UOL Notícias Internacional
 

30/04/2009

Os cem dias de um anti-Obama

Le Monde
Corine Lesnes
Por mais obamaníaca que seja, esta "carta" professa um certo grau de objetividade. Então é nosso dever, pelo bem do equilíbrio, nesta semana dedicada aos fabulosos cem dias da presidência Obama, dar a palavra ao terrível Rush Limbaugh, um homem que não gosta, mas nada mesmo, de Barack Obama.

Rush Limbaugh é o locutor de rádio mais escutado do país, o menestrel do populismo, o bardo da direita brutal. A base republicana tem uma devoção infalível por ele. Aos 58 anos, ele já se divorciou três vezes e foi processado por abuso de tranquilizantes. Poderia parecer paradoxal que os conservadores tenham feito dele seu herói, mas é assim. O homem tem suas fraquezas, o partido também. (Em 2006, ano eleitoral difícil, a alfândega de Palm Beach pegou Viagra em sua bagagem. Apesar de Rush ter explicado que ele tinha se abastecido na "Bill Clinton Library", os republicanos perderam a maioria).
  • Saul Loeb/AFP - 13.jan.2009

    O radialista Rush Limbaugh, na Casa Branca



Segundo uma pesquisa de 2007, 62% dos americanos têm uma opinião ruim de Rush Limbaugh. Isso não impede que seu show seja ouvido em todos os rádios de carros do país - e em todas as bases militares. Transmitido por 600 estações, ele diz ter 14 milhões de ouvintes semanais (com um recorde de 20 milhões em 2003, no começo da guerra do Iraque). Nos vinte anos em que ele vem exercendo seus talentos, Rush criou sua receita e seu jargão. Em sua boca, Detroit é "A Nova Fallujah"; o Bank of America, o "Bank of Amigo" (os clandestinos são seus "amigos"). Ele também se deu alguns apelidos, um mais modesto que o outro: "El-Rushbo", "o Detector de Mentiras dos EUA", ou ainda "o Último Homem em Pé".

Rush é também o promotor do "Club Gitmo", o "Club Med" de Guantánamo. Ele vende uma coleção de camisetas e bonés laranja, para levar à Disneylândia ou ao supermercado: "Meu mollah foi para Gitmo, e tudo que ele me trouxe foi esta camiseta ridícula". Desde o anúncio do fechamento da prisão, um novo logo apareceu: "Club Gitmo. Quando os EUA estavam em segurança".

Rush nasceu em uma respeitada família do Missouri (um avô embaixador na Índia, um pai advogado, um primo juiz, nomeado por Bush), mas ele obviamente preferiu o papel de provocador-mor. Talvez ele ainda fosse disc-jóquei se Ronald Reagan não houvesse determinado a liberação das ondas em 1977. Livre da obrigação de equilíbrio de pontos de vista (Fairness Act), a paisagem radiofônica estourou. Desde então, é permitido dizer o que se quiser durante três horas a fio, como Rush, sem temer direito de resposta ou processo por difamação.

O locutor fez o que pôde para impedir a eleição de Barack Obama. Ele chamou os republicanos para votarem em Hillary Clinton nas eleições primárias democratas. A "operação caos" não bastou (mas 16 mil republicanos mudaram de afiliação somente no Estado de Ohio). Desde janeiro, Limbaugh sofre de obamafobia crônica. Pouco após a posse, uma revista lhe pediu para manifestar sua reação em 400 palavras. "Algumas palavras bastam", ele respondeu. "Espero que ele fracasse". Como o Partido Republicano está em frangalhos, a imprensa o entronizou chefe da oposição.

Desde então, foi uma pirotecnia. No dia 12 de fevereiro, Rush agradeceu a Barack Obama pelo bom trabalho que ele fez em sua missão de "pegar cada instituição ou tradição que faz a grandeza dos EUA e rasgá-las em pedaços". Em 18 de março, ele afirmou que "todo mundo", na Casa Branca, está "perfeitamente formado, educado e programado pra destruir o capitalismo". No dia 24, ele constatou que a destruição havia começado. "Isso é um ataque para todos os lados contra o capitalismo". No dia 30, o medo tomou conta dele. "Obama ataca os liberais, um a um. Não é hipocrisia. É tirania". Quando Obama voltou da Europa, Rush gemeu: "Ele foi para todos os lados e se desculpou pelo maior país da história, o mais generoso, o maior defensor das liberdades".

Para o Dia da Terra, Rush quis fazer uma homenagem especial aos "valores capitalistas que nos deram o carbono, as lâmpadas elétricas e os automóveis". Ele "se certificou pessoalmente de que dois acres de florestas virgens fossem destruídos durante o dia". Ele quase enviou cada um de seus carros e seu jato "para Los Angeles, ida e volta".

Nos anos 1990, a presidência de Clinton fez sua fortuna. Graças a Barack Obama, Rush Limbaugh diz que seus índices de audiência subiram, mas ele tem um lado pré-Twitter que faz pensar que os dias de glória estão contados. E à sua direita, ele tem a concorrência do apresentador da Fox News, Glenn Beck (2 milhões de telespectadores).

Em cem dias, a associação de monitoramento da imprensa Media Matters registrou 3 mil menções a "socialismo", "comunismo" ou "fascismo" a respeito da administração Obama. Ela fala de "distúrbio mental". Desregulamentação, melhor dizendo.

Tradução: Lana Lim

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