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05/05/2009

Professor conquista os alunos com salame e pão de forma nas aulas de matemática

Le Monde
Mustapha Kessous Enviado especial a Anaheim (EUA)
Não são nem 7h30, e Anaheim desperta tranquilamente neste sábado de abril. Este subúrbio banal de Los Angeles ainda está sonolento enquanto 80 adolescentes desembarcam no estacionamento de sua escola particular, alguns de Porsche, outros de BMW. Para esses alunos da Fairmont Preparatory Academy, o "spring break", as férias de primavera, pode esperar: é hora de sua aula de matemática. Nada de obrigatório, apenas um curso de aprofundamento.

Mal chegam, os alunos, com idade entre 14 e 18 anos, se apressam para tirar as cadeiras e carteiras da sala de aula. Um assistente do professor escreve, com o pincel atômico preto, um número (de 1 a 80) na mão de cada um. Aqueles que já foram marcados batem papo diante da porta de entrada, na qual está colada uma grande estrela dourada. Uma estrela para a estrela da escola: o professor de matemática, Sam Calavitta, "Mister Cal" para seus alunos.

Quarentão, de cabelos curtos em estilo militar, olhos da cor do mar, cara de boxeador, esse professor de sorriso imutável é um ovni do ensino "made in USA". São 8 horas. Depois de cumprimentar seus alunos, ele solta: "É bom ser campeão do mundo". Os alunos repetem a réplica em coro. "Essa frase é uma ferramenta de motivação", explica o professor. "É uma metáfora, pois quero que meus alunos se esforcem para serem os melhores".

Nessa manhã, a aula vai começar, como sempre, com uma competição: a "Cal-competition". "Os números pares à esquerda, os ímpares à direita", recita o professor. Eles gritam, brincam... "Eu chamo primeiro os números 1 a 20, as duas equipes em fila na minha frente", ele grita. A regra é simples: dois alunos devem resolver uma equação ou responder a uma questão. O vencedor vai para o fim de sua fila, o perdedor é eliminado e vai se sentar. Armado de uma pilha de papéis, Sam encadeia as questões: "Quais os três nomes dos derivados?" Um aluno se mostra o mais rápido. "Yeahhh, você acertou...", berra o professor com sua voz áspera. Todo mundo aplaude.

Enésima questão. Silêncio. Nenhuma das duas garotas encontra a resposta. A tensão aumenta, os cérebros esquentam. "Casa", grita o professor. É uma forma de chamar Robert Shelton, de 39 anos. Encarregado da segurança do estabelecimento, ele gosta de participar dessa competição "por prazer". Robert segura um balde de ferro cheio de fichas numeradas, mergulha a mão, agita. "45!", ele exclama. "45?", pergunta Sam. Um aluno, que lhe mostra sua mão onde está escrito esse número, responde à questão. O 45 acaba de salvar seu colega, que permanece no jogo. Eles aplaudem mais: aliás, é uma obrigação.

A Cal-competition acontece em três rodadas: uma equação simples para ser resolvida; o "flash", onde o professor mostra uma fórmula que deve ser completada; e equações mais complexas. "Essa competição tem por objetivo colocar os alunos em confronto", explica o instrutor. "Se eles querem ganhar, isso os obriga a serem os melhores". Os vencedores da competição recebem como recompensa "Cal bucks", como dólares de mentira: vermelhos, verdes, cinza. Caso recebam uma avaliação ruim, com essas notas eles podem comprar uma melhor. O professor sorri: "É uma boa fonte de motivação. Eles se envolvem mais quando se criam situações em que possam ser bem sucedidos".

São 9 horas. Os rapazes e as garotas levam de volta à sala de aula as cadeiras e as carteiras. Eles tiram seus estojos: no programa, cálculo de volumes. E para ilustrar essa lição, o professor utiliza como compasso ou esquadro... pão de forma, queijo e salame. "Ahhhh!", gritam os alunos em coro, com nojo, quando ele cola o salame na lousa para demonstrar uma fórmula. Todos estão concentrados, hipnotizados, bebem os teoremas como refrigerante. São 10 horas, fim da aula. "Preciso de mais 15 minutos, mas podemos parar, se vocês quiserem", diz Calavitta. "A gente fica", grita a classe. E no fim desse quarto de hora, antes de deixar a escola, todos os adolescentes dizem em uníssono: "Que dia maravilhoso, senhor Cal!"

Método esquisito? Nesta escola (que custa quase € 13 mil ao ano), os alunos da Fairmont Preparatory Academy obtêm um dos melhores resultados do país nos exames de matemática do Advanced Placement. Em 2008, os 81 alunos da escola que fizeram esses testes foram recebidos com uma média de 4,79 em 5. Sessenta e nove obtiveram a nota máxima quando a média nacional foi de 3,03.

