querem nos fazer acreditar.

Além das incoerências, o silêncio dos Kennedy sobre a lobotomia é carregado de segredos. Seu pai teria decidido a operação sozinho, para tentar não se sabe o quê. Ele não teria dito nada a ninguém. Na verdade, o doutor Watts declara só ter tratado com ele. Joe teria depois isolado sua filha, proibindo-lhe qualquer visita, sob o pretexto de uma degradação irremediável de sua saúde. Essas confidências Rose fez no fim da vida à biógrafa Doris Kearns Goodwin.

Rosemary incomoda seu pai bem antes da lobotomia. Deficiente, inadaptada, louca ou simplesmente diferente, ela não entra no molde. Enquanto Rose, a mãe, se esforça para "fazer dela uma Kennedy", Joe perde a paciência. Em 15 de outubro de 1934, ele escreve: "Tive uma discussão muito dura com Rosemary. Eu lhe disse que era preciso reagir e tenho certeza de que é essa sua vontade". Paralelamente, ele encarrega um amigo médico de verificar em sua filha uma nova teoria de glândulas que poderia explicar seu suposto retardamento. No mesmo dia, Rosemary, internada em Rhode Island, escreve a seu pai: "Eu farei qualquer coisa para torná-lo feliz. Detesto decepcioná-lo desta maneira. Venha me ver o mais rápido possível. Sinto-me muito só".

A obsessão pelo sucesso que faz matricular Joe Jr. em Harvard quando ele tinha apenas um mês de vida, que incentiva a competição permanente entre irmãos e irmãs, faz Rosemary sofrer. Isso não escapa a seu pai. "Ela é bem mais feliz quando só vê as outras crianças de vez em quando. Ela não deve viver na casa, no seu interesse e no de todo mundo", escreve Joe para sua mulher em 1939. Como não podia deixar Rosemary na Inglaterra, ele tenta a última solução com a lobotomia. O resultado é dramático, mas ele se encontra finalmente a tranquilidade: "Afinal, a solução do problema de Rosemary foi essencial para permitir que todos os Kennedy levassem sua vida da melhor maneira possível", ele explica à irmã Anastasia em uma carta em 1958.

Mas a influência do patriarca chega ao fim. Pregado a uma cadeira de rodas e quase privado da palavra por um ataque no final de 1961, ele deixa o campo livre para as mulheres, que tiram Rosemary do isolamento. Ela volta, por exemplo, para passar o Natal na casa da família em Hyannis Port. Em 22 de novembro de 1963, quando JFK é assassinado em Dallas, a agência de notícias UPI entra em contato com o convento de Saint Coletta pensando em obter a reação de sua irmã. "Ela sabe que seu irmão morreu. Ela soube assistindo televisão", afirmam aos jornalistas.

No enterro de Rosemary, seus irmãos e irmãs saudaram "uma fonte de inspiração permanente e um apoio poderoso ao envolvimento da família a favor dos deficientes". Mas nem Eunice nem Ted aludiram em sua oração fúnebre ao episódio da lobotomia. Em 2006, Ted encarregou um respeitado historiador de Nova York, David Nasaw, de redigir uma nova biografia de Joe. A que, oficialmente, contará tudo...

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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