UOL Notícias Internacional
 

20/04/2009

Turquia: os fantasmas de uma "guerra suja"

Le Monde
Guillaume Perrier e Olivier Truc
Enviados especiais a Silopi (Turquia) e ao sul da Suécia
Recluso em uma aldeia, "em algum lugar no sul da Suécia", Abdülkadir Aygan vive sob proteção do serviço secreto sueco. Por um bom motivo: esse refugiado faz a Turquia tremer com cada uma de suas revelações. Ex-membro da rebelião curda do PKK [Partido dos Trabalhadores do Curdistão], ele foi "devolvido" pelo exército turco nos anos 1990. Então ele colaborou com o Jitem, uma célula clandestina da polícia militar encarregada da luta antiterrorista. Durante dez anos, ele participou dos crimes perpetrados no sudeste da Turquia, no auge da "guerra suja" conduzida pelo exército contra os rebeldes curdos e uma população acusada de apoiá-los. Abdütlkadir Aygan deixou a Turquia em 2003. Hoje, ele fala.

"Fui empregado como funcionário civil antiterrorista em setembro de 1991 com a matrícula J27299", ele conta, em sua residência sueca. Com muitos detalhes, ele passa em revista as sessões de tortura e as execuções sumárias de militantes suspeitos de apoiar a causa curda, da qual ele foi testemunha. Centenas de assassinatos e sequestros não elucidados teriam sido cometidos no sudeste da Turquia entre 1987 e 2001. "Há quase 1.500 casos conhecidos de desaparecidos", calcula um advogado de Diyarbakir envolvido na defesa dos direitos humanos, Sezgin Tanrikulu. "Cinco mil, se contarmos os assassinatos não explicados".

Na Turquia, as confissões de Abdülkadir Aygan reabriram a discussão sobre esses desaparecimentos e deram esperança às famílias das vítimas. O corpo de Murat Aslan, um jovem de 25 anos que sumiu em 1994, foi encontrado, dez anos depois, queimado e enterrado à beira de uma estrada. "Nós o sequestramos em um café depois de uma denúncia, e o levamos ao local do Jitem", recorda Aygan. "Um cabo especialista em tortura o pendurou no teto pelas mãos, com pesos nos pés. Ele batia nele. Ele ficou três ou quatro dias sem comida. E eu avaliava suas informações". Segundo Abdülkadir Aygan, por fim Murat Aslan foi enviado para Silopi, e depois à beira do Tigre. "Vendamos seus olhos e o algemamos. O suboficial Yüksel Ugur atirou, e Cindi Saluci o cobriu de gasolina e ateou fogo nele. Foi graças a seu depoimento que seu corpo pôde ser encontrado pela família e identificado, por um teste de DNA".

O arrependido também descreve os "poços da morte", como chamou a imprensa turca: os tanques da companhia petroleira estatal Botas, nos quais sete corpos teriam sido jogados em 1994 depois de serem dissolvidos em ácido ou queimados. Ele também explica que três sindicalistas, detidos no mesmo ano e entregues pelo procurador ao chefe do Jitem em Diyarbakir, o coronel Abdulkerim Kirca, foram executados por este último com uma bala na cabeça, perto de Silvan. "Levamos muito a sério o que ele diz", explica Nusirevan Elçi, o presidente da Ordem dos Advogados de Silopi, sobre a reabertura do dossiê. "Foram feitas verificações, e tudo que Aygan conta está correto".

O ex-membro do Jitem está longe de ter entregado todos seus segredos. Ele diz temer por sua vida, na Suécia, onde ele recebeu ameaças; a Turquia pede por sua extradição para julgá-lo pelo assassinato do escritor curdo Musa Anter, em 1992. "Estou pronto para ser julgado em qualquer lugar e a qualquer momento, mas não na Turquia", ele se revolta. "Esse pedido foi feito para me calar".

Desde 9 de março, o inquérito sobre os desaparecimentos ganhou uma nova dimensão. A pedido dos advogados, que se baseavam nas declarações de Aygan, a justiça finalmente ordenou buscas em torno de Silopi, última cidade antes da fronteira iraquiana, e na região de Diyarbakir. Os "poços da morte", situados próximos ao principal quartel de Silopi, e no local da empresa Botas, foram vasculhados. Bem como supostas fossas coletivas em diversas vilas, onde dezenas de fragmentos de ossos, uma luva verde, cordões atados, restos de roupas e um crânio humano foram descobertos.

O trauma, ainda vivo, dos crimes cometidos na região, voltam à tona graças a essas escavações. "A população sabia desses crimes há anos. Cada família tem uma história de algum desaparecido", explica Elçi. Do vendedor de kebabs da praça central ao chefe local do AKP [Partido da Justiça e do Desenvolvimento], o partido do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan, todos perderam alguém próximo. Só em Silopi, com 15 mil habitantes, pelo menos 300 pessoas estariam desaparecidas.