Sam Calavitta recebeu, em 19 de fevereiro, o prêmio Siemens, que recompensa a cada ano 50 professores nos EUA (um por Estado) pela "excelência de seu trabalho". Em sua sala, ao lado de fotos de ex-alunos, de sua família, de poemas, de uma camiseta amarela do Tour de France (Sam é um fã), pôsteres com slogans positivos ("Nunca, nunca desistir"), uma carta de 2006 do... presidente dos EUA, George Bush, que o felicita por seu método de ensino.

"Nas outras aulas, ficamos olhando o relógio", garante Richal Asija, 17, "mas com ele, o tempo passa rápido demais. A gente não se entedia nunca!" "Fico esperando pela aula de matemática", jura Anar Bhansali, 18. "O senhor Cal nunca se irrita, ele faz de tudo para conseguirmos entender: com ele, a matemática fica fácil" "Ele mudou minha vida", suspira Stephen Whitlock, 22, um ex-aluno da escola que se tornou seu assistente, e que se prepara para ser professor de matemática. Assim como Elisabeth Thaï, 19, uma ex-aluna de Fairmont. "Teve um dia", ela recorda, "que ele colocou uma cadeira sobre a mesa, e se sentou nela para dar aula: foi uma loucura! A gente sempre imagina o que ele vai inventar". "O entusiasmo é contagioso", brinca o professor. A chave de seu método de ensino? Espantar o tédio, mostrar consideração por seus alunos, prender sua atenção o tempo todo.

A trajetória desse professor de matemática não foi uma simples linha reta. Aos 25 anos, esse engenheiro aeroespacial se entediava projetando satélites. Vindo de uma família de professores, ele também queria lecionar. "Mas esse trabalho foi muito desvalorizado por pessoas que nem ligam para os alunos, que estão lá somente para passar informações", ele conta, amargurado. "Não há amor, não há paixão". Foi o que ele constatou desde o primeiro dia de sua carreira, em 1989, na Victor Valley High School, em Victorville, subúrbio distante de Los Angeles. Quando ele perguntou onde era a sala 141, um colega lhe respondeu: "Você quer dizer o reino selvagem?"

Sua primeira classe? Membros de gangues, garotas que se prostituíam, suicidas... um aluno foi executado algumas semanas mais tarde, outros acabaram na prisão... "A última coisa que eles tinham vontade era de aprender", explica o professor. "Eles procuravam sobretudo permanecer vivos". Ele tenta em vão ganhar seu respeito, fazê-los ficarem quietos... "Eu entendi que meus alunos não iam mudar, a menos que tivessem uma razão para isso", ele se recorda. Muitos deles vêm de lares desfeitos, às vezes vivem em casas abandonadas... "Era preciso que eu fosse capaz de lhes dar essa razão", ele afirma.

Sua solução: primeiro, tornar suas aulas atraentes e engraçadas. "Se isso funcionasse, metade de minha batalha estaria ganha", ele explica. A outra parte: fazer seus alunos virem à escola e à sua aula. Para isso, ele os coloca em um ambiente "positivo", cumprimenta-os um a um, mostra que eles são importantes para ele... "Quis que eles soubessem que, juntos, poderíamos progredir", garante o professor. "Porque a vida é isso. Depois vem a escola, e depois a matemática". E assim nasceu o "método Cal".

Desde então, Sam Calavitta escreveu dois livros, "Calgebra" e "CALculus", e ele acaba de redigir sua autobiografia, "Making the difference" ("Fazendo a diferença"). Depois de ter lecionado em outros estabelecimentos públicos, ele "estourou" na escola particular de Fairmont (550 alunos) há mais de cinco anos, onde seu presidente, Robertson Chandler, se alegra de ter um professor que atrai novas matrículas. Quantas? Isso não se informa, para não criar inveja demais entre os outros professores.

Sam Calavitta é um cristão fervoroso. "É o que explica porque eu gosto dos meus alunos e não os julgo", ele conta. Em sua discreta casa de Yorba Linda, as refeições sempre começam com orações. Uma imagem de Cristo tem lugar de honra sobre as fotos de seus nove filhos. Com idades entre 1 e 18 anos, todos eles têm um nome italiano, para lembrar as origens de seu pai. "Muitos de nossos colegas nos invejam", sorri Ciena, a mais velha. Essa aficionada por armas, que ganhou uma 9 mm quando se formou na escola, assim como os outros membros do clã, adora caçar búfalos no seu rancho em Montana.

Lá, Sam Calavitta, um ex-lutador que participa regularmente do Ironman (um triatlo de 3,8 km de nado, 180 km de bicicleta e 42,2 km de corrida), organiza todos os verões o Eternal Warrior Wrestling. No panfleto, esse acampamento de luta reservado aos adolescentes de 13 a 18 anos é apresentado como um dos mais duros dos Estados Unidos: 15 horas de treino por dia durante duas semanas por € 900 - o professor de matemática paga para aqueles que não podem. "Os jovens devem aprender que a vida é dura", ele ressalta, pois para ele o esforço é a essência da existência. "Os juízes nos enviam jovens que pertencem a gangues. No final do acampamento, eu lhes garanto que eles aprenderam a humildade e a ajuda mútua".

Tradução: Lana Lim

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