UOL Notícias Internacional
 

01/05/2009

H1N1: "O compartilhamento de antivirais atenuaria a pandemia"

Le Monde
Por Stéphane Foucart
  • Manish Swarup/AP

    Agente da imigração usa máscara de proteção enquanto checa documentação de passageiro
    no aeroporto internacional de Nova Déli, na Índia

Como vai evoluir a epidemia causada pela nova estirpe viral de subtipo H1N1? Em uma tentativa de prever a evolução do ambiente com simulações numéricas, pesquisadores franceses, italianos e americanos desenvolveram um modelo de propagação de epidemia baseado especificamente no transporte aéreo, na estrutura da população mundial, nas características biológicas do vírus e nas estratégias de combate aplicadas pelas autoridades sanitárias.

Marc Barthélemy, pesquisador do Comissariado de Energia Atômica (CEA), participou dos trabalhos de criação desse modelo. Segundo esse físico estatístico, há duas grandes lições a se tirar dessas simulações. A primeira é que o transporte aéreo que dita o ritmo da propagação da doença. A segunda é que uma administração cuidada e "altruísta" dos estoques de antivirais poderá reduzir consideravelmente o impacto de uma pandemia - como essa que as autoridades sanitárias temem atualmente.

Le Monde: Como avaliar a pertinência de um modelo de simulação de propagação epidêmica em escala mundial?
Marc Barthélemy:
No caso deste que desenvolvemos, quisemos avaliar os efeitos do transporte aéreo mundial sobre a propagação de uma epidemia. Nós testamos esse modelo no caso da Sars (Síndrome Respiratória Aguda Severa, que surgiu em novembro de 2002 na China e que atingiu, no total, cerca de trinta países) e descobrimos o comportamento de difusão da doença, tal como pudemos observar na época. Certamente havia incertezas sobre as condições nas quais ela aconteceu, pois as autoridades chinesas demoraram a declarar os primeiros casos. Mas levantando hipóteses razoáveis e supondo que a epidemia partira de Hong Kong, o modelo reproduz com uma pequena margem de erros o número de casos ocorridos em cada país.

O transporte aéreo aparece então como o fator determinante da difusão de uma doença infecciosa em escala mundial, conclusão que se aplica mais especificamente ao vírus H1N1.

Le Monde: Então seria necessário restringir o tráfego aéreo para evitar a pandemia?
Barthélemy:
Não. Vista a complexidade da rede de interconexões das cerca de 3.000 plataformas aeroportuárias do mundo, simples restrições - a menos que haja quase uma interrupção - não funcionam. Nós verificamos com ajuda de nosso modelo que essas restrições não mudariam quase nada quanto à difusão da doença.

Possivelmente, uma vigilância maior dos voos diretos provenientes das zonas atingidas pode se mostrar útil. Além disso, observa-se hoje que quase todos os casos "importados" do México vieram de voos diretos...

Le Monde: Nesse caso, que comando acionar para retardar a propagação do H1N1 ou para reduzir seus efeitos?
Barthélemy:
Nós simulamos a propagação de uma doença de tipo gripal transmissível entre humanos e testamos duas estratégias de utilização dos estoques de medicamentos antivirais disponíveis no mundo inteiro. Na primeira estratégia, cada país utiliza seus estoques de forma egoísta, reservando-os a sua própria população. Na segunda, os países mais ricos enviam uma pequena parte - da ordem de 10% a 20% - de suas reservas aos principais países atingidos pela epidemia. Em nossas simulações, essa gestão "altruísta" ou "colaborativa" dos estoques antivirais reduz o impacto da pandemia. Em relação aos resultados obtidos por uma gestão "egoísta", o número de casos mundiais diminui em 10 a 1.000 vezes, dependendo do país e da estação durante a qual se desencadeia a epidemia.

Além disso, graças a esse modelo de administração, o aparecimento do auge epidêmico pode ser retardado por pelo menos um ano. Esse atraso pode se revelar crucial, pois permite desenvolver e produzir uma vacina no caso dos vírus gripais como o H1N1. Agir o mais rápido possível, na fonte, despachando medicamentos antivirais, parecer ser a prioridade absoluta.

Le Monde: Quais outros parâmetros exercem um papel no desenvolvimento da epidemia?
Barthélemy:
O que nós chamamos de "condições iniciais" contam muito. Elas determinam, entre outras coisas, o ambiente onde se produz a mutação viral que desencadeia a epidemia e o período do ano no qual se produz essa mutação. Dependendo de se o foco inicial se encontrar no hemisfério norte ou sul, dependendo da estação, a propagação da epidemia será muito diferente, pois os vírus gripais se transmitem menos facilmente no verão do que no inverno. Desse ponto de vista, a situação atual é mais favorável no hemisfério norte, o mais povoado, onde o verão vai começar.

A epidemia também será diferente dependendo dos parâmetros epidemiológicos da doença (sua contagiosidade, seu período de incubação e a quantidade de tempo pela qual o sujeito infectado é contagioso). Por enquanto, ainda que os vírus gripais sejam relativamente bem conhecidos, nós não sabemos quais são esses parâmetros para o H1N1.

Le Monde: Quais haviam sido os resultados da simulação da propagação dos vírus gripais?
Barthélemy:
Havíamos levantado a hipótese do surgimento em outubro, em Hanói (Vietnã), de uma mutação que tornou o vírus H5N1 transmissível entre humanos. Como o vírus mutado, ou seja, capaz de se transmitir entre humanos, era só hipotético, nós fizemos, entre outras coisas, variar sua contagiosidade - definida como o número médio de pessoas infectadas por um sujeito contaminado - entre os valores 1,1 e 2,3 típicos dos vírus gripais. Sem utilização de antivirais, e com uma contagiosidade do vírus superior a 1,5, quase 50% da população mundial seria atingida. Esse número diminuiu bastante em todas as regiões do mundo utilizando os antivirais de forma cooperativa.

Tradução: Lana Lim

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    0,29
    3,167
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h09

    -0,14
    74.337,78
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host