UOL Notícias Internacional
 

30/04/2009

Seattle, a cidade criativa maltratada pela crise

Le Monde
Sylvain Cypel Enviado especial a Seattle (Washington)
Encontrar em Seattle um dirigente da Microsoft para falar de sua estratégia na crise é uma odisseia. Após uma semana de repetidas chamadas, o veredicto é: "Não, não há ninguém disponível aqui". Por que motivo? "Bem, porque não, até logo, senhor". A história diverte Doug Downing, economista da Universidade do Pacífico. Ele diz, "A Microsoft nunca foi um modelo de amabilidade. Neste momento, eles estão muito irritados. Tremendamente nervosos".

A Microsoft está para Seattle assim como a General Motors está para Detroit, o pulsar de sua vitalidade. Pela primeira vez em sua história, a gigante da informática está demitindo: 5 mil pessoas, sendo que metade é aqui, na sede. Ela pretende reduzir em 15% seus custos de terceirização, renegociando valores mais baixos nos contratos assinados com seus parceiros, entre as inúmeras empresas novas que foram criadas em sua periferia. Phil Palios, 23, se recusou a ver seu salário-hora ser reduzido em 10%. Ele organizou uma manifestação com colegas diante da sede da firma, em Redmond, no subúrbio. Ele explica ao "Seattle Times" esse outro fato inédito: "Jamais me imaginaria como sindicalista".

Principal porto da costa pacífica americana, Seattle foi por muito tempo uma cidade de estivadores e de operários qualificados: os da Boeing, que ali possui vários pontos e teve sua sede por muito tempo; e da Paccar, terceira maior fabricante mundial de veículos industriais. Em uma geração, Seattle se tornou um ícone do "novo EUA": moderna, descolada. Bill Gates chegou lá em 1979. Lá nasceram a T-Mobile e a Amazon, bandeiras das empresas de alta tecnologia que se multiplicaram. A modernidade também significou finanças. Instituição local de porte médio, a Washington Mutual (WaMu) se tornou um gigante nacional do crédito, sexta maior instituição financeira americana. O modo de vida acompanhou: ali foi criada a Starbucks, que revolucionou a relação dos jovens com o consumo, introduzindo nos EUA um conceito novo: a cafeteria onde se privilegia o convívio social, sem televisões sempre ligadas nas paredes. Uma cafeteria onde se entra para tomar algo. Onde se encontra café expresso, docinhos e sanduíches frescos, onde se senta para ler ou trabalhar conectado à internet.

Seattle, então, é extremamente moderna. Cidade branca com uma imigração asiática crescente, é a com maior nível de instrução nos Estados Unidos (51,6% de formados universitários). É também a mais laica: no recenseamento, ela detém a maior taxa de respostas "sem religião". Dinâmica, ela foi classificada pela revista "Forbes", em 2005, a número um pelo "ambiente favorável à expansão". Clark William-Derry, economista do Sightline Institute, órgão ecológico de estudos econômicos, lembra "sua tradição de inovação, seu espírito empreendedor".

Seattle também é uma cidade jovem de renda média 35% superior à média americana. Uma cidade "cool" e verde, entre as primeiras a terem equipado seus ônibus com motores híbridos. Uma cidade "global". "O que nos caracteriza é que o Pacífico é nosso horizonte, e não o interior do país", diz o escritor Tim Egan. E quem se espanta com isso? 70,4% dos votos de Seattle foram para Obama.

A cidade entrou na crise com atraso, mas agora está afundada nela. Não é só a Microsoft. A Boeing também suprimiu 10 mil empregos. A WaMu, que havia se lançado com tudo na alocação de empréstimos subprime, se arruinou. "A WaMu era o faroeste. Bastava estar vivo para obter um empréstimo. Mesmo morto, eles teriam lhe dado um", é o que diz Steven Knobel, da consultoria imobiliária MMJ. Dois anos atrás, seus corretores ganhavam até US$ 10 mil por empréstimo feito. A WaMu foi comprada, em setembro de 2008, pela JP Morgan Chase, que fechou sua sede: 4 mil empregos perdidos, 10 mil outros induzidos.

O desemprego era quase inexistente em Seattle. Em março, ele alcançou a média nacional e cresce cada vez mais rápido. "Estamos bem mais diversificados do que há trinta anos. Não importa: é um verdadeiro impacto", diz o economista Chris Webber. A WaMu, a Boeing e a Microsoft são as principais empregadoras da cidade. "Quando as três demitem ao mesmo tempo, imagine o impacto!", diz Michael Parks, economista da Marples Pacific NorthWestern.

