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02/05/2009

Arqueologia: nas pegadas dos Robinson negros

Le Monde
Benoît Hopquin
Em um dia de 2003, em Valparaíso, Max Guérout recolheu "uma garrafa no mar". A mensagem foi enviada pela internet, lançada ao acaso dos ventos e das correntes deste mundo infinito. Em pleno oceano Índico, um meteorologista francês suplicava a quem lesse aquelas linhas que se interessasse pelos náufragos da ilha Tromelin.

A 450 km de Madagascar e 550 km da ilha Reunião, essa possessão francesa reivindicada pelo estado Maurício, círculo de areia estéril de 1.500 por 750 metros e 8 no ponto mais elevado, foi o teatro de bolso de um acontecimento extraordinário. Em 1761, um navio negreiro, o Utile, naufragou nesse recife batido pelas ondas e salpicado de espuma. Abandonados pela tripulação, os escravos viveram lá 15 anos antes que os sobreviventes, sete mulheres e um bebê de oito meses, fossem socorridos.

No porto chileno, Max Guérout é capturado. Assim que volta à França, o especialista em arqueologia naval se lança no rastro do Utile. De Paris a Aix, de Lorient a Genebra, com um punhado de apaixonados, ele encontra nos arquivos vários depoimentos, um dos quais é atribuído ao escrivão de bordo, assim como contas prestadas à Companhia das Índias. Reconstitui-se então por retalhos uma aventura humana fora do comum.

Em 23 de julho de 1761, o Utile deixa o porto malgache de Foulpointe para a ilha de França (atual ilha Maurício). No convés, 140 tripulantes. No fundo do porão, 160 escravos embarcados em contrabando. Na noite de 31 de julho para 1º de agosto, o navio se choca com um pedaço de terra mal visível nos mapas, que assombra as histórias de marinheiros. A tripulação ganha a terra firme a nado. Vinte marinheiros morrem. Nenhum pensa em abrir as portas do porão. Os escravos estão destinados ao afogamento. Mas uma lâmina rasga o casco e 88 homens e mulheres atingem a praia. Cerca de 20 deles morrerão de esgotamento, de sede ou de ferimentos nas horas seguintes.

Preencher o vazio

A tripulação conseguiu recuperar víveres, armas e material de primeira necessidade. Ela cava um poço e atinge um lençol de água salobra, garantia de sobrevivência. Dois acampamentos são improvisados sob as velas recuperadas: o dos brancos e o dos negros. Estando a ilha afastada das grandes rotas, não se pode esperar avistar um navio de passagem. Os marinheiros constroem um barco com os destroços do Utile. Improvisam uma forja, uma oficina de carpintaria, os escravos os ajudam. A obra dura dois meses. "Desde o início os oficiais sabiam que a embarcação seria pequena demais para levar todo mundo." No grande dia os marinheiros abandonam as Malgaches, com a vaga promessa de voltar. Eles chegariam sãos e salvos a Foulpointe.

Em Tromelin, os náufragos se instalam em uma espera terrível. Sabe-se muito pouco sobre sua estada, a não ser os depoimentos muito fragmentados dos que escaparam. Em 2006 e depois em 2008, Max Guérout e uma equipe de voluntários empreenderam duas campanhas de investigação para preencher esse vazio. Sob o patrocínio da Unesco, a operação foi batizada "Escravos esquecidos". "Era preciso saber que tipo de sociedade pode ter-se organizado durante aqueles anos", explica o responsável pelo projeto. "É uma espécie de arqueologia da desgraça.

Uma verdadeira expedição, também. Tromelin é de difícil acesso. Ela abriga desde 1954 uma estação meteorológica onde vivem três ou quatro empregados em longas férias. Possui uma pista de urgência, mas é abastecida por barco, quando o mar autoriza. Cada descarga é uma aventura.

As campanhas duram um mês cada, sob um calor esmagador, em um conforto espartano. As escavações revelaram as fundações de um hábitat muito organizado, talhado no coral. Foram encontrados 400 objetos, entre os quais "cerca de 50 especialmente interessantes porque são a prova da imaginação e da indústria daqueles que lá viveram". Os habitantes se alimentavam de aves, tartarugas e seus ovos. Com a madeira à deriva, eles protegeram da intempérie o fogo deixado pelos marinheiros. Gamelas de cobre foram forjadas, roupas confeccionadas com plumas de aves. Os arqueólogos descobriram amuletos de conchas e dois braceletes de cobre fabricados no local. "Essas pessoas tinham ultrapassado as necessidades de sobrevivência, construíram uma microssociedade", constata Max Guérout.

"Nós encontramos 16 colheres e 16 recipientes de cobre", ele continua. Diminuindo rapidamente nos primeiros anos, a população parece ter-se estabilizado em cerca de 15 indivíduos cinco anos depois do naufrágio, e permaneceu nesse nível durante a década seguinte. As mulheres, "mais rústicas", suportaram melhor a vida dura.

Essa demografia se ajustava aos recursos da ilha, ou devem-se encontrar outros motivos? Sabemos apenas que depois de dois anos de esperanças vãs 18 pessoas tentaram a sorte em uma balsa. Para as outras, mistério. "Elas morreram de desespero, de doença ou em lutas fratricidas?" Houve combate pela sobrevivência ou solidariedade? A expedição procurou em vão até hoje o cemitério indicado em 1851 por um navegador inglês. "As ossadas, um crânio esmagado, por exemplo, nos dariam indicações preciosas." Guérout gostaria de formar uma nova expedição nesse sentido.

O calvário dos Robinson malgaches durou 15 anos. Mas sua história é conhecida por contemporâneos até na França. Jornais de grande tiragem contam o destino do Utile. Condorcet e outros se emocionam, mas as autoridades se desinteressam pelo destino dos infortunados.

Em 1775, enfim, um navio de passagem tenta socorrer os náufragos. Um homem é desembarcado mas deve ser abandonado no local pois o mar é hostil. O marinheiro constrói uma balsa, embarca com ele três mulheres e os três últimos homens. Eles desaparecem. Em 1776, o cavaleiro de Tromelin consegue finalmente recuperar os últimos oito sobreviventes e dá seu nome a essa terra maldita. Desembarcados na ilha de França, as mulheres são declaradas livres e batizadas. A criança é chamada de Moisés.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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