UOL Notícias Internacional
 

06/05/2009

Dentro do "inferno do jogo" birmanês

Le Monde
Bruno Philip
Enviado especial a Pangwa (Mianmar)
Um céu de monção desliza nuvens escuras sobre a fronteira entre a China e Mianmar. O "coiote" [pessoa que ajuda a atravessar fronteiras clandestinamente] estacionou seu carro a algumas centenas de metros antes dos prédios da alfândega chinesa. À esquerda, uma trilha aberta no pinheiral se esgueira em direção a Mianmar (nome dado pela junta militar em 1989 à antiga União da Birmânia). Algumas centenas de metros depois, um cartaz branco com grandes caracteres chineses pretos avisa a todos aqueles que ousam se aventurar mais adiante: "É estritamente proibido atravessar a fronteira!"

Mas o coiote, seguido de nosso grupo composto sobretudo por chineses que vieram para se degradarem nesse território minúsculo controlado por combatentes separatistas da etnia kachin, atravessa alegremente a porção de arame farpado despedaçado que marca a fronteira. Alguns metros mais abaixo, diante de um depósito de lixo, uma guarita vazia mostra que a entrada em Mianmar se dá em uma zona situada sob a autoridade da New Democratic Army-Kachin (NDA-K), uma guerrilha que assinou em 1989 um cessar-fogo com os generais de Rangun.

Grupos insurgentes muito divididos

Desde o fim dos anos 1980, e sobretudo em meados dos anos 1990, a maior parte dos grupos insurgentes birmaneses provenientes de minorias étnicas, que guerrearam durante décadas contra o governo central, fizeram acordos de cessar-fogo com a junta militar.

Em 1989, o Partido Comunista Birmanês (PCB) se deslocou sobre uma base étnica e se dividiu em quatro grupos distintos após o motim das tropas wa, integradas ao partido. Um dos exércitos da etnia kachin, que controla a zona dos cassinos clandestinos na fronteira chinesa, o New Democratic Army-Kachin (NDA-K) é um dos grupos que concluíram um acordo com Rangun vinte anos atrás. Nos anos 1960, esse "Exército" ainda estava integrado ao principal grupo armado kachin, o Kachin Independant Army (KIA), que também fez as pazes em 1994 com o governo. Agora, os especialistas estimam que, nesse Estado do Norte birmanês, menos da metade do território permanece sob o controle dos insurgentes, muitas vezes incapazes de superar suas divisões...

Entre os outros grupos que depuseram as armas, citemos o Mong Thai Army (MTA), do senhor do ópio Kun Sha, ou o Shan State Army (SSA), combatente pela etnia de mesmo nome... Somente a Karen National Union (KNU), a mais antiga guerrilha do mundo, que luta desde 1949, continua a provocar o regime.

Apesar de Mianmar estar em paz há quinze anos em todas as outras partes, a situação poderá se degradar no Estado shan: segundo o "The Irrawady", um site sobre Mianmar com base na Tailândia, o lugar crescente da China na economia regional e as pressões exercidas pela junta sobre a guerrilha local para levá-la a depor as armas antes das eleições nacionais previstas para 2010 provocam uma "instabilidade" crescente.
Pangwa não é um destino turístico. É uma cidade desagradável, uma mistura de casas de madeira com barracos de concreto enfileirados sobre as colinas, dominada pela flecha de ouro de um grande estupa budista. O pequeno grupo de jovens chineses, que vieram aqui experimentar as emoções de uma aventura barata, assumiu esses riscos calculados por uma razão simples: em Pangwa, como mais ao sul, nessas zonas fronteiriças controladas por grupos de ex-insurgentes, cassinos clandestinos prosperam desde o início dos anos 2000.

Controlado por mafiosos da China que subornam guardas de fronteiras e funcionários chineses ao mesmo tempo em que pagam um "dízimo" à guerrilha, o cassino tem o nome de "Palácio ensolarado". É, na verdade, uma grande sala iluminada por néons onde se encontram uma dúzia de mesas surradas tomadas por jovens funcionárias que anunciam com uma voz estridente - em chinês - "Façam seus jogos, últimas apostas!" em um ambiente de lupanar provinciano. Quase todos os clientes vêm da China - o cassino fica aberto 24 horas - e parecem pequenos burgueses. O único jogador birmanês, um homem de rosto sombrio, vestido com o tradicional longyi, joga suas fichas sobre o feltro verde. Um outro cliente, com a cabeça raspada e coberta de cicatrizes, e falanges tatuadas com símbolos misteriosos, chama a atenção nesse cenário de meliantes: ele dispôs diante de si fichas de 1000 yuans (cerca de R$ 285) e aposta alto. Pouco depois ele se levanta, acende um cigarro e diz, ao sair: "Acabo de perder 50 mil pratas!"... Ao redor das mesas desse jogo complicado, uma espécie de black-jack à moda chinesa onde o apostador joga números contra a banca, abundam inspetores usando distintivos com sobrenome e foto.