Até a Starbucks foi atingida. A cadeia fechou 975 lojas: 18.400 empregos perdidos, dos quais mil são na cidade. Sobretudo, ela modifica sua estratégia. A firma representava o anti-McDonald's, o anti-low cost, o produto ao preço mais baixo, martelado muito tempo pelos comerciais. A Starbucks era "o luxo acessível", diz William-Derry. O universitário e o executivo médio estavam dispostos a desembolsar um pouco mais por uma qualidade melhor. Os franqueados recebiam ordens de promover seus produtos originais, um gosto da Europa sob o céu da boca, frescor garantido. Mas "na recessão, o 'fator cool' recua", constata Webber. Agora, as instruções da Starbucks são de promover o café da manhã a US$ 3,95 - café mais sanduíche ou doce - em vez do frappuccino, ou do cappuccino gelado à italiana. "Quando uma empresa embaralha sua mensagem, ela assume um grande risco", teme Downing.

A Amazon, campeã do "low cost", prospera; mas os outros líderes locais do "novo EUA" estão apreensivos. A crise agiu sobre a Microsoft como um revelador de males mais profundos. "Seu modelo se esgotou. Ela não inventa nada de novo há muito tempo. Google, iPhone, MySpace, Facebook, ela deixou passar tudo isso", argumenta Parks. A Microsoft "está desestabilizada", confirma Downing. "Ela costumava intimidar seus adversários, mas isso acontece cada vez menos".

Barack Obama? O prefeito, Greg Nickels, foi um dos primeiros políticos democratas a se pronunciarem em seu favor. Durante as eleições primárias, quando Hillary Clinton tinha vantagem de 35 pontos sobre seu concorrente em Kentucky, na terra dos operários do "velho EUA", Barack Obama lhe dava o troco no "novo", em torno de Seattle. O entusiasmo ficou: Obama aparece ainda mais como o único capaz de enfrentar a tormenta. "Com Bush, as pessoas daqui viviam uma verdadeira dissonância cognitiva, se sentiam excluídas. Com Obama, elas se sentem em harmonia", diz o escritor Knute Berger.

A prefeitura reduziu seu orçamento em US$ 125 milhões e suprimiu 500 empregos "como medida preventiva". O prefeito devia decidir no fim de abril a respeito do abandono de diversos projetos de infraestrutura. Mas ele pretende lançar outros... graças ao plano Obama de investimentos públicos. No cardápio: um "corredor de saúde", centros de pesquisa em cooperação com a Fundação Bill & Melinda Gates, a reabilitação de uma estrada que leva ao porto, duas linhas de metrô automatizado entre o aeroporto, o centro da cidade e o bairro universitário, e uma ponte que leva ao "campus" da Microsoft para aliviar o trânsito. Este último já desperta uma forte oposição. "Gates e Ballmer (seu sucessor na Microsoft) têm uma fortuna pessoal suficiente para eles mesmos financiarem esse projeto", se indigna Steve Ellis, o presidente da associação local Contribuintes para o Bom Senso.

"Acima de tudo", diz Nickels, "nosso futuro continuará baseado na economia do saber". Com os projetos presidenciais de reforma da saúde, o investimento na pesquisa médica e nas novas energias, o prefeito se sente "atualizado". Ele quer fazer de sua cidade a "vanguarda" da economia verde. "Esta região pode se tornar o pivô do projeto Obama de informatização do sistema de saúde. Nós temos a massa cinzenta para isso. E aquele que encontrar a bateria eficaz para o veículo elétrico vai tirar a sorte grande. A energia própria é o futuro", garante Downing.

E assim Seattle passa pela crise. Ali sente-se uma grande raiva contra a WaMu e o setor financeiro, mas não o desânimo encontrado em Detroit, coração do setor automobilístico americano. "Aqui", diz Webber, "as pessoas são otimistas por natureza. As coisas vão mal? Amanhã elas melhoram, pois nós somos os mais dinâmicos, os mais criativos".

Berger não se convence. Recentemente ele publicou um livro, "Pugetopolis", onde ele denuncia as contradições da "gentil Seattle" e sua pseudo-harmonia entre respeito à natureza e especulação. Atrás de Nova York e Los Angeles, ele diz que Seattle se pretende "o lugar da terceira maior utopia americana. Mas, por trás do cartão postal, a verdade é que despejamos milhões de toneladas de dejetos em nossa baía, que as orcas morrem comendo peixes contaminados, mas que ninguém quer realmente mudar seu modo de vida." Esta cidade, ele continua, não quer mudar, mas sim voltar à situação que prevalecia antes da crise. "Nós nos achamos superiores. Aqui se venera o poder da massa cinzenta, da 'classe criativa'. Mas a crise mostrou que o espírito não consegue substituir totalmente os braços".

Tradução: Lana Lim

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    10h59

    0,40
    3,159
    Outras moedas
  • Bovespa

    11h03

    -0,44
    68.294,56
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host