UOL Notícias Internacional
 

23/04/2009

Como a Índia estende suas cidades para o campo

Le Monde
Julien Bouissou
Correspondente em Nova Déli
Atma Ram Sethi sonhava com uma aposentadoria tranquila, longe do caos das grandes metrópoles indianas congestionadas. Esse ex-bibliotecário optou então pelo complexo da Pradaria Verde, a 50 km ao sul de Nova Déli, pelo seu silêncio, pelo ar puro... e seu muro recoberto de arame farpado.

De seu apartamento, no térreo do condomínio Savana, espremido entre o Amazonas e o Riviera, os camponeses de Ghori Bachera, que vivem do outro lado do muro, são invisíveis.

"Raramente me aventuro lá fora", admite o aposentado, "é preciso se acostumar com a maneira de falar um pouco rude dos camponeses, e sobretudo com sua maneira de pensar, de viver, que é o oposto da nossa".

Em torno do complexo residencial, verdadeiro enclave urbano no meio do campo, os camponeses, cuja maioria pertence à casta dos Gujars, causam medo. "Eles são conhecidos por serem bandidos. Não há o que fazer, isso corre em suas veias", garante Atma Ram Sethi.

Com sua mulher e filho, analista de sistemas, eles só saem do complexo de carro. As únicas vias asfaltadas levam aos centros comerciais dos arredores ou à estrada que liga à Nova Déli.

Segundo as autoridades de desenvolvimento de Déli, a megalópole que compreende a capital e seu distante subúrbio, conhecido pelo nome de "National Capital Region", deverá ter mais de 64 milhões de habitantes em 2021. No mesmo ano, só a capital indiana deverá ter em torno de 23 milhões de habitantes, contra 13,8 milhões no último recenseamento feito em 2001.

A Índia se urbaniza com grande rapidez. Segundo o ministério indiano do Desenvolvimento Rural, o crescimento demográfico nas cidades é duas vezes maior do que nas zonas rurais. Déli estende suas ramificações. Todos os meses, os habitantes veem chegar a seus campos complexos residenciais, como meteoritos.

"Venha até o terraço", diz Anju Mittal, no novo apartamento que ele e sua mulher acabam de comprar no último andar do residencial Savana. Ao longe, os campos são tomados por fileiras de imóveis em construção. Na entrada de seu condomínio, um professor ensina uma criança a andar de patins, ao passo que do outro lado do muro, camponesas com o rosto coberto pelo sári cortam feno com uma foice, em um pequeno pedaço de terra.

"É um mundo diferente", admite Anju Mittal, constrangido, "mas não temos nada a ver com isso. Durante a semana saímos para trabalhar às 7h30 da manhã, para só voltar às 21h". Nos fins de semana, há a televisão por satélite e a piscina do residencial Château, o mais famoso do complexo.

"Eles nos chamam de locais. Eles acham que são reis e não vamos deixá-los passarem por cima de nós", avisa Hothe Ram, um fazendeiro de 70 anos vestido com um dhoti, uma tanga branca amarrada em volta da cintura, apontando sua bengala para as novas torres em construção. Em meio às nuvens de poeira, suas vacas magras pastam sob placas publicitárias com o slogan "Transformar os sonhos em realidade". No entanto, a venda de suas terras lhe rendeu mais de € 500 mil.

Hothe Ram mandou construir uma casa de 15 cômodos e deu a cada um de seus cinco filhos um televisor e um carro. Mas o dinheiro não lhe traz tanta felicidade quanto os verdes prados. "As hortas desapareceram, precisamos nos alimentar com os produtos de fora que são ruins para nossa saúde", ele lamenta. Ao contrário de seus filhos, que ficam em casa para poder ver televisão, ele ainda prefere sair para conduzir suas vacas, por medo de "gastar os olhos" diante de uma tela.

Todavia, Hothe Ram teve mais sorte que Ram Bhop. Esse camponês sem terras de 40 anos, olhar vidrado e rosto sulcado por rugas, cultiva legumes em uma pequena porção de terra, onde ele e sua família vivem com € 1,50 por dia, em uma cabana de madeira. Ele sabe que logo sairá sem ter nenhuma compensação, para dar lugar a outros citadinos. "Somos os sacrificados pela política do governo", ele lamenta.

Para defender o direito dos camponeses, Ramesh Rawal Sethi, de bigode e túnica brancos, assumiu a liderança do Fórum de Luta pelos Camponeses. No fundo de um pátio ladeado por um estábulo, ele nos recebe em um pequeno cômodo iluminado por neon. "Os estrangeiros poluem a água, e o ar fica mais quente no verão com todos seus aparelhos de ar condicionado instalados nas janelas", ele se queixa.

Desde que sua filha começou a frequentar a escola do Parque do Saber, ele teme que ela um dia use minissaia ou saia da aula de mãos dadas com um rapaz: "Nossa cultura está manchada pelo modo de vida ocidental. Alguns camponeses querem se parecer com os citadinos, construindo grandes casas e comprando carros. Mas eles não têm as mesmas rendas".

Ramesh Rawal Sethi preferiu comprar terras um pouco mais longe, graças às compensações financeiras que recebeu. "Muita gente veio de fora. Somos como estrangeiros em nosso próprio vilarejo. Mas tenho orgulho de ser camponês, e vou continuar sendo", ele conclui.

Tradução: Lana Lim

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