Ahmet sumiu em uma manhã de 1998, quando saía de casa. "Ele era fotógrafo, casado e pai de três filhos. Nunca mais foi visto", conta seu pai Enver, com lágrimas nos olhos. Depois de seu desaparecimento, o senhor se lembra de ter sido interrogado por um dirigente do Jitem. "Só penso em uma coisa há dez anos", ele diz. "Encontrar o corpo do meu filho". Vendo pela televisão, recentemente, as escavadeiras revirarem a terra, Enver foi procurar a Associação dos Direitos Humanos: "Pensei que, com esse caso Ergenekon que estourou, poderia haver novas informações".

As pessoas começaram a falar desde a abertura, em 2007, de um inquérito sobre a rede Ergenekon, um poderoso conglomerado militar-nacionalista incrustado no aparelho do Estado turco e suspeito de ter fomentado golpes de estado e assassinatos. Desde outubro de 2008, 86 pessoas - militares, acadêmicos, jornalistas, políticos e mafiosos - foram julgados diante de um tribunal especial, na periferia de Istambul, por um suposto complô contra o governo. A partir de julho, 56 outros suspeitos serão levados à justiça. Que poderão ser seguidos por dezenas de outros.

A existência da rede Ergenekon não é uma surpresa: os turcos falavam até aqui do "Estado latente" para designar essa rede ultranacionalista. Decapitada pelas ondas de detenções, a rede poderia desvendar o mistério de algumas das questões mais obscuras da história recente da Turquia, como o assassinato do jornalista de origem armênia Hrant Dink... ou das extorsões do Jitem, no sudeste. "Os fundadores da Ergenekon também eram membros do Jitem", observa Abdülkadir Aygan. "A Ergenekon também utilizou na época chefes da máfia para conduzir as missões, por exemplo, contra empresários que eles mandavam matar. Uma parte das vítimas no sudeste foi morta pelo Jitem, mas também por outros serviços de polícia, militar ou do exército, e até mesmo o MHP, o partido de extrema-direita nacionalista".

"Mais de 80 famílias de desaparecidos romperam o silêncio desde dezembro", calcula Nusiervan Elçi que, toda semana, vê chegarem novos dossiês. "A investigação sobre Ergenekon fez surgirem novos depoimentos e deve se concentrar no sudeste: ali encontram-se muitos agentes da história". Para surpresa dos habitantes, inúmeros ex-dirigentes militares em serviço na região no momento dos desaparecimentos, entre 1987 e 2001, foram detidos nas últimas semanas: o major Arif Dogan, apelidado "o Anjo da Morte", ou o ex-general Levent Ersöz, conhecido por sua crueldade.

No dia 23 de março, foi o coronel Cemal Temizöz que foi interrogado. Ex-chefe do Jitem em Cizre, ele foi apontado por suspeitos como mandante de vários sequestros. Seu nome ainda faz o advogado Elçi tremer: "As pessoas mudavam de caminho para não se encontrar diante dele". Ninguém ousava mais pegar a estrada que atravessa o pequeno vilarejo vizinho de Kustepe. Esvaziado de seus habitantes e vigiado por três "guardas de aldeias", os milicianos de reserva do exército, o lugar também teria abrigado uma fossa coletiva. Os investigadores descobriram ali um grande número de ossadas. "Ossos de cavalos, nada mais", se irrita um dos guardas de aldeia com uniforme de combate, armado com uma kalashnikov, fazendo sinal para circularem. "Na época, o medo nos impedia de falar. Podiam nos matar", explica Salih Teybogan, um camponês de Silopi.

Seu irmão, que trabalhava no posto-fronteiriço, foi sequestrado quando voltava para casa, e seu carro foi encontrado queimado, "a 200 metros de Botas". Alguns meses depois, três corpos foram retirados de um poço, debaixo de um antigo restaurante, hoje abandonado. "Vamos fazer testes de DNA", diz Salih Teybogan. "Agora as coisas mudaram. Quando ouvi que eles iam abrir as covas, vim reclamar meus direitos".

Pode parecer que o caso dos "poços da morte" seja o fim da impunidade para esses crimes perpetrados até muito recentemente. Em Istambul e em Diyarbakir, as Mães do Sábado - o equivalente turco das Mães da Praça de Maio em Buenos Aires - retomaram suas manifestações semanais para reclamar os corpos de seus filhos desaparecidos. "Agora precisamos de uma verdadeira Comissão da Verdade e Reconciliação", acredita o advogado Sezgin Tanrikulu. "O problema é que os veteranos do Jitem continuam lá, no centro do exército".

O coronel Abdulkerim Kirca, apontado por Abdülkadir Aygan como o assassino de pelo menos doze curdos nos anos 1990, foi encontrado com um tiro na cabeça em janeiro, antes de poder ser interrogado. Oficialmente, um suicídio. Toda a elite do Estado-maior assistiu ao seu funeral.

Tradução: Lana Lim

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