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25/04/2009

O homem desvendando os segredos da vaca

Le Monde
Hervé Morin
Tudo se aproveita na vaca: o leite, a carne, mas também o ácido desoxirribonucleico, o famoso DNA, que carrega a informação genética. Dezenas de geneticistas, reunidos em consórcios, se deleitaram com ele durante anos, para conseguir o primeiro sequenciamento integral do genoma de uma vaca.

Destinado à posteridade, esse animal de corte, com pelagem vermelha e branca da raça Hereford, se chama Dominette 01449. Seu patrimônio genético, publicado na revista "Science" de 24 de abril, foi desmontado e depois remontado, para ser analisado de todos os ângulos e servir de base de comparação com outras espécies (entre as quais, o homem), mas também com seus congêneres de outras raças.

"Esse sequenciamento é o resultado de quinze anos de trabalho em nível internacional", diz André Eggen, diretor de pesquisas no Instituto Nacional de Pesquisa Agrônoma (INRA) em Jouy-en-Josas (Yvelines), que contribuiu para o mapeamento desse genoma. Esse tipo de observação permitiu acelerar o próprio sequenciamento, que foi feito no Baylor College of Medicine de Houston (Texas).

Por que em um centro médico? "Porque só os National Institutes of Health (NIH, institutos de saúde) americanos tinham capacidade financeira suficiente para levar a cabo um projeto desses, que custou cerca de US$ 50 milhões", responde André Eggen. Preparada em 2001, a argumentação que venceu a decisão política destacava com prioridade o interesse para a saúde humana de tal sequenciamento. Este traz, de fato, muitos dados fundamentais: ele revela que os bovinos dispõem de no mínimo 22 mil genes, dos quais mil não figuram no genoma humano; 14.345 desses genes também estão presentes em sete outras espécies de mamíferos cujos genomas foram sequenciados. Dessas comparações poderão surgir eventuais avanços terapêuticos. "Essas análises acabam de começar", explica André Eggen.

Elas focarão em certas características da vaca, como a produção de leite e carne a partir de um alimento pobre, a grama, graças a seu estômago de quatro cavidades povoado por um ecossistema bacteriano específico. Como o ruminante se protege desses micróbios? Como ele transfere defesas imunológicas para a cria, por meio do leite, diferentes das do Homo sapiens? Agora essas questões poderão ser mais bem exploradas.

Da mesma forma que a evolução dos bovinos poderá ser mais bem rastreada, e sua domesticação, que tem cerca de 10 mil anos, poderá ser mais bem delimitada. A comparação do genoma de Dominette 01449 com 37.500 mutações pontuais observadas em 500 vacas de 19 regiões mostra uma redução rápida da diversidade bovina a partir da divergência com as populações originárias dos auroques, o "boi ancestral", cujo último representante foi abatido em 1627. Surgem dois focos de domesticação: um na Índia, com seus zebus, e o outro na Europa, sendo que esse último aparentemente conduziu a uma diversidade menor.

A paleogeneticista Eva-Maria Geigl (Instituto Jacques-Monod), que ressuscita o DNA fóssil para escrever a pré-história comum do gado e do homem, não acredita totalmente nisso. "Será que essa redução de diversidade genética se deu com a domesticação e as migrações do neolítico, com as epidemias de peste bovina da Idade Média e do Renascimento, ou com a prática intensiva de seleção a partir de meados do século 19? Os dados, muito ricos, deverão ser completados para poder fornecer a resposta", ela observa. Mas ela destaca a importância desse sequenciamento "para os pesquisadores, para os selecionadores, para os criadores, para os políticos, para a conservação das raças bovinas: diante das epidemias animais encefalopatia espongiforme (doença da vaca louca) ou da febre aftosa, é primordial dispor de uma grande diversidade genética de onde recorrer a caracteres de resistência".

Essa diversidade genética, que a pecuária extensiva é acusada de destruir, pode ser valorizada pelo sequenciamento, garante Maurice Barbezant, diretor-geral da União Nacional das Cooperativas de Criação e de Inseminação Animal: "A genômica vai nos permitir pesquisar reprodutores em famílias que não exploraríamos até então", ele diz. "É uma nova era para a pecuária".

"Mutações pontuais"

Antes mesmo que o sequenciamento fosse finalizado, porções do genoma foram aproveitados pela pesquisa agrônoma e começam a dar frutos. "Nesses três últimos anos fizemos a ligação entre caracteres bem conhecidos de determinadas populações de bovinos, como a resistência à mastite (infecção das tetas), e de mutações pontuais", diz André Eggen. Um microarranjo de DNA da empresa americana Illumina, capaz de testar simultaneamente 54 mil dessas mutações, fornece a baixo custo a possibilidade de comparar o perfil genético de um indivíduo com essas características.

Uma revolução em relação à seleção clássica, que consiste em apostar em um touro, e depois esperar duas gerações para ver se suas qualidades se encontram na descendência. Esse "caminho pelo macho" de seleção leva sete anos, para chegar a um reprodutor (entre dez, no começo) que custará 500 mil euros de investimento. Ela ainda tem o inconveniente de só trabalhar com um punhado de caracteres, talvez em detrimento de outras funções.

"Essa melhora clássica funcionou muito bem: ainda se produz 110 kg de leite ao ano por animal. Mas, muitas vezes, é em detrimento das capacidades de reprodução", reconhece André Eggen. "A genômica permitirá trabalhar, de forma mais rápida e mais precisa, com diversos critérios". São visadas a robustez, a longevidade, a produtividade, mas também a qualidade das matérias gordas do leite (evitar os ácidos saturados, por exemplo) ou a maciez da carne. Ou ainda a ausência de chifres, que pouparia aos vitelos e aos criadores penosas sessões de cauterizações.

A seleção assistida por marcadores genéticos já é uma realidade. "Os primeiros touros, das raças (leiteiras) Holstein, Montbéliard e Normanda, classificadas segundo quinze caracteres, vão ser colocados continuamente no mercado", indica Maurice Barbezant. Reprodutores de raças de corte poderão fazer o mesmo nos próximos dois anos, ele espera.

Tradução: Lana Lim

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