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22/04/2009

Eleições na Índia: um candidato vindo de Bollywood

Le Monde
Julien Bouissou Enviado especial a Hyderabad (Andhra Pradesh)
Arrebatados por uma tempestade de poeira, os camponeses se agarram nas grades que cercam a pista de pouso. A bordo de seu helicóptero, Chiranjeevi, lenda viva do cinema, desce do céu usando óculos escuros e uma camisa branca impecável, no meio de campos áridos. A multidão grita, Chiranjeevi levanta os braços em sinal de vitória, e lhe colocam uma coroa de flores em volta do pescoço. Então ele entra em um 4 x 4, escoltado por guarda-costas, em direção ao estádio municipal de Silliguri, para um inflamado comício político. Na reta final antes das eleições legislativas, o mesmo ritual se repete seis vezes por dia.

Fãs são peças-chave dos partidos

  • Mahesh Kumar A./AP

    Os primeiros fã-clubes criados pelas produtoras nos anos 1950 para garantir a promoção de seus filmes, a um custo mínimo, se tornaram os pilares dos partidos políticos do sul da Índia ao longo dos anos. Chiranjeevi (na foto, em cima de carro durante campanha eleitoral) possui 3 mil deles, espalhados por Andhra Pradesh.

    A afiliação dos fãs, em geral com idade entre 16 e 30 anos, a uma organização, lhes dá uma visibilidade e reconhecimento social. Quando eles colam os cartazes do último filme de seus heróis, eles assinam o nome de sua organização. Quando os distribuidores ousam retirar o filme da programação, eles não hesitam em descontar no proprietário da sala de cinema, às vezes de forma violenta.

    Cada um possui um cartão de visita e até mesmo papel timbrado, com o nome de sua organização. Os fãs cortam o dedo para colocar um pouco de seu sangue na testa de seu ídolo, como uma "tilaka", se dispõem a receber golpes de cassetete dos policiais e brigam com qualquer um que ouse criticar seu ídolo.

    Para canalizar essa energia, e sobretudo lhe dar um conteúdo, Chiranjeevi criou, nos anos 1980, a revista "Chiranjeevi Megastar", que não trata somente do ator. Os leitores são convidados a falar sobre suas ações de caridade.

    Para ser digno de pertencer ao círculo de admiradores, ele ainda precisa prová-la, investindo em ações de interesse geral.

    Cada fã-clube apoia um partido político. Seus dirigentes muitas vezes são ex-líderes de organizações estudantis. "As ligações entre os fã-clubes e os partidos políticos são mais uma prova de sua busca por um papel crescente na sociedade", escreve Srinivas em um artigo intitulado "Desconfiança e devoção nas atividades dos fãs", publicado em janeiro de 1996 na revista "Das artes e das ideias".

    Em sua investigação, o autor também constatou que a afiliação política de um clube permitia a seus membros se protegerem dos proprietários de cinemas ou da polícia.

    Antes que Chiranjeevi se declarasse candidato, seus partidários apoiavam o Partido do Congresso. Agora seus fãs se tornaram seus militantes. Eles são de uma fidelidade e de uma devoção à toda prova. É o preço da idolatria.



Com seu bigode, seu porte de guerreiro e seus lendários passos de dança, Chiranjeevi conquistou milhões de fãs em Andhra Pradesh, um Estado de 80 milhões de habitantes no sul da Índia. Dessa vez, ele veio buscar seus votos depois de ter criado, há oito meses, o Partido do Reino do Povo (PRP). "Os eleitores têm muita confiança em mim. Até hoje, Chiranjeevi lhes dava duas horas de distração em seus filmes. Agora, ele lhes dará verdadeira felicidade pelo dia inteiro", explica o ator, falando de si na terceira pessoa do singular.

Diante dos retratos de Madre Teresa, do Dr. Ambedkar, herói da casta dos intocáveis, e de Mahatma Gandhi, Chiranjeevi enumera as promessas de seu partido, com o punho em riste, diante de uma multidão sob um sol escaldante: um milhão de empregos em mil dias, refeições gratuitas à base de ovos para cada criança escolarizada e capas de chuva para os puxadores de riquixá. Seus partidários o aplaudem, e alguns deles jogam no palco papéis contendo queixas sobre acertos de disputas de propriedades ou casos de endividamentos.

