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05/05/2009

Base turca de Incirlik ganha importância estratégica para os EUA

Le Monde
Nicolas Bourcier Enviado especial a Incirlik, Ancara (Turquia)
Nenhum avião de combate, nem um único remanejamento de tropas há meses. Incirlik, a gigantesca base militar turca utilizada parcialmente há mais de meio século pela aeronáutica americana, parece bem calma, junto de Adana, populosa metrópole do sul do país.

Menos de meia dúzia de aviões cargueiros da US Air Force esperam, com os compartimentos abertos, suas cargas. Mesmo a piscina, os campos de golfe e de beisebol parecem abandonados ao sol triunfante. Longe das altas grades, entre as avenidas residenciais bem cuidadas, somente um Starbucks recém-instalado e o edifício central de comando remetem à imagem de uma certa atividade.

"Faz algum tempo que meu telefone não toca mais", reconhece Philip McDaniel, um cinquentão robusto e descontraído. Coronel encarregado das operações americanas da base, ele se apressa para acrescentar em um sorriso que diz muito sobre ele: "Mas eu sei que falam de Incirlik nas altas esferas". Uma forma de evocar à sua maneira a hipótese de um retorno ao primeiro plano desse local altamente estratégico para os Estados Unidos, e utilizado, diversas vezes, como um formidável meio de pressão diplomática pelos homens fortes de Ancara.

Meio século de existência

1951 Construção da base Incirlik. A Turquia entra na Otan.
1969 Acordo de cooperação e de defesa assinado entre Ancara e Washington.
1970 Os americanos passam de 35 mil a 16 mil homens.
1980 Novo acordo de cooperação econômica e de defesa.
2007 Mais de 70% dos aviões de carga americanos com destino ao Iraque passam por Incirlik.
2009 A base conta com 4.500 americanos, dos quais 1.500 são soldados.


A visita à capital turca, no início de março, da secretária de Estado Hillary Clinton, e a recente viagem de dois dias do presidente Barack Obama, considerada um sucesso por todos os comentaristas, trouxeram à tona o papel central que Ancara pode exercer na nova política regional americana. Missões de mediações com o Irã, Israel, Síria e Geórgia; encontros tripartites com os chefes de Estado afegão e paquistanês: os turcos, após os anos de tensões ligadas à administração Bush, avançam sobre a cena internacional munidos da aprovação dos americanos. Sobretudo, o aliado da Otan poderá ser chamado para representar uma divisão maior no Iraque e no Afeganistão. "São apostas para as quais compartilhamos objetivos comuns", garante-se à embaixada americana em Ancara.

A retirada programada das tropas do Iraque foi saudada com unanimidade pelos dirigentes turcos. E o reforço das unidades americanas no Afeganistão poderá ser acompanhado em seguida de um aumento do número de especialistas e de militares turcos na região. Dois teatros de operações onde "Incirlik continuará a exercer um papel importante", acrescenta com uma frase vaga, a fonte americana, antes de dizer: "Especialmente pelo Iraque, essa base continua sendo vital para nossas operações".

Construída pelos EUA nas primeiras horas da guerra fria em razão de sua localização ideal para seus bombardeios - um céu limpo o ano inteiro, um raio de ação que cobre todo o Oriente Médio e distante somente 1.600 km de Moscou -, Incirlik não parou de aumentar seu perímetro de intervenção. É daqui que veio o apoio aéreo para a expansão militar americana no Líbano durante a crise do verão de 1958. Foi aqui que os famosos aviões espiões U2 ficaram camuflados por muito tempo. Foi aqui também que o exército americano estocou, segundo diferentes ONGs, ogivas nucleares - 90 bombas B 61, de acordo com as últimas estimativas. "Assunto sobre o qual não me pronunciarei", interrompe, com seu sorriso imutável, o coronel McDaniel.

Mas é a partir da primeira guerra do Golfo (1990-1991) que a base ganhou sua fama na região. Transformada em quartel-general do exército americano, Incirlik se impôs como a rampa de lançamento das principais ofensivas militares e missões de bombardeio. Capaz de gerar duas operações simultaneamente, o local também serve de ponto de rotação para encaminhar ajuda humanitária aos curdos iraquianos.

Após a interdição de sobrevoo do norte do Iraque imposto em 1991 no regime de Bagdá, mais de 50% das missões americanas no mundo gravitam, segundo a revista "Air Force Times", pela Turquia. Um papel-chave que forçará Osama Bin Laden a posicionar a base entre os alvos de sua organização, a Al Qaeda.

A invasão iraquiana, lançada pela administração Bush, manchará por muito tempo as relações entre Washington e Ancara. Em março de 2003, os deputados turcos proibiram os soldados americanos de andarem sobre o solo do país. Seis meses de duras negociações foram necessários para que o governo contornasse o voto do Parlamento e autorizasse os Estados Unidos "enquanto aliados" a utilizarem Incirlik para facilitar o abastecimento das tropas.

Isso não impediu que a base se tornasse, segundo a expressão de Frank Hyland, ex-agente da CIA e atualmente especialista na Jamestown Foundation, "refém" de Ancara.

Burocracias administrativas, autorizações de sobrevoo do território concedidas a conta-gotas... em 2007, os turcos ameaçaram retirar seu apoio logístico se o Congresso americano adotasse um texto classificando como genocídio os massacres dos armênios perpetrados sob o Império Otomano, no início do século 20. Robert Gates, o atual secretário de Estado da Defesa, que ocupou esse posto durante esse período, se opôs então à resolução, invocando "as implicações consideráveis" para as operações militares americanas em caso de represálias.

O voto foi rejeitado. No mesmo ano, após novas pressões, o presidente George Bush aceitou fornecer informações em tempo real sobre a localização de rebeldes curdos do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) obtida graças aos voos de vigilância no norte do Iraque.

"Agora esse jogo acabou", garantem os especialistas militares americanos em Incirlik e Ancara. "A lua de mel entre os EUA e a Turquia poderá fazer de Incirlik um dos símbolos desse renascimento", segue na mesma linha Lale Sariibrahimoglu, especialista em questões de defesa do jornal "Taraf". "Ainda que o transporte de armas e de soldados americanos continue sendo mal visto pela opinião pública turca, quem verá o carregamento dos aviões fora os militares turcos?"

Para Selin Bölme, doutoranda sobre Incirlik na Universidade de Ancara, a importância da base também deverá ser confirmada a partir da retirada da maior parte das tropas americanas do Iraque, em agosto de 2010. "No caso de uma degradação da situação ou de um imprevisto na região, ela oferece a resposta mais rápida e menos custosa", ela afirma. "As bases alemãs são distantes e caras. Os locais americanos alternativos como aqueles do Iraque ou do Cáucaso não possuem nem seu potencial, nem sua confiabilidade".

Por enquanto, 50% dos aviões de carga militares com destino ao Iraque passam por Incirlik. A cada dia, de seis a oito imponentes C-17 decolam das longas pistas da base. Dois deles partem para o Afeganistão, segundo os números divulgados pelo coronel McDaniel. "É um pouco menos para o Iraque do que um tempo atrás", ele sussurra, "e um pouco mais para o terreno afegão". Como em eco de uma tendência que se anuncia.

Tradução: Lana Lim

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