UOL Notícias Internacional
 

25/04/2009

Crise muda hábitos de consumo dos franceses

Le Monde
Claire Gatinois
Carnes, pratos prontos, joias, geladeiras, gasolina ou televisores... a crise obriga os franceses a apertarem o orçamento. Ainda que o consumo de produtos básicos tenha dado um salto de 1,1% em março, segundo os números publicados na sexta-feira (24) pelo Insee [Instituto Nacional de Estatística e Estudos Econômicos], os grandes varejistas sofreram no primeiro trimestre.

Seja a Fnac para os produtos culturais, ou a Conforama para artigos de casa, mas também os alimentos no Carrefour, Casino ou ainda o Francprix, Leaderprice ou Monoprix, todos viram suas vendas estagnarem, na melhor das hipóteses, ou recuarem, na pior. Às vezes em até 10%, sendo que resistiam, até então.

A maioria dos distribuidores relativizam essa baixa, que eles atribuem a um calendário desfavorável e à queda vertiginosa dos preços da gasolina, que dissolveu automaticamente parte de suas receitas. Mas, no setor, "é bem claro que a situação é ruim", diz Eric Etienne, diretor do hipermercado Leclec em Vitry-sur-Seine, que se diz "muito estressado". "A França vai mal", ele constata.

Sua loja até que foi poupada nesse começo de ano. Suas vendas chegaram a aumentar 2% no primeiro trimestre. "Mas, para nossos concorrentes, a queda nas vendas passa de 10%", observa Etienne. "Os consumidores estão angustiados, eles tomam mais cuidado. Estamos nos saindo melhor do que os outros, mas não temos reservas: com o menor erro, também podemos cair".

Gilles Floquart, diretor de duas lojas Intermarché, em Ludres e Jarville, perto de Nancy, descreve uma situação muito delicada. "A frequência aumenta, mas o gasto médio diminuiu", ele constata.

Para não terem de ver seus faturamentos caírem, os distribuidores brigam ferozmente uns com os outros. Como não podem fazer aumentar o consumo, eles tentam roubar clientes da concorrência sendo os mais atraentes, oferecendo os melhores preços. "Talvez a crise esteja só no começo", se preocupa Floquart.

Esse período de baixa no consumo não é nenhuma surpresa. Ele se explica, em primeiro lugar, pela rápida progressão do desemprego. Automaticamente, os franceses que perderam seu emprego consomem menos, enquanto os outros, temerosos de ter o mesmo fim, preferem economizar por precaução, em vez de gastar. Hoje, os franceses reservam 16% de suas rendas, contra 13% a 14% em média. "É típico, durante recessões", lembra Nicolas Bouzou, diretor da consultoria Asteres, que prevê uma baixa no consumo de 1% para este ano.

Contudo, segundo ele, a França não está na pior das situações. Graças a uma cobertura social eficaz, o fenômeno está parcialmente amortecido. "Nos países anglo-saxões menos protetores, o recuo no consumo chega a 2%, 3%, até 4%", aponta Bouzou.

Em teoria, esse apoio aos rendimentos deveria até impedir que o consumo diminuísse. Na verdade, do ponto de vista estatístico, o poder de compra não caiu. Ele até aumentou em 1% em 2008, e deveria crescer 0,7% a 0,8% este ano, devido à baixa generalizada dos preços, especialmente da energia. Mas isso não basta para estimular os gastos. "Mesmo que seu salário continue o mesmo e os preços caiam, você não tem a sensação de estar mais rico", aponta Alexander Law, economista da consultoria Xerfi, que leva em conta a dimensão "psicológica" dessa crise de consumo.

Essa parte irracional é ainda mais espantosa porque, "pela primeira vez, contata-se uma baixa no volume das despesas alimentares", observa Law. "É muito surpreendente". Em época de recessão, na verdade, é comum adiar as compras ditas arbitrárias, que não são indispensáveis, como eletrodomésticos. Mas, mesmo em períodos difíceis, o orçamento alimentar é preservado.

Grandes varejistas atingidos

Casino
O faturamento caiu 5,6% no primeiro trimestre, com um recuo na venda de alimentos de 7,4%. Os hipermercados do grupo caíram 13,3%

Carrefour
As vendas recuaram 5,1% no primeiro trimestre. O ramo dos supermercados é o mais atingido (-8%), à frente das lojas de desconto (-7,2%) e dos hipermercados (-4,2%)

Evitando os hipermercados

Então, com essa crise, os franceses comem menos? A resposta é não. Para Robert Rochefort, diretor do Centro de Pesquisa para o Estudo e Observação das Condições de Vida (Credoc), essa situação inédita ilustra mais uma modificação radical dos hábitos de consumo. Os franceses não estão consumindo menos, mas sim de forma diferente.

"Em vez de comerem cereais sofisticados pela manhã, eles compram uma baguete", ele observa. Segundo Rochefort, essas mudanças, e às vezes esses pequenos sacrifícios da vida rotineira, também refletem um "desejo de vingança" por parte dos consumidores. O

s franceses consideram essa crise injusta, e não querem que ela enriqueça os grandes grupos de distribuição cotados no CAC 40 [bolsa de valores francesa]. Isso os estimula a consumirem menos, e a evitar os hipermercados, "templos de consumo", preferindo as mercearias ou os mercados de bairro. Um reflexo que parece paradoxal, uma vez que esses comércios muitas vezes são mais caros do que os hipermercados.

Esses novos hábitos levarão um tempo para desaparecer, mesmo depois da recuperação econômica. E para Rochefort, essa crise pode até mesmo determinar "o fim da era do hiperconsumo", dominante desde os anos 1970.

Tradução: Lana Lim

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    15h59

    -0,57
    3,127
    Outras moedas
  • Bovespa

    16h07

    -0,45
    75.260,91
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host