Alguns minutos mais tarde, as folhas amassadas são pisadas pela equipe de campanha que acompanha seu líder até a saída. Chiranjeevi está com pressa. Ele deve correr para o quinto comício de seu dia. "Os preços dos alimentos não param de subir, e os sucessivos governos não fazem nada. Chiru já reina em nossos corações, agora ele precisa reinar sobre nossas vidas pra melhorar nosso dia a dia", se empolga Ram, um agricultor de rosto todo enrugado. Nas ruas, os militantes do PRP se apressam para distribuir panfletos representando seu herói, com as mãos erguidas, diante de um sol vermelho. Em um país onde quase 40% da população é analfabeta, os símbolos têm grande importância. O carro sobre fundo rosa do partido regional do TDP (Telugu Desam Party) e a locomotiva sobre fundo vermelho e verde do PRP travam uma batalha acirrada. A flor de lótus do BJP e a mão protetora do Partido do Congresso vão diminuindo.

Este ano, os partidos nacionais não fizeram nenhuma aliança com os partidos regionais de Andhra Pradesh, correndo o risco de perder votos e o apoio do Parlamento ao formar uma coalizão. "Cada vez que um partido nacional faz uma aliança com um partido regional, ele acaba enfraquecido. Agora há uma contradição entre a exigência do poder e a exigência de estender sua base", explica Pratap Bhanu Mehta, diretor do Centro de Pesquisa Política, com sede em Nova Déli.

Então o Partido do Congresso resolveu agir sozinho. Apesar de comprar os direitos da canção principal do filme "Quem Quer Ser um Milionário?", cuja versão intitulada "Vitória!" ("Jai Ho") toca sem parar em seus comícios, o partido da dinastia Nehru-Gandhi se encontra em uma posição delicada, uma vez que os temas nacionais de campanha estão relegados a segundo plano. Segundo pesquisa publicada no dia 14 de janeiro pelo diário "Hindustan Times", a construção de estradas e escolas interessa bem mais aos eleitores do que a desaceleração do crescimento ou a ameaça do terrorismo.

O Partido do Reino do Povo deve, sobretudo, enfrentar uma coalizão de partidos regionais liderada pelo Telugu Desam Paarty (TDP), fundado em 1982 por um outro ator famoso, Nandamuri Taraka Rama Rao. Ainda que este último esteja morto, o presidente do Partido do Reino do Povo ainda está 150 filmes atrás dele. "Chiranjeevi não é nada. Existem muitos atores. Ninguém se compara a Rama Rao", zombou Chandrababy Naidu, o presidente do TDP. Em resposta à promessa de capas de chuva gratuitas feita pelo seu concorrente, o TDP prometeu televisores em cores para os pobres. "Mas em um Estado que sofre escassez de eletricidade, de que serve a distribuição de televisores, se não se pode ligá-los?", observa Ramachandraiah Chirugupati, do Centro de Economia e de Ciências Sociais, sediado em Hyderabad.

O astro do cinema instalou seu quartel-general em Hyderabad, a capital de Andhra Pradesh, em sua luxuosa casa transformada em fortaleza, onde entram as Mercedes dos diretores de redes de televisão. Um amigo de Los Angeles organiza sua campanha. Um roteirista escreve seus discursos. E o ex-diretor de vendas de seus filmes no exterior cuida das relações com a imprensa. Chiranjeevi também comprou ações da Maa TV, uma rede de televisão regional. Cada partido, na Índia, deve controlar pelo menos uma mídia.

A mensagem do presidente do PRP é clara: aplicar a justiça social. "São milhões vivendo em condições miseráveis; é para eles que luto, é para eles que quero me eleger", explica o fundador do Partido do Reino do Povo, sentado sob os coqueiros diante de sua piscina com vista para Hyderabad. O fato de que Chiranjeevi pertence à casta intermediária dos Kapu é um trunfo.

Pouco representada nos partidos, a casta, que corresponde a 15% da população do Estado, poderá aproveitar a candidatura de um dos seus para se afirmar no cenário regional. "Chiranjeevi se esqueceu de onde vem, e não fez nada por seu vilarejo de origem quando estava no auge de sua glória", protesta um membro do partido rival.

O ator responde que ele criou um banco de sangue para socorrer os mais pobres. Somente dois anos depois de sua volta à política. Para aqueles que desconfiam de seu engajamento social, seu DVD de campanha, composto de trechos de filmes, o mostra abraçando crianças deficientes, chorando diante de uma multidão que vem para aclamá-lo, ou ainda roubando arroz, vestido de Zorro, para redistribuí-lo aos mais pobres. Raj Kapur, seu consultor de imprensa, jura: "Não é só cinema".

Tradução: Lana Lim

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