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10/05/2009

Cristina Kirchner restaura mural do pintor mexicano Siqueiros

Le Monde
Christine Legrand
Em Buenos Aires
A Cidade do México e Buenos Aires estão a mais de 7.400 quilômetros de distância, mas os governos da Argentina e do México poderiam disputar um dia a posse de um muro. Não qualquer um, é verdade: um mural de cerca de 200 metros quadrados, pintado em 1933 na Argentina pelo mexicano David Alfaro Siqueiros (1896-1974), que passou à posteridade por seus afrescos, mas também por ter participado em 1940 de uma tentativa (abortada) de assassinato de Trotsky. A história desse mural provocou um crescente interesse nos meios artísticos, políticos e judiciários dos dois países, apesar de ter ficado esquecido em contêineres durante cerca de 20 anos.

A saga começa nos anos 1930, com a chegada a Buenos Aires do célebre muralista mexicano e sua mulher, a poetisa uruguaia Blanca Luz Brum. Convidado por uma literata muito influente e aristocrática, Victoria Ocampo, para dar uma série de conferências, o comunista Siqueiros daria apenas uma: seus elogios à arte popular e revolucionária chocaram tanto que as palestras seguintes foram anuladas.

Na rua, o artista aceitou o convite de um personagem singular, que não era outro senão o amante de sua mulher: Natalio Botana, diretor do grande jornal da época, "Critica". Este lhe ofereceu casa e comida em troca de um mural.

Siqueiros se instalou na luxuosa residência de Botana em Don Torcuato, nos arredores de Buenos Aires, e decidiu trabalhar no porão. Pediu ajuda a prestigiosos artistas locais - Antonio Berni, Juan Carlos Castagnino, Lino Spilimbergo - e ao diretor de teatro uruguaio Enrique Lazaro. Os cinco passaram quatro meses fechados nessa peça obscura, pintando suas paredes, o teto e até o piso. O resultado? Não uma pintura social, como aquelas com que Siqueiros havia revestido diversas paredes no México ou em Nova York, ao preço de algumas temporadas na prisão, mas uma bolha de água transparente na qual nadam figuras inquietantes, na maioria femininas: as sensuais nereidas.

Diversas anedotas circulam sobre esse mural, batizado de "Exercício Plástico". Uma delas diz que para desenhar as nereidas Siqueiros fechou sua mulher nua em um cubo transparente, projetando sua silhueta nas paredes. Depois de se separar dela e antes de deixar a Argentina, Siqueiros teria substituído o rosto da uruguaia infiel por outros...

Com a morte prematura de Natalio Botana em 1941, a residência e o mural mudaram várias vezes de proprietários. Conta-se que a mulher do primeiro comprador, Alvaro Alsogaray, ministro da Economia nos anos 1960, considerou a obra obscena e mandou cobri-la com uma mão de cal.
O último proprietário, uma empresa argentina, decidiu desmontar o mural e exibi-lo em todo o mundo. Em 1991 ela chamou um restaurador mexicano, Manuel Serrano, para garantir sua conservação. Foi ele quem desmontou o mural e o cortou em seis pedaços, colocados em quatro contêineres, tomando o cuidado de aplicar resina no verso dos frágeis painéis (alguns têm menos de 10 mm de espessura).

Infelizmente, depois de uma falência, os contêineres foram vendidos em 1994 para outra empresa por 648 mil euros. Objeto de litígio judicial, os preciosos recipientes ficaram abandonados e entregues à intempérie em um terreno baldio na periferia de Buenos Aires. Até que em outubro de 2008 a presidente argentina em pessoa, Cristina Kirchner, se comprometeu junto a seu homólogo mexicano, Felipe Calderón, a restaurar o mural.

Sem decidir o litígio sobre a propriedade do mural, a Justiça autorizou que ele seja restaurado por uma equipe da Universidade Nacional de San Martin, em colaboração com Manuel Serrano. Depois de cinco meses de trabalho em um armazém próximo à Casa Rosada, o palácio presidencial, "Exercício Plástico" reencontrou seu esplendor.

"A grande surpresa foi descobrir que o mural estava bastante conservado", afirma, comovido, Néstor Barrio, diretor da equipe de restauração argentina. "Os contêineres estavam enferrujados, mas o mural estava intacto." "Foi preciso principalmente limpá-lo com água e sabão", acrescenta Diana Weschler, historiadora da arte que participou da restauração. Uma equipe de engenheiros teve um papel importante para transportar a obra e extrair dos contêineres os pedaços do mural, cada um deles pesando 2,5 toneladas.

Apesar de sua temática, é um "mural revolucionário", salienta Weschler, entusiasmada: "Ele rompe com todas as regras de perspectiva, criando um efeito de caleidoscópio. Não é o espectador quem contempla as figuras pintadas, mas estas que parecem observá-lo conforme o lugar onde ele se coloca".

O aspecto revolucionário também se refere ao uso de técnicas de vanguarda. Ele foi pintado sobre cimento com tintas sintéticas e depois revestido de sílica para fixar os pigmentos - nas cores ocre, verde e azul -, o que explica que tenha resistido ao tempo.

O que André Breton chamou ironicamente de "artista de pistola", depois da tentativa de assassinato de Trotsky, não deixou qualquer vestígio de pincéis, exceto em alguns detalhes. Os artistas preferiram aerógrafos e estênceis. Seu objetivo, como indica o título do mural, foi realizar um exercício plástico único em seu gênero.

Este foi declarado de interesse artístico nacional pelo governo argentino. "Ele foi encomendado e pintado no solo argentino, é uma obra coletiva com a participação de artistas argentinos", insiste Néstor Barrio, que descarta que o governo mexicano possa reivindicar o célebre mural. A presidente Kirchner deseja que ele seja exposto em Buenos Aires em 2010, para a comemoração do bicentenário da Revolução de Maio, que levou à independência argentina. O afresco seria montado como era na origem, com as paredes, a cúpula e o piso, e exposto na antiga alfândega Taylor, nos jardins da Casa Rosada.

Resta saber quem será, aos olhos da Justiça, o beneficiário final da restauração. No governo argentino não se exclui a possibilidade de apropriar-se do mítico mural. O revolucionário Siqueiros, morto no México em 1974, seria contrário a uma nacionalização de sua obra?

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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