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24/04/2009

Jonathan Shapiro, o bobo da corte de Zuma

Le Monde
É curioso como algumas pessoas não envelhecem. Com a idade, o corpo certamente fica mais pesado. O cabelo cai, o passo fica mais devagar, as rugas aparecem. Mas essas pessoas ficam jovens no que é importante: na cabeça, no espírito, na visão de mundo. Com sua pança e seus brincos, Jonathan Shapiro, o mais famoso, o mais ácido, o mais admirado e o mais detestado de todos os chargistas da África do Sul, pertence a essa tribo. A dos "enfants terribles" (menino mimado) incorrigíveis, dos moleques que se divertem com tudo e não respeitam nada. Principalmente as autoridades, os manda-chuvas, os fanfarrões, as falsas glórias e os verdadeiros poderes.

Sua carteira de identidade afirma que o indivíduo brincalhão, que nos recebe em sua bela casa de campo branca no alto da Cidade do Cabo, nasceu aqui, na ponta sul do continente negro, há 51 anos. É um cidadão responsável, como se diz. Ele é casado, tem casa própria, paga seus impostos e é pai de dois filhos pequenos. Mas isso só na aparência. Na realidade, Jonathan Shapiro se chama Zapiro. É sob essa identidade que a "nação arco-íris" o celebra todas as manhãs com gargalhadas, abrindo o "Star", o "Cape Times", o "Pretoria News" ou ainda olhando a primeira página do "Mail and Guardian" e do "Sunday Times" local.

Desenhista, ilustrador, caricaturista, ou seja, editorialista, como o são todos aqueles que são bons, Zapiro é indispensável em sua terra natal há 15 anos. Xolela Mangcu, professor de ciências políticas, comentarista-celebridade e alvo recente de Zapiro, diz: "ele é o filósofo mais engraçado de nosso país". O arcebispo Desmond Tutu, Prêmio Nobel da Paz e consciência moral da nação, se "maravilha com sua genialidade e sua integridade". O próprio Mandela lhe confessou o "prazer" que ele sente diante de seu trabalho.

Inspirados nos bonecos do "Spitting Image", ancestrais dos "Guignols de l'Info" franceses, seus bodes expiatórios preferidos estão prestes a ganhar vida graças à televisão. Mas não nos antecipemos. "O episódio-piloto, intitulado 'Z News', cujos diálogos bolamos com alguns amigos, está pronto há três anos", ele diz. A South African Broadcasting Corporation (SABC), que é um pouco a ORTF (Office de Radiodiffusion Télévision Française) local e controla três canais públicos, manifestou o interesse pela transmissão de uma 'Z News' diária. E então vieram os "casos Zuma". Em vista do que se anuncia, ou seja, a eleição desse personagem que lidera o Estado sul-africano, Zapiro e seus colegas correm o risco de esperar muito. No dia 14 de abril, um programa sobre caricaturas políticas, na qual o enfant terrible (menino mimado) da Cidade do Cabo era entrevistado, foi repentinamente retirado da programação.

É porque o futuro presidente, que já é o líder da ANC, o Congresso Nacional Africano no poder desde o advento da democracia em 1994, não é muito fã do cartunista. E entrou com dois processos contra ele, um por "difamação", o outro por "atentado à (sua) dignidade". O objeto do primeiro delito é um inocente desenho ridicularizando o envolvido com um chuveiro escorrendo sobre sua cabeça.

A história se passou em 2006. Jacob Zuma, que acabara de ser demitido da vice-presidência do Estado por suposta corrupção, respondia a uma acusação de estupro da filha de um de seus velhos amigos, de 31 anos - metade de sua idade. Ele acabou sendo absolvido. Mas no decorrer da audiência, Zuma, polígamo declarado (5 esposas, 18 filhos) e orgulhoso de seu machismo "tradicional zulu", soltou uma atrocidade que ainda o persegue. Ao juiz, que lhe perguntou se ele sabia que a jovem com quem ele jura ter tido uma relação consensual era soropositiva, e se ele tomara precauções, Zuma respondeu: "Sim, eu sabia, mas não tinha preservativos à mão, então tomei uma boa ducha logo depois..." No país mais atingido pelo flagelo no mundo - pelo menos 5,5 milhões de soropositivos em 48 milhões de habitantes - , a declaração causou verdadeira comoção.

Desde então, nunca mais nenhum desenho de Zuma assinado por Zapiro apareceu sem a famosa ducha. "No começo", lembra o desenhista, "seus advogados me pediram 15 milhões de rands (mais de R$ 2,9 milhões)" por perdas e danos. Seis meses depois, azucrinado pela solidariedade de toda uma imprensa que é livre e ativa na África do Sul, o futuro presidente, magnânimo, concordou em abaixar sua exigência para 2 milhões de rands.

O caso só foi julgado quando o artista repetiu a dose. Em setembro de 2008, Zuma, dessa vez acusado de corrupção, obteve um arquivamento de processo, invalidado mais tarde antes que fosse todo anulado no início de abril, três semanas antes das eleições. Indignado, o cartunista da Cidade do Cabo apresentou uma jovem frágil cujos braços e pernas são segurados por tenentes conhecidos de Zuma. Em primeiro plano, reconhecemos o político de costas, abrindo as calças. Não há necessidade de legenda, todos entendem que a Justiça está para ser violentada. Dessa vez, nem todos os colegas o apoiam. Alguns escreveram que "há limites", e que estes foram ultrapassados. O ofendido pede por 7 milhões de rands de indenização.

Zapiro não pede desculpas. Ele diz ter "pensado muito antes de publicar": "Essa questão desencadeou um grande debate social, sobre a independência de nossa justiça e o abuso de poder. É saudável". E assim, desde então, há uma guerra entre o rei Zuma e seu bobo da corte. Nas reuniões públicas da ANC, zombam do nome do desenhista regularmente. Chamam-no de "racista", e alguns descontam em suas raízes judaicas. Os mais empolgados ameaçaram enforcá-lo. Mas Zapiro continua rindo. "Não estou bancando o valentão, mas, francamente, não tenho medo".

Seu passado fala por ele. Militante antirracista, ele se juntou em 1983 a um movimento de luta contra o apartheid. Cinco anos depois, ele tirou sua carteira da ANC, que ainda era o respeitado movimento de libertação que todos conheciam. Depois, ele a devolveu. "Eles me decepcionaram. Além do mais, não quero ficar preso a qualquer formação que seja".

Já durante o apartheid, Zapiro desenhava, mirando o poder minoritário branco. E colecionava aborrecimentos. Um dia, em 1985, a polícia secreta do regime foi à sua casa e o levou, assim como sua mãe e sua irmã, que também militavam contra o sistema. As duas mulheres ficaram sete semanas na cadeia. Ele, somente 11 dias, "dos quais 5 em segredo". "É claro que eles queriam saber o nome dos meus amigos militantes. Eles também queriam saber por que eu sempre os desenhava como porcos. Eu respondi: 'Mas, senhor oficial, eu desenho o que eu vejo...'. E ele ri mais.

Percurso

1958Nasce Jonathan Shapiro, na Cidade do Cabo
1979Nasce Zapiro, o desenhista
1983Junta-se à UDF, movimento anti-apartheid
1985É detido pela polícia do regime
2005Recebe o Prêmio Prince Claus
2006É intimadopela justiça
2008Recebe a segunda intimação por difamação

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