Vigias de uniforme e de fisionomia desagradável completam a máquina: eis o "inferno do jogo" à moda birmanesa. Macau é longe! Aliás, é pelo fato de os cassinos serem proibidos na China, com exceção da ex-colônia portuguesa devolvida à República Popular em 1999, que as casas de jogos abundam nos países fronteiriços, Mianmar, Laos, Vietnã...

Pangwa é um vilarejo estranho: habitada por comerciantes chineses, povoada por kachins amáveis, a pequena cidade é protegida por guerrilheiros sorridentes camuflados que percorrem as ruas, portando fuzis-metralhadoras. Aqui, há tantas igrejas quanto cassinos. Um legado dos missionários europeus que começaram nessa região seu trabalho de evangelização no final do século 19. No domingo, é festa no novo lar do "Nosso Senhor Jesus", onde o pastor batista celebra a missa diante de uma sala cheia, vestido com um grande hábito branco e um curioso chapéu azul. Do lado de fora, um punhado de jovens guerreiros fazem a vigilância.

Essa atmosfera pacífica, muito longe do clima diabólico dos cassinos, esconde uma realidade das mais tenebrosas: um jovem chinês conta que, recentemente, jogadores que haviam "perdido somas enormes" foram assassinados por membros da máfia dos cassinos. "Eles tinham ameaçado denunciar os donos para as autoridades chinesas", ele explica. Um website de informações online com base na Tailândia, o Kachin News Group (KNG), confirmou em janeiro que o cassino de Chang Ying Hku, situado vale abaixo, controlado pelo NDA-K, foi fechado sob pressão chinesa após "o recente desaparecimento ou o assassinato de 80 apostadores". Aqui, não se faz nada sem o aval de Pequim e empresários chineses, únicos investidores.

Boatos assustadores circulam sobre o tratamento infligido aos maus perdedores que não conseguem mais devolver as somas emprestadas pelos agiotas dos cassinos.

Essas zonas servem também de prisão para os jovens chineses que gângsteres atraíram para essas terras sem fé nem lei, seja para incitá-los a jogarem, seja para lhes propor trabalho. Segundo o "Shanghai Daily", dezenas de adolescentes vindos de Shanxi, ao sudoeste de Pequim, foram raptados e passaram várias semanas em uma cela antes de serem libertados mediante resgate. A agência de notícias Chine-Nouvelle citou o caso de 19 deles, soltos mediante o pagamento de milhares de euros por cabeça.

Esses escândalos forçaram as autoridades chinesas a pressionarem os guerrilheiros birmaneses. Os policiais chineses intercederam em Maijiayang, no sul de Pangwa, nesse território controlado pela Kachin Independent Army (KIA), que assinou acordos de cessar-fogo em 1994 com Rangún. Segundo o jornal "Les Nouvelles de Pequim", todos os cassinos da zona foram fechados após delicadas negociações entre autoridades chinesas e senhores de guerra locais. Em dado momento, esses últimos chegaram a ameaçar enviar de volta a Yunnan todos os chineses que não estavam com os documentos em dia. No começo do ano, 5 mil funcionários de cassinos, apostadores e lojistas foram embora.

No entanto, os dirigentes da KIA negaram qualquer envolvimento nos sequestros. Uma afirmação pouco convincente, quando se sabe que o jogo se baseia em um sistema bem estruturado, como explica nosso coiote: "Os proprietários dos cassinos revertem uma parte de seus ganhos para os guerrilheiros, que vivem, entre outras coisas, do aluguel de salas de jogos para os mafiosos. Eles molham a mão dos guardas das fronteiras para que estes diminuam seus patrulhamentos ao longo da fronteira".

Antes do posto fronteiriço de Pangwan, um cartaz mostra as intenções do governo chinês, preocupado de ver os funcionários corruptos irem gastar na Mianmar insurgente o "dinheiro do povo". "Os contraventores serão punidos com três anos de prisão e os funcionários sofrerão sanções disciplinares", ele anuncia. Não se pode ignorar a ameaça: o cartaz domina o caminho por onde se esgueiram, agora em menor número, os chineses atormentados pelo demônio do jogo.

Tradução: Lana Lim

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