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11/05/2009

Itália tenta evitar a influência da máfia na reconstrução de Abruzzo

Le Monde
Salvatore Aloise Enviado especial a Nápoles (Itália)
Na época do terremoto, ele era só um garoto. Hoje, Fabio Tirelli tem 40 anos. Prefeito do 9º distrito de Nápoles, ele encontra desabrigados para um reconhecimento dos lugares onde devem ser construídas moradias que lhes serão destinadas sobre um terreno vago de Soccavo, bairro na parte nordeste de Nápoles. O terremoto "dele" aconteceu na região, em 1980. Provocou quase 3 mil vítimas, e as obras intermináveis para uma reconstrução custaram € 30 bilhões.

Isso caiu do céu para a Camorra, a máfia napolitana, que se infiltrou em todos os níveis. Com base em sua experiência, os habitantes de Soccavo têm um conselho para dar aos de Abruzzo: "Eles devem se organizar logo, criar comitês como nós, por precaução", diz um deles, Raffaele Ursumando.

Christophe Simon/AFP - 7.abr.2009 
Policial italiano observa casa destruída após terremoto que atingiu região de Abruzzo


Para a reconstrução em Abruzzo, o governo prometeu um orçamento de € 8 bilhões. Na verdade, o auxílio será de apenas € 5,8 bilhões, distribuídos até 2032 e sem uma real cobertura financeira, denunciam as comunidades locais interessadas. O promotor nacional antimáfia anunciou a nomeação de quatro magistrados que darão seguimento aos procedimentos relativos às obras.

Trata-se de aprender as lições do terremoto da região de Nápoles para evitar uma intervenção da máfia. O epicentro do sismo de 23 de novembro de 1980 se encontrava a cem quilômetros ao leste de Nápoles. Mas, quando chegou a hora de construir moradias - cerca de 85 mil - , foi a capital do Mezzogiorno [o sul da Itália] que ficou com a parte do leão.

Trinta anos mais tarde, muitas dessas moradias ainda estão inacabadas. Como aqui, em Soccavo, onde o prefeito explica que seu bairro inicia a última fase da reconstrução: "Nós demolimos os pré-fabricados que haviam sido instalados em 1985 e não durariam mais que alguns anos, para dar finalmente moradias definitivas aos desabrigados".

A Camorra tirou proveito dessas obras intermináveis. Para Amato Lamberti, diretor da Vigilância sobre a Camorra, esta última logo entendeu que o domínio das obras públicas poderia ser tão vantajoso quanto o contrabando de cigarros ou o tráfico de drogas. "Pense no contexto que se apresentava na região no dia seguinte ao terremoto. Era preciso reconstruir tudo, caminhos para os edifícios públicos e privados... A Camorra disponibilizou seus homens, suas escavadeiras, suas empresas. Graças a suas ligações com a política corrupta, ela conseguiu ganhar as licitações, tornando-se a parceira de fato da reconstrução".

Deserto industrial
A política lhe ofereceu um outro terreno onde se inserir, o da participação nas obras para os locais de desenvolvimento industrial. Após o terremoto, quiseram levar a industrialização para essas zonas que permaneciam deixadas de fora. O dinheiro chegou em abundância, sem grande controle dos empresários que aceitavam se deslocalizar ou se lançar à aventura.

Basta percorrer um desses locais para constatar os danos: um deserto industrial, como em Buccino, cem quilômetros ao sul de Nápoles, onde esqueletos de dezenas de galpões vazios foram invadidos pela vegetação que retomou o terreno.

É o mecanismo dos financiamentos "chave na mão", as "concessões" a empresários aos quais só foi exigida a criação de um determinado número de empregos que foram a desgraça desse desenvolvimento "artificial", ressalta Carmine Cocozza vice-prefeito da cidade vizinha de Auletta, que se tornou um especialista nessa desordem.

"Muitas vezes, eram industriais do Norte que desmantelavam velhos galpões, às vezes com máquinas obsoletas... Eles as transferiam para cá, recebiam os fundos para a formação profissional ao empregar jovens, e após um ano ou dois, uma vez obtidos os financiamentos, muitos desapareciam sem deixar endereço".

Algumas dessas empresas não chegaram a abrir nem por um dia, contentando-se com a primeira parcela do financiamento. Outras abriram por algum tempo. Um operário conta: "Nós acabamos acreditando nisso, mesmo que, desde o início, dissessem que era uma ideia bem excêntrica enlatar atum em plena montanha, a 80 km do mar..."

Tradução: Lana Lim

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