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21/04/2009

Após investir no Cazaquistão, a China está de olho nas terras russas inexploradas

Le Monde
Alexandre Billette Correspondente em Moscou
O caso havia levantado uma polêmica em 2003: o anúncio feito pelo jornal "China Daily", a respeito do aluguel de terras aráveis pela China no vizinho Cazaquistão, havia primeiro obrigado as autoridades cazaques a desmentirem a informação. No entanto, tal projeto foi lançado abertamente: mais de 7 mil hectares de terras foram cedidos a uma empresa mista sino-cazaque, e mais de 3 mil camponeses chineses se dirigiram para a região de Alakol, na fronteira chinesa, para cultivar campos de soja e de trigo.

Mas diante do mal-estar suscitado por esse aluguel - por dez anos - de uma parcela do território nacional, o governo cazaque continuou preferindo demonstrar discrição sobre esse assunto. O país só reconhece cinco lugares utilizados por potências estrangeiras em seu solo: trata-se de zonas militares "emprestadas" à Rússia desde a queda da União Soviética, a exemplo da base espacial de Baikonur.

Então, oficialmente, as terras cultiváveis alugadas à China não existem. É porque as autoridades cazaques temem a reação da população diante da "concorrência desleal", representada pela chegada em massa de camponeses chineses, cujo equipamento agrícola é superior ao velho material soviético ainda utilizado na maior parte das fazendas cazaques.

Para a China, que sofre de escassez de terras cultiváveis, o atrativo dessas regiões da Ásia central é evidente. Na região chinesa de Ili, situada no outro lado da fronteira cazaque, 1,7 milhão de camponeses disputam cerca de 267 mil hectares de terras.

Segundo as estimativas do ministério chinês da agricultura, o país produzirá, em 2015, cerca de 20 milhões de toneladas de soja, ou seja, somente 40% de suas necessidades anuais. Portanto, Pequim não se interessa somente pelas planícies da Ásia central, mas também pelas terras virgens do grande vizinho russo.

Eldorado agrícola
No início dos anos 2000, era basicamente o setor da silvicultura que atraía os agricultores chineses. Mas um endurecimento da legislação russa fez com que fossem anulados, então, os projetos desenvolvidos por empresas mistas russo-chinesas criadas para a ocasião.

Agora a soja é a atividade mais promissora, especialmente no Extremo Oriente russo, nas províncias de Khabarovsk e na região autônoma de Birobidjan, situadas a 6 mil km de Moscou, mas a somente 2 mil km de Pequim. Para os onze primeiros meses de 2008, mais de 420 toneladas de soja foram exportadas dessa forma para a China.

Para ela, a Rússia parece um eldorado agrícola: segundo as estimativas de especialistas russos, mais de 20 milhões de hectares de terras aráveis lá não são cultivados, e os preços são inferiores aos praticados na China. As terras oferecidas para o aluguel são de boa qualidade, com um rendimento estimado em 3 mil kg de soja por ano e por hectare, ou seja, duas vezes mais do que nas fazendas chinesas.

Com tal quantidade de terras cultiváveis e as imensas necessidades da China, a corrida pelas terras russas poderá aumentar. Por enquanto, as autoridades russas veem com bons olhos o cultivo dessas terras anteriormente vagas, que lhes permitirá impor uma taxa sobre a exportação dos produtos agrícolas.

Mas a chegada em massa de camponeses chineses também poderá criar tensões com a população local, uma vez que a severa crise econômica que o país atravessa pode alimentar reações xenófobas.

Segundo o último recenseamento russo, cerca de 35 mil chineses vivem de forma permanente no país. Mas, como o próprio ministro do Interior admite, na verdade entre 400 mil e 700 mil chineses estariam instalados em território russo.

Tradução: Lana Lim

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