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22/04/2009

Mulheres de rua são párias da sociedade argelina

Le Monde
Marie Nelle Enviada especial a Argel
Desde seus 18 anos, Linda vive nas ruas de Argel. Essa jovem vinda de Ouargla, no sul do país, hoje tem 28. "Vivo uma guerra", ela suspira. Seu rosto suave e redondo envolto em um hijab rosa contrasta com essa personalidade forjada por dez anos de vida sem teto. Ao sair do orfanato argelino para o qual sua madrasta adotiva a enviou quando tinha 11 anos, ela fugiu para evitar um casamento forçado. Há sete anos teve um filho com um homem de quem ela não quer mais falar, uma "grande besteira" da qual, no entanto, ela não se arrepende, pois foi a única coisa que ela escolheu. Seu filho Zacaria viveu três anos com ela, depois ela o entregou à uma família adotiva. A vida na rua era dura demais para uma criança.

Não é raro cruzar, nas calçadas de Argel, com mulheres, às vezes com seus filhos pequenos, escondida em seus véus e cobertas. Como Linda, elas fugiram depois de um casamento forçado, um divórcio, um incesto, uma gravidez ou uma relação sexual fora do casamento.

Foi nos anos 1980 que surgiu o fenômeno. Em 1984, a adoção do Código da Família, inspirado na sharia, estabeleceu uma desigualdade de posição entre o homem e a mulher. A mulher não pode se casar sem a autorização de seu tutor; no caso de uma herança, ela só tem direito à metade da parte de um homem; em caso de divórcio, ela fica com os filhos enquanto o marido permanece com a casa; e a poligamia e o divórcio são privilégios do homem. Tantas discriminações, apesar do abrandamento do código em 2005, empurraram as mulheres argelinas para as ruas.

"A criação da 'SOS Femmes en détresse'[SOS Mulheres em Perigo] em 1992 atendeu a uma necessidade urgente", lembra Myriam Belala, presidente dessa associação, "e depois constatamos que as mulheres não eram vítimas somente do Código da Família, mas sim da violência familiar em geral. Ser proibida de continuar seus estudos ou trabalhar, não poder sair, ser uma escrava doméstica... Cada vez mais mulheres recusam essas imposições". O chalé azul e branco da associação possui sete apartamentos nas partes altas da capital. É um dos únicos abrigos da Argélia destinados às mulheres vítimas de violência.

Myriam Belala conta a história de Amina que, após seu divórcio, não pôde voltar para a casa da família onde estavam cunhadas e sobrinhos; e a de Meriem, rejeitada por sua família pois ela achou injusto não ter sua parte da herança. Recém-trazidas pela polícia que as recuperou das ruas, as duas foram alojadas em locais da associação; uma recebeu uma proposta para formação em costura, e a outra, um emprego como empregada doméstica.

Mas muitas vezes as mulheres que deixaram uma vida cheia de proibições encontram uma forma de liberdade vivendo nas ruas. Linda revira os olhos quando lhe falam de associações e albergues. Ela não aguentaria que lhe impusessem um ritmo de vida. Durante o dia, ela sempre se senta em um banco, na praça Audin, onde desenha. Com os poucos dinares que ganha, ela compra um café, uma pizza, um tempo no cibercafé para se aquecer e ver filmes indianos. Na Didouche Mourad, principal avenida da capital, quase todo mundo a conhece.

"As pessoas estão acostumadas. Essas mulheres fazem parte da paisagem", constata Myriam Belala, da "SOS Femmes en détresse". "Antes elas tinham vergonha, hoje o fatalismo prevalece". Nesta noite, assim como nas outras, Linda vai buscar suas cobertas no café da rua Charras, onde deixa seus pertences. Ela dorme na entrada de um prédio em frente, no patamar de uma senhora que todas as noites lhe dá uma parte da refeição familiar. Amanhã talvez ela veja seu filho. Da última vez, ele disse que queria ser policial para defendê-la. Ela o dissuadiu da ideia. Linda não gosta de policiais.

"Nem irmã, nem esposa, nem filha, elas saíram do campo social e de qualquer forma de proteção", analisa a socióloga Fatma Oussedik. Para a pesquisadora, a solidariedade que predominou durante muito tempo na sociedade argelina está diminuindo. Muitas vezes as famílias não têm mais os meios de reintegrar essas mulheres. "Elas estão à frente de um sofrimento compartilhado", ela diz, "da mesma forma que os jovens partem para o mar ou aderem à resistência, por não poderem cumprir a função econômica que a sociedade espera deles". A socióloga ressalta, "Pior, hoje em dia são famílias inteiras que vemos nas ruas de Argel, inclusive chefes de família. Isso diz muito sobre o estado da família argelina e da sociedade em geral: uma sociedade em crise gera famílias em crise".

Tradução: Lana Lim

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