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29/04/2009

Os negros perplexos com os EUA "pós-racial"

Le Monde
Philippe Bernard
Enviado especial a Washington
Milhares de cabeças negras passaram sob as tesouras hábeis de Joseph, ou "Joe", o cabeleireiro da rua "U". Modesto e frequentado por homens e mulheres, seu salão não chamaria muita atenção, se não estivesse situado no cruzamento que foi o epicentro dos tumultos de 1968 em Washington, logo após o assassinato de Martin Luther King. Entre os espelhos onde os clientes contemplam o progresso de seus cortes raspados, Barack Obama sorri. "A mudança chegou", anuncia o cartaz. Como vários comerciantes do bairro, Joe exibe seu orgulho de pertencer a um país que escolheu um presidente negro: "Antes desta eleição, eu não passava de um negro nos Estados Unidos. Depois, passei a me sentir cidadão deste país. Descobri que os brancos podiam votar no Obama, e eu os vejo com outros olhos".

39 milhões de americanos
Recenseamento. Os negros americanos, também chamados de afro-americanos, são 39 milhões e constituem 12,8% da população dos Estados Unidos.

Expectativa de vida. Ela é de 72,8 anos para os negros, e 78 anos para os brancos.

Renda. A renda média de uma família negra americana chegou a US$ 33.916 em 2007, contra US$ 54.920 para uma família branca.

Desemprego. No mês de março, ele atingiu 13,3% dos afro-americanos e 8,5% dos brancos.
E a partir daí, afirmar que os Estados Unidos se tornaram um país "pós-racial", como alguns sugerem? "É 75% verdade", avalia Joe. "Nós mostramos que podemos ultrapassar a fronteira racial".

Nesse ponto, o cabeleireiro está longe de falar em nome de todos os negros que sofrem o pesadelo da assimilação. "Eu não sou pós-racial", anuncia um artigo de Krissah Thomson, jornalista do "Washington Post". Isso significaria "a perda de muitos elementos aos quais eu sou ligada: quem eu sou, e de onde eu venho", ela escreve, admitindo que, ainda que trabalhe com brancos, ela não anda muito com eles socialmente.

"O suposto EUA pós-racial foi um truque de campanha para tornar Obama mais aceitável para os brancos", acrescenta Shamira Muhammad, estudante de ciências políticas em Howard, a universidade negra de Washington. "Nossa sociedade continua sendo construída sobre uma hierarquia entre as raças. Sem tratar a questão racial, não se poderá melhorar a situação dos negros. O risco com Obama é que os brancos nos digam: 'Agora, parem de reclamar do racismo!'"

Barack Obama, coveiro da identidade negra? O paradoxo é só aparente. Uma parte das elites brancas, mas também negras, vê no presidente o homem ideal para se livrar da retórica racial herdada dos combates pelos direitos cívicos. A eleição de novembro de 2008, ao superar a divisão racial, foi uma revelação para muitos afro-americanos.

Mas, hoje, teme-se que esse triunfo não passe de um pretexto para um abandono das políticas direcionadas para a luta contra as discriminações. A controvérsia se concentrou em torno da palavra "pós-racial", que floresce em inúmeras análises, blogs e colóquios. "Será que estamos prontos para pensar para além da raça?": a questão foi levantada durante uma recente conferência na faculdade de direito da universidade Columbia, em Nova York. A resposta dominante foi negativa. Durante sua campanha eleitoral, o próprio Obama rejeitou a ideia de uma "política pós-racial", repetindo que "os problemas raciais não serão resolvidos somente pelo fato de ter sido eleito um presidente negro".

Mas hoje a questão reaparece com o temor de que o presidente, sob pressão de seu eleitorado multirracial, passe de uma gestão de questões sociais, sobretudo, baseada na raça para uma visão mais fundamentada sobre nível social e renda. Durante a campanha ele manifestou essa intenção. Obama não declarou que suas filhas não precisariam de "ação afirmativa" para entrar na universidade? O impressionante apaziguamento racial que muitas pesquisas refletem poderá pesar no mesmo sentido. Em 1996, 70% dos negros acreditavam que o racismo era "um grande problema"; em janeiro deste ano, segundo o "Washington Post", eles não passavam de 40%.

"A eleição do primeiro presidente negro não significa que podemos fechar as portas", argumenta Marc Morial, presidente da Nation Urban League, uma das principais organizações de defesa dos direitos dos negros. Ele lembra que os afro-americanos, ainda que um deles esteja na Casa Branca, "continuam correndo duas vezes mais riscos de ficarem desempregados do que os brancos, três vezes mais de viverem na pobreza, e seis vezes mais de irem para a cadeia".

Esse discurso irrita alguns intelectuais negros. "Denunciar a discriminação racial não é do que os EUA negro mais precisa", escreve John McWhorter, um acadêmico nova-iorquino, chamando de "encantamento tribalista" os discursos das organizações negras que atribuem ao racismo todas as dificuldades dos negros. "Se a Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP), que este ano comemora seu centenário, deixasse de existir", ele diz, provocando, no jornal "The New Republic", "que efeito isso teria sobre os EUA negro? A organização ganharia mais financiando programas contra a desescolarização ou para criar empregos".

"Estou cansado dos discursos fatalistas do comunitarismo negro", confessa o romancista Victor LaVallee. "Entre um negro militante sem poder, e aquele que hoje governa o país, quem é o verdadeiro líder comunitário?" Esse debate intelectual ressurge concretamente nesses dias diante da Suprema Corte, munida de dois dossiês que poderão questionar duas disposições emblemáticas da política de luta contra a discriminação racial.

Em New Haven (Connecticut), 19 bombeiros brancos estão processando a prefeitura por terem anulado um exame de promoção profissional no qual eles tinham passado. Em vista dos resultados desfavoráveis a todos os candidatos negros, as autoridades temiam as ações judiciais baseadas na lei de 1964 que proíbe "qualquer prática suscetível de ter um efeito discriminatório sobre as minorias" em matéria de emprego. Se a decisão, esperada para junho, der razão aos requerentes, uma parte essencial da legislação antidiscriminação poderá ser rompida.

O outro caso questiona a lei de 1965, que submete à aprovação da administração federal qualquer modificação da divisão e da organização eleitoral em nove Estados do Sul, para proteger o voto dos negros. Nos dois casos, os reclamantes alegam que a eleição de um presidente negro para sustentar somente essas disposições não tem mais razão de ser. No entanto, é pouco provável que, a menos que a Suprema Corte o obrigue, Barack Obama se adiante nesse campo minado das "questões raciais".

Negros e brancos estão à espreita. Em época de crise, não é hora de reabrir feridas. "O novo presidente não fará nada pelos negros como tais. Ele mostrará que se podem ajudar os negros sem fazer referência à sua cor" profetiza Daryl Scott, professor de história em Howard. "Desde Obama, ficou mais difícil reduzir todos os problemas ao racismo". Ironicamente, agora que a França luta para inventar estatísticas étnicas, os Estados Unidos, tomados por modelo, procuram ultrapassá-las.

Tradução: Lana Lim

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